5. Novas perspectivas na virada do século: mais luta popular

Em 2002, surgiu um novo elemento no cenário nacional com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. De certa forma isso trouxe um ânimo para as lutas populares, pois era a esperança de construir um projeto mais progressista que levasse em conta as necessidades do povo.

Em junho de 2003, aconteceu o 1° Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, em Brasília, no qual se reafirmou a luta popular como o único instrumento capaz de obter conquistas concretas para o povo. No ano seguinte, o MAB realizou uma marcha histórica com cerca de 600 militantes. Foi a Marcha Nacional Águas pela Vida, percorrida de Goiânia à Brasília, para exigir do governo federal o cumprimento dos direitos dos atingidos.

Com o avanço do capital privado, a energia passou a ser uma mercadoria como tantas outras, possível de ser comprada e vendida pelo preço que interessasse aos capitalistas. A natureza se tornou mercadoria a ser explorada para gerar lucros. Os atingidos foram percebendo que a luta pelos direitos só se concretiza ao ser feita com o questionamento à construção das hidrelétricas e ao modelo energético de forma geral.

As empresas privadas, além de construírem as hidrelétricas com único interesse em gerar lucro, também criminalizam todos que questionam o modelo e lutam por seus direitos.

Nesses anos de luta, os atingidos têm sofrido muitas violações de direitos humanos. Por isso, nossa luta tem sido em defesa dos direitos humanos e também a denúncia sobre as violações sofridas. Em 2005 veio ao Brasil a então relatora da ONU para Direitos Humanos, Hina Jilani, que visitou um acampamento de atingidos na barragem de Campos Novos (SC). A relatora constatou a violação dos direitos e recomendou mais ação contra as empresas. Naquele momento havia somente na bacia do rio Uruguai 107 atingidos por barragens processados por defenderem seus direitos. Dali em diante, ainda muitos atingidos foram criminalizados e até presos em várias regiões do país.

Em março de 2006, aconteceu o 2º Encontro Nacional dos Atingidos por Barragens em Curitiba/PR. No encontro estavam presentes 1200 atingidos de todo Brasil que reafirmaram o caráter nacional do MAB, a importância das especificidades regionais e o caráter popular, sindical e político do Movimento.

No encontro foi reforçado o caráter da luta contra o atual modelo energético. E nossa principal palavra de ordem tornou-se ÁGUA E ENERGIA NÃO SÃO MERCADORIAS! Compreendemos que a água e a energia são bens essenciais para a vida das pessoas e para a sociedade, e por isso devem ser um bem público, onde todos tenham acesso com qualidade. Não pode ser privatizada nas mãos de multinacionais que tem como único interesse aumentar seus lucros.

A luta em defesa dos direitos dos atingidos só aumentou com a compreensão da sua importância e necessidade. Conseguimos ter mais aliados, mais organizações amigas e também mais espaços para contribuirmos na organização. Neste último período tem se intensificado as articulações internacionais para ajudar na organização dos atingidos em outros países, principalmente na América Latina, os quais sofrem as mesmas violações de direitos.

Em 2009 durante o lançamento do Plano Safra daquele ano, e posteriormente em falas e audiência com o MAB, o então presidente Lula reconheceu que o Estado brasileiro tem uma dívida histórica com os atingidos por barragens. Falou também que não terminaria seu mandato sem resolver esses problemas. No entanto sabemos que os problemas não foram resolvidos e por isso os atingidos continuam organizados.

Um elemento que perpassou anos na história do MAB e que mais recentemente tem se intensificado é o debate sobre gênero e as violações de direitos das mulheres atingidas por barragens. Esse tema foi tomando corpo dentro da organização e em abril de 2011 foi realizado em Brasília o primeiro Encontro das Mulheres Atingidas por Barragens. O encontro contou com a presença de 500 mulheres, que debateram a situação de violência, as lutas que travam e saíram mais fortalecidas para se engajarem na organização.

Atualmente o MAB está organizado em dezesseis estados do Brasil (RS, SC, PR, SP, MT, MG, BA, PE, PB, CE, PI, GO, TO, MA, PA e RO).

Seguimos erguendo bandeiras contra as injustiças, pelos direitos dos atingidos por barragens, por um modelo energético popular que leve em conta as necessidades do povo, e por um projeto popular para o Brasil.

Água e energia não são mercadorias!

Água e energia são para soberania!