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11.12.2009
Grandes Projetos de Energia só dão lucro para alguns

Apesar de todos os
protestos, documentos comprobatórios das irregularidades e
mobilizações, o governo brasileiro segue comprometido com
essa via de desenvolvimento
Elaine Tavares
A água desceu do céu na cabeça
daqueles que se recusam a vê-la encharcando campos
produtivos. Dois dias de chuva forte e dois dias de intensos
debates, justamente para discutir os destinos das águas e da
energia neste país. Foi o Seminário Sobre Grandes Projetos
de Energia, promovido pelo Movimento dos Atingidos por
Barragens, na cidade de Cerro Negro, em Santa Catarina,
lugar onde há mais de 20 anos se luta contra a construção de
mais uma hidrelétrica no rio que corta o município. Mais de
400 pessoas participaram, dormindo em acampamentos mal
arranjados e enfrentando os temporais. Isso é pouco, diziam,
perto do que pode significar em destruição, a sanha
construtora de barragens neste país. Daí o fato de ninguém
se importar com as intempéries. Discutir o modelo de
desenvolvimento lhes parecia mais importante do que clamar
contra a chuva e as dificuldades passageiras.
O que são as barragens
Barragens são barreiras
artificiais, feitas em cursos de rio para reter grandes
quantidades de água. O propósito disso é redirecionar os
mananciais, como em casos de enchentes, usar essa água para
abastecer algum lugar, ou gerar energia. O uso desse tipo de
modificação na natureza não é coisa nova, desde que o homem
começou a manipular a natureza elas foram erguidas,
principalmente onde havia escassez de água, para que durante
as chuvas, o precioso líquido pudesse ser armazenado. Os
árabes foram grande manipuladores das águas e as barragens
mais antigas foram criadas na região do Oriente Médio e no
Egito. Também na Índia antiga já se tem notícias deste tipo
de ação para evitar alagamentos dos campos férteis nos
períodos de cheia. Em Abya Yala (América Latina) igualmente
os maias e os incas usavam esse recurso para armazenar água.
Mas, é no período da Revolução Industrial – quando começa a
se instalar o sistema capitalista - que este tipo de
manipulação da natureza acontece para gerar energia em
grande escala, e desde aí o processo avança para a
construção de grandes hidrelétricas.
No Brasil
A febre das grandes barragens
no Brasil começou nos anos 70, não por acaso, na década do
milagre, em pleno regime militar, quando o
desenvolvimentismo era a orientação nacional. A idéia era
construir usinas hidrelétricas para, com a força das águas,
gerar eletricidade para abastecer o parque industrial
nacional que começava a se desenvolver. A primeira destas
grandes barragens foi paradigmática, desalojando de uma só
vez mais de 70 mil pessoas. Era a Barragem de Sobradinho, na
Bahia, construída no curso do Rio São Francisco.
Em 1975, a novela da rede
Globo, Fogo sobre Terra, escrita por Janete Clair, uma das
mais importantes escritoras deste tipo de folhetim, debateu
o tema das barragens apontando a construção como a arrancada
para o progresso, afinal, nunca se deve esquecer, a empresa
dos Marinho nasceu no período militar com o propósito de
criar mais-valia ideológica em nível nacional. O enredo
mostrava a disputa entre o atraso (quem defendia a cidade) e
o progresso (a construção da barragem). Na trama, uma mulher
insiste em ficar na terra e a cena em que o lago cresce e
alaga tudo é de arrepiar. Apesar da carga dramática do
momento, a índia Nara (vivida por Neusa Amaral), a mulher
que morre em silencioso protesto é apontada como “a louca”,
a que se negou a entrar no tempo do progresso. Já o mocinho,
Pedro, que também iria ficar e morrer, é convencido a sair
porque sua mulher espera um filho. É a vitória da
“racionalidade” e do progresso.
Difícil foi para os
brasileiros que sorviam o folhetim com paixão, desvincular a
decisão do mocinho de suas próprias vidas. Se ele, que era o
mais radical contra a barragem havia capitulado, porque não
o resto do Brasil? E foi assim que, com o empurrão
ideológico da Globo, a barragem de Sobradinho, em 1977, dois
anos depois do fim da novela, criou um lago artificial de
4.214Km2, com capacidade para 37,5 bilhões de metros
cúbicos, enterrando quatro cidades: Casa Nova, Sento Sé,
Remanso e Pilão Arcado, além de outras dezenas de vilarejos.
Sobradinho tem 11 hidrelétricas gerando 13 mil megawatts. Sá
e Guarabira cantaram essa destruição na clássica
“Sobradinho”, onde dizem: “o sertão vai virar mar, dá no
coração, o medo que algum dia o mar também vire sertão...”
