4. A onda de privatizações e a organização internacional dos atingidos

Na década de 90, o Brasil passou por um intenso processo de avanço do neoliberalismo. O Plano Nacional de Desestatização (PND) colocou na ordem do dia a entrega do patrimônio público construído durante muitos anos com recursos do povo brasileiro. A energia elétrica, bem estratégico para o desenvolvimento do país, também foi privatizada. Várias hidrelétricas e todo o Sistema Interligado Nacional construídos até o momento foram entregues para as transnacionais. Com isso as lutas que já eram acirradas com empresas estatais passaram a ser muito mais difíceis. Grandes empresas do setor energético, mineradoras, papeleiras, grandes bancos passaram a ser donos das barragens. Isso colocou em outro nível a luta dos atingidos.

Nesse momento histórico a palavra de ordem dos atingidos era ÁGUAS PARA VIDA, NÃO PARA MORTE! Trazia todo um significado em relação a defesa do meio ambiente e a forma como a natureza é utilizada para enriquecimento de alguns poucos em detrimento da maioria.

A nossa luta foi construindo vários legados, o exemplo contribuiu na organização de atingidos em outras partes do mundo. Com o apoio de diversas entidades realizamos em março de 1997 o 1º Encontro Internacional dos Povos Atingidos por Barragens, na cidade de Curitiba (PR). O Encontro Internacional  contou com a participação de 20 países, dentre eles, atingidos por barragens e organizações de apoio. Durante o encontro, atingidos por barragens da Ásia, América, África e Europa puderam compartilhar as suas experiências de lutas e conquistas, fazer denúncias e discutir as políticas energéticas, a luta contra as barragens em escala internacional, bem como, formas de defender os direitos das famílias atingidas e o fortalecimento internacional do Movimento. Do encontro, resultou a Declaração de Curitiba, que unifica as lutas internacionais e institui o Dia 14 de Março, como o Dia Internacional de Luta Contra as Barragens.

Fruto desta articulação e por pressão dos movimentos de atingidos por barragens de todo o mundo, ainda no ano de 1997 foi criada na Suíça a Comissão Mundial de Barragens (CMB), ligada ao Banco Mundial e com a participação de representantes de ONGs, Movimentos de Atingidos, empresas construtoras de barragens, entidades de financiamento e governos. A CMB teve o objetivo de levantar e propor soluções para os problemas causados pelas construtoras de barragens em nível mundial, bem como propor alternativas. Deste debate, que durou aproximadamente três anos, resultou no relatório final da CMB, que mostra os problemas causados pelas barragens e aponta um novo modelo para tomada de decisões.

Em novembro de 1999 o MAB realizou seu IV Congresso Nacional, em Minas Gerais, onde foi reafirmado o compromisso de lutar contra o modelo capitalista neoliberal  e por um Projeto Popular para o Brasil que inclua um novo modelo energético. Foi reafirmado o método de organização de base do MAB, através dos grupos de base, instância de organização, multiplicação das informações e resistência ao modelo capitalista.