A lama vermelha e a febre amarela

A febre amarela é uma doença causada por um vírus e transmitida por um mosquito. A febre amarela silvestre, aquela que pode ser transmitida dentro de áreas de mata, sempre existiu na Amazônia, mas de acordo com estudos ela vem avançando em direção ao sudeste brasileiro desde 2001. Alguns macacos sofrem com esse tipo de febre amarela, principalmente os bugios, que são os mais vulneráveis à doença.

Foto: Leandro Taques

Ao estudar o que pode ter causado, em todos esses anos, a expansão da febre amarela silvestre para o litoral e o agravamento atual da situação em 162 municípios mineiros, percebemos que a principal causa é o desequilíbrio do ambiente. Em um ambiente onde macacos e mosquitos permanecem em áreas de mata e a quantidade de mosquitos é controlada por seus predadores naturais, o vírus causador da febre amarela tende a permanecer em áreas que os seres humanos acessam pouco, como as florestas, e mesmo que haja contaminação de seres humanos, os casos da doença se mantem controlados. Em um ambiente desequilibrado, a situação se torna diferente.

Com a situação de desmatamento da Amazônia nos últimos anos para a expansão da monocultura de soja e outros produtos, os animais se aproximam mais das cidades ao terem seu ambiente de vida destruído ou reduzido, a procura de mais espaço, alimento e água.

Dessa forma, o ciclo de transmissão da febre amarela, que estava mais restrito às florestas, se torna mais próximo das cidades e de áreas mais habitadas, e a possibilidade de contaminação dos seres humanos se torna maior. Essa é uma hipótese que explica o avanço da doença da região amazônica para o litoral do país. O desequilíbrio ambiental pode também causar situações de estresse aos macacos e isso pode torná-los mais vulneráveis à doença, inclusive fazendo com que espécies que são menos susceptíveis a febre amarela comecem a adoecer, como micos estrela e macacos prego, que são espécies que vivem mais próximas de áreas urbanas.

Em Minas Gerais, a febre amarela reaparece na região da bacia do Rio Doce após o maior crime socioambiental do Brasil, causado pelas empresas Vale, BHP Billiton e Samarco. O rompimento da barragem da Samarco, nessa região, causou um grande desequilíbrio ambiental ao desmatar várias áreas de floresta, ao contaminar rios, ao matar milhares de peixes, ao criar áreas abandonadas com rejeito depositado e água acumulada. Dessa forma, macacos e mosquitos ficaram com seus ambientes de vida reduzidos e podem estar se deslocando para áreas habitadas. A mineração é outra atividade que causa desequilíbrio ambiental uma vez que modifica todo o ambiente para instalação das minas, mineroduto e barragens de rejeito, com desmatamento, degradação de nascentes e rios.

A região afetada pela febre amarela é mais ampla que a região por onde a lama de rejeitos da Samarco passou, porém em alguns pontos elas coincidem. Além disso, a maioria dos municípios em emergência estão ao redor de áreas afetadas pelo rompimento da barragem de Fundão ou próximos a regiões mineradoras.

“As principais especulações são de que as grandes alterações ambientais provocadas pelo escoamento da lama pela calha do Rio Doce, e em alguns lugares pelas suas margens, tenham provocado uma alteração no ecossistema e isto teria afetado a dinâmica da doença, tanto a movimentação dos primatas quanto a configuração dos criadouros do mosquito” comenta Léo Heller, Relator Especial do Direito Humano à Água e ao Esgotamento Sanitário, das Nações Unidas.

Em 2016, o município de Barra Longa já apontava que problemas de saúde estavam por vir. Em Barra Longa o centro da cidade foi atingido pela lama de rejeitos e o município sofreu um surto de dengue com 174 casos notificados, mas estima-se que possa ter chegado a 450 casos, a maioria deles sem notificação. No ano anterior, antes do rompimento da barragem da Samarco, os casos de dengue foram apenas 3.

De julho de 2017 a janeiro de 2018, 57 pessoas morreram de febre amarela no Brasil. O estado com maior número de casos confirmados é São Paulo, com 61 casos, Minas Gerais tem 50 casos, Rio de Janeiro 18 casos e o Distrito Federal 1 caso. Minas Gerais é o estado com mais mortes, com 29 mortes, entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018. São Paulo registra 21 mortes e o Rio de Janeiro têm 7 mortes devido à febre amarela. Em Minas são 162 municípios em áreas de maior incidência da doença, nas regiões de Ponte Nova, Itabira, Belo Horizonte, Barbacena e Juiz de Fora.

Todos esses são casos de febre amarela silvestre. É o maior surto de febre amarela silvestre no Brasil desde 1980.  Nas primeiras cidades atingidas pelo crime da Samarco já há registro de mortes. Mariana já registra 4 mortes, Ponte Nova registrou 1 morte, Barra Longa 2 mortes e Belo Horizonte, capital mineira inserida em região mineradora, 3 mortes.  A febre amarela urbana não ocorre no Brasil desde 1942.

Além da febre amarela, Minas Gerais viveu em 2017 o maior surto de Chikungunya de sua história. Foram 13 mortes, sendo 10 delas em Governador Valadares, cidade atingida pelo crime da Samarco.

“A relação da lama com a febre amarela ainda carece de estudos, porém uma coisa é certa: diante dos surtos recentes de doenças na região, a saúde da população é um tema chave na discussão da recuperação da bacia do Rio Doce e da luta dos atingidos pela lama. E a Assessoria Técnica independente já em funcionamento em Barra Longa e Mariana, mas agora sendo ampliada para os demais municípios atingidos por meio acordo entre Vale, BHP Billiton, Samarco e o MPF, será um grande instrumento para a população entender estes múltiplos impactos e se organizar para garantir o direito à saúde”, opina Letícia Faria, integrante da coordenação do MAB em Minas Gerais.

Com informações de G1, EM, ESTADAO e O GLOBO.