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23.06.2010
Alagoas e Haiti, duas
faces de uma mesma tragédia
Tendo praticamente a mesma extensão
territorial,
Alagoas e Haiti guardam também outras
semelhanças históricas
Thalles Gomes
Ti
Rivye Latibonit
Haiti
O
número de atingidos pelas fortes chuvas que assolaram
Alagoas na última sexta-feira, 19 de Junho de 2010, são
desoladores. De acordo com dados divulgados pela Defesa
Civil do estado em 21 de Junho, as enchentes dos rios Mundaú
e Paraíba atingiram 177.282 pessoas, deixando mais de 600
desaparecidos e 26 mortos. Ao todo, 26 municípios foram
afetados pelas enchentes. São dados alarmantes, mas seria no
mínimo insano compará-los aos 300 mil mortos e mais de 1
milhão de desabrigados que o terremoto de 12 de Janeiro de
2010 acarretou no Haiti. Nesse caso a comparação é válida
não pela quantidade, mas sim pela qualidade.
Tendo
praticamente a mesma extensão territorial, Alagoas e Haiti
guardam também outras semelhanças históricas. Em suas terras
surgiram dois marcos da luta pela liberdade nas Américas.
Zumbi, Dandara, Ganga Zumba, Acotirene e os quilombolas de
Palmares combateram a escravidão negra e criaram em plena
Serra da Barriga uma sociedade livre e igualitária que
resistiu por mais de um século contra as ofensivas dos
senhores-de-engenho e capitães do mato. Menos de cem anos
após a morte de Zumbi em terras alagoanas, Toussaint
Louverture, Capóis La Mort, Alexander Petion, Henri
Kristophe e Jean Jacques Dessalines lideraram aquela que foi
a primeira revolução vitoriosa de escravos que se têm
notícia na história da humanidade. Em 1804, o Haiti se
tornava independente, abolia a escravidão e iniciava um
processo popular de reforma agrária.
Essa
ousadia foi punida severamente pelos senhores de engenho de
ontem e de hoje e, ao que parece, Alagoas e Haiti foram
escolhidos como símbolos de sua opressão e imponência. Ao
Haiti, após 1804, foi imposta uma descabida e impagável
“dívida da independência” por parte dos Franceses, seguida
de vinte anos de ocupação militar estadunidense (1915-1934)
e uma ditadura sanguinária dos Duvalier pai e filho, que em
trinta anos (1957-1986) assassinou cerca de 30.000
haitianos. Com a abertura política no final da década de 80,
a esperança de mudanças surgiu com a chegada ao poder do
Padre Jean Bertrand Aristide em 1990, mas foi extinta menos
de um ano depois com mais um golpe militar sob os auspícios
de Washington. Desde então, o país não conseguiu encontrar o
equilíbrio e autonomias suficientes para caminhar com as
próprias pernas. Situação que só se agravou com a ocupação
militar da MINUSTAH em 2004, liderada pelo exército
brasileiro. O resultado é que o Haiti é hoje a nação mais
pobre do continente americano, com 56% da população abaixo
da linha da pobreza e com uma expectativa de vida de 58,1
anos. Isso sem contabilizar as conseqüências do terremoto de
12 de Janeiro.
Não houve
ocupações militares da ONU ou dos Estados Unidos em Alagoas,
é fato, mas em compensação o estado vive sob uma ditadura
ferrenha que já dura séculos e que ceifou mais vidas que
qualquer outro regime ditatorial nas Américas: a ditadura da
Cana. Mesmo sendo o segundo menor estado em extensão no
Brasil, Alagoas está entre os cinco maiores produtores de
cana-de-açúcar do país. São 448 mil hectares destinados para
esse monocultivo, com uma produção que se aproxima dos 30
milhões de toneladas de cana por ano. Isso só é possível
graças à devastação ambiental e à exploração dos
trabalhadores. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT),
o estado é o terceiro do país em índices de trabalho
escravo, e o primeiro da região Nordeste com mais casos de
trabalho escravo no campo. Somente em 2008, foram libertados
656 trabalhadores escravos, todos saídos dos canaviais. O
resultado é que Alagoas sustenta hoje o pior Índice de
Desenvolvimento Humano, a maior taxa de mortalidade
infantil, o maior índice de analfabetismo e a menor
expectativa de vida dentre todos os estados do país. Isso
sem contabilizar as conseqüências das enchentes de 19 de
Junho.
