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02.03.2010
Povo em movimento
Derrubaram
e pisaram tudo
Sapatearam
a Barra da Braúna
Com a bota
suja e prepotente de uma multinacional.
Quebraram
a espinha dorsal do nosso Rio Pomba
Bem na
descida das pedras no meio da corredeira
Prenderam
sua energia
Seu corpo
treme e agoniza jogado ao sabor do vento:
Deitado
sobre as planícies
Encostando-se em cada grota
Chorando
de dor.
Dizem que
há peixes mortos pelas bandas do Sisnero
Naquele
leito magrelo de um rio que já se foi
Dizem
também que uma onça se atropelara na estrada
Do
acidente fatal caíra morta no chão
Contam que
bichos se afogam no lago da traição
Que vem
crescendo pançudo invadindo a região
Será tudo
isso um crime ou sina da criação?
Falaram
das maritacas gritando em desespero
Duas mil
vozes em uma: ‘para onde vou?’, ‘para onde vou?’
Violaram o
seu habitat e roubaram-lhe o alimento
O que
produzia fruto agora é lenha no chão
Segredando
qualquer coisa a quem as soubesse ouvir
Formaram
um manto verde de desespero esperançado
E partiram
em algazarra: ‘para onde vou?’, ‘para onde vou?’.
A
castanheira centenária e por demais generosa
Pagou com
fartos frutos o golpe da maldição
Coqueiros
tombaram mortos se espatifando ao chão
Banhando a
terra de água e das lágrimas de tanta gente
Descontente com a ganância que traz a destruição.
Contaram
da cachorrinha que sentira a falta do amigo
Mostrando-se solidária àquele minguado de vida
Na sua
partida triste sem dono que o levasse
Para um
barraco de nada num pasto perto da estrada.
A
cachorrinha ladrou ‘ladrões!’ e resistiu nas ruínas
Ficando
magra de fome e de matutar no que via:
Destino?
Sina?
O que faz
o amigo humano levar uma ‘vida de cão’?
Do peixe
que restara vivo
Da planta
viva em semente
Da
maritaca que indaga,
Da cadela
resistente
De gotas
de humanidade naquele mar de ambição
Do vento
da liberdade soprado na rebeldia
Gente
tocada da terra junta força e facão
E do mundo
que desabava no golpe que fora fundo
Desfilam
uns poucos nomes no clarão de um novo dia
Sebastião,
José, Isabel: uns dez ou pouco mais.
Algumas
pitadas de fé naquela gente sofrida
Fez-se
caminho e caminhada, bandeira de um novo tempo
Vencendo a
prepotência com o povo em movimento.
Claret
Fernandes |