“Construtoras de barragens estão ficando mais violentas”

Para o MAB, aumento no número de conflitos pela água em 2010 se relaciona à violência das empresas construtoras, o que pode ser exemplificado por casos como os das usinas de Santo Antonio e Jirau, em Rondônia

Os conflitos pela água tiveram um aumento de 93,3% em 2010 com relação a 2009, apontou o relatório “Conflitos no Campo”, lançado nessa terça-feira (19) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). Foram 87 conflitos em 2010, afetando 197.210 pessoas, quando em 2009 foram 45 os conflitos registrados, envolvendo, porém, um número maior de pessoas, 201.675. Entre os conflitos pela água estão considerados aqueles decorrentes da construção de barragens.

Trata-se do maior número de conflitos pela água desde o ano de 2002, quando a CPT começou a registrá-los. Número igual, 87 conflitos, foi registrado em 2007, mas os conflitos daquele ano envolveram um número menor de pessoas, 163.735.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o aumento dos conflitos pela água é uma comprovação de que as construtoras de hidrelétrica têm agido com mais violência nos últimos anos: “Basta ver as revoltas dos operários da construção de Santo Antonio e Jirau, em Rondônia, a situação do Porto de Suape, em Pernambuco, e do Pecem, no Ceará”, afirma o coordenador nacional do MAB, José Josivaldo de Oliveira.

Para o Movimento, o aumento da violência tem a ver com o fato de que as construções de barragens são conduzidas cada vez mais por empresas privadas. “Na lógica das empresas é normal existirem conflitos, porém os responsáveis são sempre os trabalhadores, tratados como arruaceiros, baderneiros. E o Estado atua como um intermediador de conflitos entre as empresas e a população, muitas vezes pela força policial.”

“O MAB tem defendido que o Estado deve ser o responsável pela geração, transmissão e distribuição de energia, água e outros serviços. O relatório da CPT nos leva à certeza de que devemos fortalecer a luta pela reestatização do já privatizado”, diz Josivaldo.

Para o MAB, os dados da CPT estão de acordo com o relatório da Comissão Especial “Atingidos por Barragens”, criada pelo Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH), que comprovou a violação sistemática dos direitos humanos no processo de construção de barragens no Brasil.

“As empresas precisam de água como matéria-prima para acumular lucro e, para isso, passam a violar mais e mais os direitos humanos”, afirmou o dirigente do MAB Josivaldo de Oliveira.

De acordo com a CPT, 47 conflitos registrados em 2010 (54% do total) estiveram relacionados ao uso e preservação da água, 31 conflitos (25,5%) à construção de barragens e açudes e nove (10,3%) à apropriação particular.

“O que comanda estes conflitos é o olhar vesgo e interesseiro do capitalismo que insiste em só ver o valor econômico da água, sem dar atenção aos mais importantes como o biológico, ambiental e social. Quando o econômico monopoliza o valor da água, os conflitos e a violência encontram aí o chão fértil para se desenvolverem. Um exemplo disso são os dois casos ocorridos em 2010 de assassinatos em conflitos pela água”, afirma, em nota, a CPT.