“Fred”, que aparece no áudio grampeada de Aécio, é ex-diretor da CEMIG

Aécio Neves, presidente do PSDB e senador por Minas Gerais, foi gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, dono da JBS, segundo reportagem do jornal "O Globo" publicada nesta quarta-feira (17) e divulgada de forma massiva em diversos meios de comunicação, juntamente com as denúncias envolvendo Michel Temer e Eduardo Cunha.

— Se for você a pegar em mãos, vou eu mesmo entregar. Mas, se você mandar alguém de sua confiança, mando alguém da minha confiança — propôs Joesley.

— Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho — respondeu Aécio.

“Fred”, o nome indicado para receber o dinheiro e que seria “morto”, é Frederico Pacheco de Medeiros, primo de Aécio e ex-diretor da CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais), uma das principais concessionárias de energia elétrica do Brasil, considerada a maior empresa integrada do setor de energia elétrica da América do Sul, e a maior da América Latina, em quilômetros de rede e de equipamentos e instalações de barragens e uma das maiores violadoras dos direitos dos atingidos em todo o país.

Foto: CEMIG/Divulgação

O grupo é constituído por mais de 181 sociedades e 17 consórcios. Trata-se de uma companhia de capital aberto controlada pelo Governo do Estado de Minas Gerais e possui 117 mil acionistas em 44 países. Suas ações são negociadas na Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros de São Paulo, na Bolsa de Valores de Nova York e na Bolsa de Madri.

Em março de 2014, a Cemig comprou 83% do capital social e 49% das ações da SAAG Investimentos, empresa de investimentos do Grupo Andrade Gutierrez, fato que  também despertam suspeitas para as investigações da Lava-Jato. Com isso, aumentou sua participação na Madeira Energia, consórcio responsável pela construção da Usina Hidrelétrica de Santo Antônio. Localizada no Rio Madeira, em Rondônia, a Usina de Santo Antônio será a segunda maior hidrelétrica de turbinas bulbo do mundo, alagando centenas de quilômetros de terras na região amazônica e atingido milhares de ribeirinhos, que até hoje não tem seus direitos reconhecidos.

Recentemente, o Movimento dos Atingidos Por Barragens (MAB) ocupou a sede da CEMIG em Belo Horizonte, na luta por diretos dos atingidos.

Foto: Maxwell Vilela

São diversas as violações de direitos contra os atingidos praticados por parte da CEMIG. As barragens de Irapé, no Vale do Jequitinhonha, e da Usina de Aimorés, no leste do estado de Minas Gerais são bons exemplo da atuação da Companhia.

Inaugurada em junho de 2006, a Usina Hidrelétrica de Irapé possui a barragem mais alta do Brasil e a segunda maior da América Latina, com 208 metros, desde sua construção, o regime de cheias e baixas do rio foi alterado, o que impactou na produção de alimentos, na pesca e na forma de ocupação das margens pelas comunidades locais, além disso houve uma profunda contaminação das águas com mercúrio.

Ainda hoje, a região possui mais de 3% das moradias sem acesso à energia elétrica– a taxa de porcentagem, em nível de Brasil, é de menos de 1% dos domicílios que vivem no escuro. Enquanto o Vale do Jequitinhonha apenas se perpetua como a região com menor PIB de Minas Gerais, os atingidos por barragens veem as violações aumentando a cada ano.

Segundo a coordenação do MAB, os áudios divulgados entre Aécio e Fred só escancaram uma corrupção histórica que acontece em todo o setor elétrico.

“A privatização do setor elétrico é um dos pilares que sustenta os esquemas de corrupção em todo o país, aumentando a exploração aos trabalhadores atingidos por barragens e garantindo os lucros dos grandes empresários do setor elétrico”, afirma.

 “Fred”, preso hoje pela manhã, foi nomeado pelo próprio tucano para assumir o cargo na companhia, além disso, foi um dos coordenadores de sua campanha a presidente em 2014, responsável por tocar a área de logística.

Fazem parte do grupo Cemig, as usinas:

São Simão, no rio Paranaíba

Sá Carvalho, no Rio Piracicaba

Emborcação, no rio Paranaíba

Nova Ponte, no rio Araguari

Jaguara, no rio Grande

Miranda, no rio Araguari

Três Marias, no rio São Francisco

Irapé, no rio Jequitinhonha

Volta Grande, no rio Grande

Salto Grande, no rio Santo Antônio

Itutinga, no rio Grande

Camargos, no rio Grande.

Piau, nos rios Pinho e Piau

Gafanhoto, no rio Pará

Peti, no rio Santa Bárbara

Rio das Pedras, no rio das Velhas

Poço Fundo, no rio Machado

Joasal, no rio Paraibuna

Tronqueiras, no rio Tronqueiras

Martins, no rio Uberabinha

Cajuru, no rio Pará

São Bernardo, no rio São Bernardo

Paraúna, no rio Paraú

Pandeiros, no rio Pandeiros

Paciência, no rio Paraibuna

Marmelos, no rio Paraibuna

Salto de Morais, no rio Tijuco

Sumidouro, no rio Sacramento

Anil, no rio Jacaré

Funil, em Lavras no Rio Grande

Machado Mineiro, no rio Pardo

Xicão, no rio Santa Cruz

Igarapava, no rio Grande, em parceria com a CVRD - Cia. Vale do Rio Doce, Grupo Votorantim e CSN - Cia. Siderúrgica Nacional

Porto Estrela, no rio Santo Antônio, em parceria com a CVRD - Cia. Vale do Rio Doce e Coteminas

Queimado, no rio Preto, em parceria com a CEB - Cia. Energética de Brasília

Funil, no rio de Contas, em parceria com a CVRD - Cia. Vale do Rio Doce e Coteminas

Aimorés, no rio Doce, em parceria com a CVRD - Cia. Vale do Rio Doce

Irapé, no rio Jequitinhonha

Capim I, no rio Araguari, em parceria com a CVRD - Cia. Vale do Rio Doce, Cia. Agrícola Paineiras e Cia. Mineira de Metais

Capim II, no rio Araguari, CVRD - Cia. Vale do Rio Doce, Cia. Agrícola Paineiras e Cia. Mineira de Metais