Itaipu
No ano seguinte ao alagamento
de Sobradinho começa a construção da Usina de Itaipu, no Rio
Paraná, e é anunciada a construção das usinas de Machadinho
e Ita, no rio Uruguai. Tudo apontava para um vertiginoso
crescimento econômico no Brasil e as empresas estrangeiras
de construção faziam fila para abocanhar o filé. Itaipu foi
o mega projeto dos militares, levantada em parceria com
Paraguai, e que tem a maior capacidade de geração de energia
do mundo. Instalada bem na fronteira com o Paraguai ela
fornece 90% da energia usada por aquele país e 19% da que é
consumida no Brasil. Mas, como o Paraguai usa bem menos do
que é o seu direito no acordo, o Brasil compra o que sobra e
o fazia por um preço bem abaixo do mercado, pelo menos até
agora, quando o presidente Fernando Lugo decidiu virar o
jogo e o governo Lula teve de re-negociar, passando a pagar
o preço justo.
Itaipu, tal qual Sobradinho,
levou mais de uma década para ficar pronta. Cerca de 40 mil
pessoas trabalharam ali, e para sua construção foram usados
doze milhões de metros cúbicos de concreto (o que equivale a
fazer 250 estádios do Maracanã) e outro tanto de ferro com o
qual poderiam construir 380 torres como a famosa torre
Eiffel, de Paris. Mas, o “crime perfeito”, como chamou o
cantador popular mineiro Luiz Café, foi a destruição das
Sete Quedas. Quando as eclusas da barragem foram fechadas,
uma área de 1.500 quilômetros de terras produtivas e
florestas foi inundada, levando de roldão as quedas que eram
uma das mais belas formações naturais do planeta. “Vejo as
águas correndo, os bichos morrendo, seus gritos de angustia
e de dor. Vejo um lago sem leito, um crime perfeito, sem fé,
sentimento ou amor”, lamentou Luis Café, numa canção que
embalou o protesto das vidas da juventude sertaneja, no
norte de Minas, naquele início dos anos 80. Hoje, a usina
segue produzindo energia, e produzindo demais, como ficou
comprovado no último apagão, provocado por excesso de
geração.
As gentes
Mas, enquanto o Brasil ia “pra
frente” nos anos do “milagre”, matando gente crítica nos
porões, industrializando o país e modernizando a geração de
energia, as gentes que viviam nas regiões atingidas pelas
barragens passaram a viver seus dias de terror e abandono.
Mais de um milhão de seres humanos perderam suas casas,
terras e até as suas memórias. Grande parte das pessoas,
como é comum no Brasil, não tinham posse das terras ou
viviam de aluguel e, por isso, não tiveram qualquer apoio do
governo. Apenas quem tem a escritura que prova a posse da
terra ou da casa é quem recebe um imóvel quando desalojado
para outros lugares. A solução, na maioria dos casos foi a
migração para cidades próximas ou distantes, mas sempre na
condição de um desterrado, sem qualquer possibilidade de
melhora de vida. É aí que nasce o Movimento dos Atingidos
por Barragens, para organizar essa gente toda. Segundo dados
do MAB, mais de 70% das famílias atingidas seguem
abandonadas pelo poder público. É bom lembrar que o governo
não tem um órgão oficial para cuidar dos problemas dos
desalojados, quem resolve isso é a própria empresa
responsável pela construção das barragens. Agora, alguém aí
acredita que uma empresa multinacional, dirigida desde o
estrangeiro, possa se importar com a vida das gentes daqui?
A resposta é um sonoro não!
Cada lugar onde foi fincada
uma grande barragem, hoje são mais de 600 no Brasil (duas
mil se consideramos as barragens menores), deixou um rastro
de destruição, seja ambiental ou humana. Daí a luta, que
começou primeiro pela garantia das indenizações justas e
pelo reassentamento. Mas, depois, com a compreensão do que
significam as barragens e o conseqüente não barateamento da
energia, o movimento passou a lutar contra o modelo
energético como um todo. Essa articulação começou em 1989,
no Primeiro Encontro Nacional de Trabalhadores Atingidos por
Barragens, no qual foi feito um levantamento global das
lutas e experiências dos atingidos em todo o país. Dois anos
depois, em 1991, eles fazem o I Congresso dos Atingidos de
todo o Brasil, quando se decide que o MAB - Movimento dos
Atingidos por Barragens - deve ser um movimento nacional,
popular e autônomo, e que deve organizar e articular as
ações contra as barragens a partir das realidades locais.
Desde então, a cada três anos, o MAB realiza congresso e
redefine suas metas.