Fenômenos
naturais podem agravar, mas não criam a miséria. No Haiti e
Alagoas, a miséria já existia antes de qualquer terremoto ou
enchente.
Os
negócios da Catástrofe
Nos dias
que se seguiram ao terremoto de janeiro, a devastada Porto
Príncipe se tornou o local de peregrinação preferido para
políticos e personalidade de todo mundo expressarem sua
compaixão. Sobrevoando as ruínas em seus helicópteros,
declararam com voz embargada suas condolências perante as
câmeras de televisão e reafirmam compromissos de ajuda às
vítimas do terremoto. O fenômeno parece se repetir em terras
caetés. Campanhas para arrecadação de alimentos e agasalhos,
visita do Ministro de Integração Nacional aos municípios
afetados, discursos emocionados de governadores e candidatos
à presidência, promessas de verbas e ajudas às vítimas das
enchentes.
No caso de
Alagoas ainda é cedo para tal conclusão, mas passados quase
seis meses do terremoto no Haiti, pode-se dizer que essa
compaixão tem prazo de validade e não resiste a novas
manchetes internacionais.
As ruínas
ainda dificultam o tráfego pelas ruas de Porto Príncipe e
não se vê nenhuma movimentação por parte das tropas da ONU
ou de qualquer outra entidade internacional para a retirada
dos escombros, muito menos para a reconstrução das casas e
edifícios. Os acampamentos improvisados se proliferam por
praças e terrenos baldios e as únicas ações visíveis do
governo são recomendações de higiene espalhadas em baners e
faixas, além de escassos mutirões de voluntários que retiram
com as próprias mãos os entulhos dos prédios.
Não que
falte dinheiro. A Conferência Internacional de Doadores
Rumo a um Novo Futuro para o Haiti ocorrida em 31 de
março no escritório das Nações Unidas em Nova Iorque definiu
a quantia de U$ 9,9 bilhões a serem desembolsados para a
reconstrução do país, sendo que U$ 5,3 bilhões serão usados
já nos próximos dois anos.
Acontece
que o a idéia de reconstrução desses doadores é bastante
peculiar. Como afirmou o empresário estadunidense Bradley J.
Horwitz durante a Conferência de Nova Iorque “o que é
bom para os negócios é bom para o país”. Portanto, quando
esses doadores falam em beneficiar a agricultora haitiana, o
que eles querem dizer de fato é que irão financiar o
monocultivo da manga para que a Coca-Cola possa lançar no
mercado um novo refrigerante feito a partir desta fruta.
Quando falam em facilitar a exportação de produtos têxteis
especializados haitianos e criar mais de 100.000 empregos no
país, o que querem dizer de fato é que irão aumentar a
lucratividade das indústrias ‘maquiladoras’ estadunidenses
instaladas no Haiti, que não pagam nenhum imposto e não
respeitam os mais elementares direitos trabalhistas. Quando
falam em melhorar a infra-estrutura com a construção de
novas estradas, eles buscam de fato garantir o lucro de
empresas como a espanhola Elsamex S.A., que recebeu 32
milhões de euros para construir uma estrada de 43 km de
extensão. Por fim, quando falam em melhorar os serviços
públicos, esses doadores cogitam transformar o Haiti na
primeira ‘nação totalmente wirelles’ do Caribe, uma
empreitada que será levada a cabo pela empresa de Bradley
Horwitz.
