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A Câmera

Por Antônio Claret Fernandes, militante do MAB e padre da Arquidiocese de Mariana

Manhã de dois de outubro de 2017. O 8º Encontro Nacional do MAB terá sua abertura à tarde; mas já começou, naquela Marcha puxada por manifestantes de Minas Gerais e do Espírito Santo, seguindo pelas ruas do Leblon até um prédio discreto, perdido entre os arranha-céus, no Rio de Janeiro.

Aquele prédio no Leblon é, em tudo, igual aos outros. Ao menos à primeira vista. Um portão de vidro à frente, resistente. Pequena escada que dá acesso ao térreo. Toda a parte externa bem acabada em seus detalhes, mas sem nenhuma imponência.

Dir-se-ia um prédio modesto por ser Leblon.

Quem repara, nota, porém, que aquele prédio, tão ‘igual’, camufla e esconde um quê de mistério, de algo proibido.

São muitas as câmeras posicionadas em diferentes pontos. Nada chega ali sem ser visto. Uma, especialmente, chama a atenção. Um cano branco afixado à parede, feito cabo de lâmpada, com uma curvatura na ponta e, bem na extremidade, virada para baixo, aparece uma bola preta. É a câmera acoplada, ali.

Uma militante, atenta, chama a atenção: ‘ela gira!’.

Controlada de dentro do prédio, na sua camuflagem, seu ‘olho’ gira, de um lado para o outro, e capta a imagem mais escondida, o ruído mais tímido.

 São olhos penetrantes do sistema opressor, que vão até à alma.

A uma altura de aproximadamente cinco metros, uma peça espessa de ferro, cor cinza, aparece bem fixada, semelhante a um para choque. Logo acima um quadrado fechado de vidro, semelhante a cabine.

O pequeno jardim à frente, em dois patamares, completa o disfarce. Dois coqueiros, verdes e bonitos, crescem salientes no patamar de baixo, e, de cima, folham tenras caem pela parede, numa harmonia natural.

O cimento, o ferro, a força, tudo, ali, parece leve, e faz do vilão a mãe da filantropia. 

Bem no canto, do lado esquerdo de quem chega, três bandeiras pequenas, bem discretas, com mastros curtos. Lembram bandeiras de brincadeira. Uma é do Rio de Janeiro, a outra do Brasil e, a terceira, da Vale, com sua logomarca verde-amarela.

A última bandeira, meio enrolada, junto ao ângulo mais escondido da parede daquele prédio, o denuncia. Certamente um sinal codificado para que o identifiquem em meio aos demais. Mas discreto o suficiente para que não fique visado.

O certo é que a Vale, a mesma mineradora estatal vendida por um vintém de nada, que explora gente e natureza, que golpeia o Xingu e seu povo com Belo Monte, que participa do processo criminoso da lama na Bacia do Rio Doce, que enxerga o trabalho e o bem natural com os olhos da exploração, a gigante que acumula riqueza à custa da miséria do povo atingido, mora ali, pequena, modesta, entre os prédios chiques do Leblon.

Apesar da sua ferocidade de um gigante, quase indomável, com dentes afiados, unhas compridas e bota pesada - sapateando tudo-, ali, no Leblon, ela parece um gatinho inofensivo.

A paisagem e o ar discretos do prédio, nesse dia dois de outubro, sede lugar a protestos indignados. Vinte cruzes, seguras às mãos militantes, se levantam à frente do portão. O jardim, em harmonia, ganha um colorido de conflito. As cruzes lembram as dezenove pessoas mortas e um aborto forçado na lama criminosa da Samarco, no rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, no dia 5 de novembro de 2015.

Esse fato, que vem ganhando tantos apelidos, é um processo criminoso. Por que um processo, e não um crime? As razões são várias! Mas uma delas é que diversas pessoas continuam adoecendo até hoje e, algumas, morrendo, em consequência da lama.

Em frente àquele prédio, vez por outra, as cruzes tocam o chão, com força, e, o barulho ritmado, empresa vida e voz aos mortos. Parece que batem o pé, resistentes, junto do povo organizado.

Pede-se um minuto de silêncio pelos que se foram. Tudo se cala. Segue apenas um cochicho de duas mulheres com câmera, filmando uma atingida de Barra Longa. E ouve-se, de longe, o latido de um cachorro, persistente.

Intercalando as falas, os cantos e o silêncio, muitos gritos de ordem.

Um se destaca, repedido algumas dezenas de vezes:  ‘Não foi acidente, eles sabiam que a barragem ir romper: Samarco, Vale e BHP!’. A coreografia, das pessoas que se abaixam e, juntas, vão se levantando e gritando, forma uma onda enorme e mostra a força viva em movimento.

O Leblon, que comumente parece acordar tarde, sai mais cedo às janelas dos altos prédios no dia dois de outubro. E o mesmo Leblon, que bateu panela pela saída de Dilma e pelo golpe contra o povo brasileiro, agora ouve, silente, o assovio das ruas. De que lado estará o Leblon quando o assovia transformar-se em canto tão forte a ponto de tremer a sociedade de classes?

A história mostra que toda e qualquer aliança só é interessante para a classe trabalhadora se parte da aliança primeira, originário, com o povo organizado. Fora disso é um arriscado passo no escuro. E a conjuntura nos diz, também, que a Rocinha, invadida, tem mais a dizer sobre a conjuntura, do que o Leblon, camuflado e sonolento.

Nas câmeras, do prédio da Vale, estão os registros de luta, que serão estudados e analisados, atentamente, por quem as controla. As tecnologias mais avançadas são, na sua maioria, usadas contra o povo, para mantê-lo calado,  e para a sua criminalização.

Elas, as câmeras, captam quase tudo! Só não conseguem captar,  entender e barrar essa força popular esperançada, a qual, numa conjuntura adversa, de muita exploração e de lama dos mais diversos tipos, transborda energia, no ensaio socialista, do fundo das senzalas, na voz dos tambores: ‘A nossa rebeldia é povo no poder, povo no poder, povo no poder!’.

Por mais solido e ‘natural’ que seja o alicerce da Casa Grande, ela não vai resistir.