No ano de 1997, foi realizado
o 1º Encontro Internacional dos Povos Atingidos por
Barragens, com a participação de mais de 20 países, porque
afinal, essa lógica desenvolvimentista - típica do sistema
capitalista periférico - e de construções de grandes usinas
existe em toda a América Latina, além da Ásia, África e
Europa. Desde então, o movimento vem realizando debates e
lutas em todo o país, buscando construir um projeto popular
de modelo energético, que fuja desta proposta predadora.
O Brasil é uma das nações do
mundo que mais tem construído barragens, e tem alta
dependência da hidroeletricidade, uma vez que 80% da energia
elétrica vem destas represas. O que move esta loucura de
construção de barragens é, obviamente, o interesse econômico
de grandes empresas, muitas delas visceralmente ligadas a
governos por “doações” milionárias as suas campanhas.
Segundo membros do MAB, vários destes novos empreendimentos
que hoje estão sendo erguidos no Brasil já mostraram
problemas de legalidade, como é o caso da usina de Barra
Grande, no Rio Pelotas, cujos estudos de impacto foram
fraudulentos, uma vez que não informaram a inundação de
florestas primárias. Também a hidrelétrica Estreito, no rio
Tocantins chegou ao absurdo de divulgar que a inundação
"ajudaria" os botos da região ameaçados, pois teriam sua
mobilidade restringida e o manejo facilitado.
Apesar de todos os protestos,
documentos comprobatórios das irregularidades e
mobilizações, o governo brasileiro segue comprometido com
essa via de desenvolvimento, ignorando olimpicamente as
alternativas propostas por pesquisadores, estudiosos e
população. Faz ouvidos moucos para problemas como a perda de
terras produtivas, expulsões e deslocamentos de milhares de
pessoas, destruições de espécies animais e vegetais,
alteração dos regimes hídricos, rebaixamento dos lençóis
freáticos, alterações geográficas, mutações dos
ecossistemas, entre outros. Surdo aos clamores das gentes, o
governo ainda faz estudos para a construção de novas
barragens até 2030, afinal, ainda há muitos abutres
estrangeiros querendo meter a mão nos grandes rios
brasileiros e, neste setor, o que importa são os ganhos de
produção e não a vida das pessoas ou a natureza.
Ao construírem uma barragem ou
hidrelétrica para abastecimento de água, as multinacionais
dominam o lago e recebem a concessão por 30 anos, com
renovação para mais 30, isso sem contar o que ganham com a
geração e distribuição de energia. Esta, no Brasil, é
bastante nova, deve ter uns cem anos apenas. Segundo o MAB,
até 1970 quando houve uma crise energética, o Brasil tinha
7.000 megawatts de energia instalada, hoje são mais de
90.000 megawatts. Isso significa que esta expansão foi coisa
pensada. Com medo de ficarem sem energia, os países do
capitalismo central transferiram para o chamado terceiro
mundo as indústrias eletro-intensivas, que consumiam muita
luz, como a do alumínio, por exemplo, que, para produzir uma
tonelada do produto, gasta o que usa uma família durante
nove anos. E, não bastasse isso, comeram o dinheiro público,
apresentando-se para a construção das usinas, cuja verba vem
dos empréstimos tomados do Banco Mundial. Plano perfeito: o
governo se endivida, o povo paga a conta e os empresários
enchem as burras.
Outra forma de lucrarem com o
Brasil são os contratos firmados para a compra de energia.
Uma empresa estadunidense, a Alcoa, paga apenas 12 dólares,
em contrato que vale por 20 anos, quando o custo da produção
é de 20 dólares. Ou seja, na prática o governo está
subsidiando a vida destes empresários em mais de 5 bilhões
de dólares, enquanto o povo paga a taxa de luz mais alta do
mundo, conforme denuncia o MAB. Além da Alcoa, também se
beneficiam nesta festa de dinheiro público a General Eletric
(EUA), a Tractebel (França/Bélgica) e a Votorantin (Brasil).
Então, o que fica claro é que sempre que se ouve o discurso
de que a construção de barragens vai trazer o progresso, é
bom que as pessoas tenham bem claro para quem. Certamente
não tem sido para o povo brasileiro, uma vez que o nosso
país é campeão mundial em desigualdade social.
Talvez por isso que estas
empresas invistam tanto nas promessas de vida melhor quando
visitam as famílias que serão atingidas. Elas criam ONGs que
ajudam os empobrecidos, financiam rádios para repassar suas
mentiras, constroem igrejas, fóruns, carros de polícia,
instalam armazéns com coisas nunca vistas, visitam cada
família e a enchem de falsas promessas. Tudo isso para
dividir o movimento de resistência.
