Atingidos pela Samarco em Gesteira reafirmam sua organização e pauta de luta para 2018

Separados pela lama, unidos pela luta, famílias questionam como a Samarco fez quatro barragens e foi incapaz de construir 9 casas para o reassentamento.

Fotos: Leandro Raggi/ Aedas

O movimento começou cedo em Gesteira, povoado do município de Barra Longa. É dia de festa, de reencontrar os parentes e amigos, de confraternizar e também de discutir como a comunidade está vivendo e quais passos são necessários para avançar na conquista do respeito, dos direitos e da dignidade. Desde cedo, foi grande o vai e vem de pessoas envolvidas em muitas tarefas, inclusive na agitação das panelas chamando os moradores para a grande atividade do dia.

Gesteira foi uma das comunidades devastadas pela lama da Samarco. Foram nove casas destruídas, 11 lotes produtivos na beira do rio Gualaxo do Norte soterrados, um campo de futebol, uma escola, o salão comunitário e a igreja Nossa Senhora da Conceição tornados pasto e ruínas pelo maior crime ambiental do Brasil.

Hoje, os cerca de 60 atingidos que aguardam o reassentamento prometido pela Samarco (Vale\BHP Billiton) há mais de dois anos, estão espalhados entre Gesteira, Barra Longa, Mariana e Acaiaca. São amigos e parentes que foram obrigados a viverem longe um dos outros por causa da irresponsabilidade e da opção política de produzir mais minério e garantir mais lucro para acionistas ignorando condições míninas de segurança para trabalhadores e comunidades.

Por causa desta situação de distanciamento somada a indignação pelo descaso da Samarco que até hoje foi incapaz de apresentar um projeto viável para reassentar as 9 famílias, os moradores organizados no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) decidiram fazer o Dia de Gesteira: separados pela lama, unidos pela luta.

“È um momento de reunir todo mundo que está separado desde a tragédia, conversar com eles, confraternizar, discutir os problemas e pensar juntos as soluções que envolvem a construção das casas, mas também acesso a água e a solução de outros problemas”, comenta Gracinha, moradora do Gesteira e militante do MAB.

O encontro foi realizado na Quadra de Esporte do Mutirão, a parte de alta de Gesteira que não foi destruída pela lama, mas que ficou isolada por 11 dias devido o rompimento e depois exposta a todos os problemas causados pelo canteiro de obras.  Ali moram cerca de 60 famílias, entre elas as proprietárias dos 11 lotes à beira do rio que foram soterrados e que também aguardam o reassentamento.

Organização de base e protagonismo em cada detalhe


A atividade começou com um café coletivo seguido de uma abertura com uma mística que relembrou a riqueza da produção de alimentos antes do crime acompanhada pela declamação de uma poesia. Logo após, foi feita a Assembleia dos Atingidos e Atingidas que iniciou com as falas motivadoras de Gilmar, atingido em Gesteira, Maria Geralda, atingida em Paracatu de Baixo, Marta Caetano, militante do MAB, atingida e reassentada em Diogo de Vasconcelos e Joceli Andrioli, da coordenação nacional do MAB e reassentado em Santa Catarina.

Foi reafirmada nesta motivação a necessidade da elaboração da pauta conjunta de luta das famílias, ter muito claro que os atrasos na reparação não é resultado de problema de falta de dinheiro ou simples incompetência. É um projeto político onde a prioridade é fazer aquilo que movimenta e garante lucro para as empresas. Além disto, que é preciso elaborar coletivamente o que queremos reivindicar em 2018 e que quem tem que dizer o seu futuro são os atingidos e não as mineradoras.

Na sequência, os atingidos e demais participantes foram divididos em grupos para discutir os eixos da pauta de reivindicações, incluindo o conceito de atingido que deve ser aceito pela empresa, e que está sendo debatida em todos os Grupos de Base organizados no município.

Após o almoço coletivo, a comunidade realizou uma Celebração Ecumênica que reuniu católicos e evangélicos atingidos em um momento bonito de oração que celebrou a vida, a esperança e a necessidade da coragem e da luta para alcançar os direitos.

Ao final, todos os presentes cantaram os parabéns para Dona Geralda Maria Bento, atingida de 79 anos que aguarda o reassentamento. “A comunidade sempre se reunia para comemorar este aniversário juntos. Era um momento de alegria em que cada um levava o bolo, o salgado e o Gesteira Velho ficava cheia de gente. Há dois anos que não comemoramos este dia por causa da Samarco e agora estamos aqui para esta homenagem”, conta Cristina, neta de Dona Gerada e moradora da comunidade.

“O Dia de Gesteira foi um momento muito importante. Dia de reafirmar que a organização é o único caminho para garantir o reassentamento. Como que a Samarco já fez 4 barragens abaixo de Fundão, gastou 280 milhões na barragem de Candonga e outros 44 milhões nos 3 reassentamentos e ainda nenhuma casa foi feita?”, questiona Thiago Alves, da coordenação estadual do MAB em Minas Gerais e morador de Barra Longa.

Para Thiago, o povo precisa saber destas informações, questionar estas ações e construir protagonismo real. “Outra coisa importante deste dia é que ele foi organizado com total autonomia das empresas. A Prefeitura Municipal e a Paróquia de São José Operário contribuíram, os técnicos da assessoria técnica da AEDAS tiveram participação valorosa e fundamental e o povo se organizou a partir de diversas equipes incluindo alimentação, ciranda infantil, ornamentação, limpeza, entre outras tarefas. Assim se constrói protagonismo e é assim que vamos disputar e avançar no processo de negociação do reassentamento no próximo período”, conclui Thiago Alves.

Também estiveram no Dia de Gesteira estudantes da Universidade Federal de Viçosa (UFV), integrantes do Grupo de Pesquisas Socioambientais (GEPSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), do Organon, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), do Jornal “A Sirene” e de técnicos da Cáritas Brasileira, assessoria técnica dos atingidos em Mariana.