A
indústria da Cheia
De fato,
seria inconcebível fazer uma transposição rasa da conjuntura
haitiana para a realidade de Alagoas. Entretanto, acreditar
que os recursos a serem enviados a Alagoas após as enchentes
de 19 de junho irão transformar o estado num “território
totalmente wirelles” é tão improvável quanto acreditar que
eles vão realmente chegar às mãos das mais de 177 mil
vítimas das chuvas.
Para os
desavisados, é bom não esquecer que estamos tratando de um
estado onde há não menos de cinco anos foi deflagrada pela
Polícia Federal a Operação Gabiru, responsável pela prisão
de 31 pessoas, entre elas oito prefeitos, quatro
ex-prefeitos, secretários municipais e empresários,
suspeitas de desviar dinheiro destinado à merenda escolar e
lavagem de dinheiro. Todos os prefeitos foram soltos e
muitos continuam a frente de cargos públicos.
Mas não é
só na baixa política que a corrupção se alastra em Alagoas.
Dois dos atuais senadores alagoanos também estiveram
envolvidos em escândalos políticos. Renan Calheiros viu seu
nome ligado a uma série de denúncias de desvio de dinheiro
público no ano de 2007, no que ficou conhecido como Caso
Renangate. Corrupção e desvio de verbas públicas também
foram os motivos do impeachment de Fernando Collor de Mello
quando era presidente da república em 1992.
Diante
desse quadro, aumentam as possibilidades de que se repita em
Alagoas o que ocorreu em outros estados do Nordeste no
primeiro semestre de 2009, quando fortes chuvas provocaram
enchentes em diversos estados da região, atingindo
principalmente Maranhão, Piauí e Ceará. Mais de 1 milhão e
300 mil pessoas foram afetadas, sendo que 450 mil ficaram
desalojadas e desabrigadas.
Como
relatou naquela ocasião Hortência Mendes, pedagoga e
integrante da Cáritas Regional Piauí, “se na Indústria da
Seca, a seca era usada para o interesse dos políticos, agora
já começa a ter uma Indústria da Cheia. Porque na hora que
começa a chover todos os prefeitos dizem “Estado de
Calamidade Pública”, “Estado de Emergência”, para quê? Para
receber recursos do governo federal. Os recursos vem e não
são aplicados”. E continua a denúncia: “Ano passado, o que
nós soubemos é que o Piauí recebeu R$ 126 milhões para
trabalhar com as situações de emergência causadas pelas
enchentes. Em todo lugar que nós fomos, não vimos esse
recurso ser aplicado. Esse ano todos os municípios estão
pedindo de novo dinheiro para o Governo Federal. Mas o que
vemos são as pessoas fazendo suas próprias casas, indo atrás
do barro, para levantar a casa de taipa”.
Entre
agasalhos e canaviais
Os
exemplos do Haiti e das enchentes anteriores no nordeste
evidenciam que a simples doação de agasalhos, alimentos e
campanhas de solidariedade na internet servem apenas para
aplacar algumas consciências e suprir as necessidades
emergenciais das vítimas das catástrofes. Entretanto, nem
todos os agasalhos e cestas básicas do mundo impedirão que
novas chuvas caiam no ano que vem e encontrem a mesma falta
de infra-estrutura nos municípios, junto com o deserto verde
da cana-de-açúcar se alastrando pelas matas e margens dos
rios, impedindo a captação da chuva pelo solo e aumentando o
assoreamento dos rios.
Nesses
momentos de catástrofe, o mais sábio seria buscar
compreender e combater suas causas e não se resumir apenas a
lidar com suas consequencias. No Haiti, diante das ruínas e
da dor do terremoto, diversos setores da sociedade começam a
se organizar em busca de uma verdadeira reconstrução do
país, que crie um outro modelo de organização política,
econômica e agrária a ser levada adiante pelo povo e não a
partir dos escritórios de Porto Príncipe. Um exemplo
tangível para seus pares alagoanos. |