O seminário em Santa
Catarina
Agora mesmo existe uma
proposta de construir uma hidrelétrica na Amazônia, é a Belo
Monte, para onde deve escorrer mais uma quantidade
fantástica de dinheiro público, possivelmente captado em
bancos internacionais, gerando novas dívidas para o povo
pagar. E quem seriam os beneficiados com a energia gerada
lá, a custa da destruição da floresta, dos bichos e de mais
gente desterrada? O povo? Não! Conforme dados divulgados
pelo MAB são a Companhia Vale do Rio Doce, que agora é do
Citicorp, dos EUA, o B. H. Billington, da Inglaterra, grande
produtora de alumínio, e a Votorantim.
Fora essa gigante de Belo
Monte ainda existem outros tantos projetos de médio porte em
vários outros rios do Brasil. Tudo em nome do
“desenvolvimento e progresso”, o que, na prática, significa
desenvolvimento e progresso apenas para os grandes
capitalistas. Por conta de todos esses elementos, os
participantes do seminário de Cerro Negro chegaram à
seguinte conclusão: a promessa de desenvolvimento para as
gentes não se cumpre. Até porque, durante o encontro, faltou
energia três vezes, e eles estavam cercados por barragens.
“Vê, não garante o serviço”, afirma Marinho, dirigente do
Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis. Outro dado
importante levantado pelos participantes é quanto ao retorno
que estas barragens dão aos municípios. Segundo dados do
próprio município de Cerro Negro, eles ganham de royalties
por conta da barragem apenas um milhão de reais, enquanto
que a agricultura familiar rende aos cofres públicos mais de
10 milhões. Onde está a vantagem, então? A Usina de Paiquerê,
no Rio Canoas, destruiu 180 mil pés de araucária, árvore
nobre, mãe do pinhão, e em extinção. Como isso pode ser
possível?
Outro ponto que deve ser
levado para novas discussões diz respeito ao “S” do BNDS
(Banco Nacional de Desenvolvimento Social). Este banco, que
financia as transnacionais com o dinheiro do trabalhador,
através do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), jamais se
preocupou com o social, mas tem isso incorporado ao nome.
Então, o povo vai atrás do “S”.
Outra mentira das empresas é
de que as barragens geram emprego e renda. Hum...pra quem? A
Alcoa tem 22 trabalhadores, com apenas seis atuando na
usina. Toda a renda da empresa vai para o exterior. Já a
Tractebel enviou no último ano quase dois bilhões para fora
do país. O lucro é de quem? Na verdade, o modelo de
desenvolvimento proposto para os países periféricos é o de
geração de riqueza para os países centrais, exatamente como
na época da conquista. É da natureza do sistema capitalista
este tipo de modelo. Para que o centro siga rico, é
necessário que a periferia se mantenha subdesenvolvida, com
algumas ilhas de desenvolvimento aos moldes do sistema,
apenas para manter azeitada a máquina. É o desenvolvimento
do subdesenvolvimento, como já mostrou Günder Frank.
A pergunta que fica é: mas
então esse povo é conta a geração de energia? Não, não é.
Mas existem outras formas de gerá-la e eles tem as
propostas, os pesquisadores, os técnicos. Tudo está aí. Só
que não interessa ao centro que a periferia se
independentize, coisa que a elite lacaia de cada país se
ocupa em garantir. Que o diga Bautista Vidal, cientista
brasileiro que vive gritando seus projetos sobre a biomassa,
energia limpa e inesgotável gerada pelo sol, rios e matas,
sem ser levado em conta pelos governantes.
E outra. Esse povo é contra o
desenvolvimento? Sim, se for o desenvolvimento capitalista
predador que suga tudo para os países centrais. A proposta
que saiu do seminário é a da luta por outro jeito de
organizar a vida que envolva não só a energia, mas tudo.
Coisa difícil, é certo. Mas não impossível. Experiências de
desenvolvimento endógeno, aliadas a políticas de estado
voltadas para a maioria da população, com participação
direta e respeito pelo saber popular, podem ocasionar aquilo
que Samir Amin chama de “desconexão”, que seria a construção
efetiva de outro modelo de sustentação da vida fora do
sistema capitalista. Nunca é demais lembrar que este sistema
que hoje é hegemônico no mundo não existiu desde sempre. Ele
tem pouco mais de 300 anos e já mostra o quanto seu poder de
destruição é alto. Quem consegue ter uma visão totalizante
do mundo vê que mudar o modelo de organização da vida já
deixou de ser uma proposta que se expressa só no campo da
política. O que está em jogo é a vida humana mesma. As
mudanças climáticas, a camada de ozônio, o degelo e o
aumento dos oceanos, frutos da predação capitalista, apontam
para uma só direção, parafraseando Simón Rodríguez, o grande
mestre de Bolívar: “Ou inventamos, ou estamos perdidos”.
Elaine Tavares
é jornalista. |