No Rio Doce, crime ambiental, abandono e desespero se transformam em luta

Do avião já se vê o rio de lama que corta o norte do estado de Minas Gerais. Até novembro de 2015, o Rio Doce era fonte de alegria, alimento, vida. Foi quando o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, transformou em barro tóxico o leito que banha mais de 850 quilômetros de terras nos estados de Minas e Espírito Santo.

Um dossiê audiovisual sobre a região foi apresentado na segunda-feira (23), em Genebra, Suíça, durante a discussão de um novo Tratado Vinculante sobre Empresas Transnacionais e Direitos Humanos, no Conselho de Direitos Humanos  das Nações Unidas (ONU).

“Até agora praticamente nada foi reparado”, relata Thomas Bauer, fotógrafo da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em reportagem do Brasil de Fato. “Os atingidos não conseguiram melhorar sua situação diante do que aconteceu e muitos perderam tudo”, lembra Bauer, que percorreu o Rio Doce, no final de 2016, para fazer as imagens que compuseram o dossiê.

De acordo com análises feitas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), comparando material do crime ambiental com o coletado em 2015 – antes de a lama da Samarco atingir o Rio Doce –, o ecossistema foi totalmente alterado pelos rejeitos da mineradora: hoje há o dobro de ferro, quatro vezes mais alumínio e três vezes mais manganês nas águas.

E isso transtornou a vida de milhares de pessoas que viviam do rio ou em seu entorno. Foi para falar com o povo que sofre as consequências desse verdadeiro crime ambiental que a caravana Lula pelo Brasil chegou nesta terça-feira (24) a Governador Valadares. Às margens da bacia do Rio Doce, o ex-presidente protestou ao lado de milhares de cidadãos que aguardavam sua visita. “Eles acham que vai ter impunidade e vão sair ilesos. E que vocês vão esperar que o tempo se encarregue de fazer a recuperação.  É verdade que precisamos do tempo, mas é verdade que precisamos que o governo federal coloque recursos aqui para ajudar o governo estadual, o municipal. Tem muita gente que depende desse rio!”

Maria José Horta Carneiro Silva é uma dessas pessoas. Lavradora de 30 anos, tinha um pedaço de terra em Ponte do Gama, na região de Mariana. Com o rompimento da barragem, acabou tudo. “Antes eu tinha a produção de leite, era pasto verde o ano todo, o gado bebia do rio, se alimentava nas margens. Hoje, trato de criação o dia todo. Antes era tudo da natureza, agora é cilagem.”

Solidariedade

Maria José não tinha nenhuma relação com movimentos sociais, com a política. Hoje reconhece na luta conjunta do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) o espaço onde encontra conforto, compreensão e acima de tudo esperança. “Após dois anos do rompimento da barragem a gente não conseguiu nada ainda, a empresa está só enrolando. Mas estamos lutando para voltar para a vida que a gente tinha antes. É muito difícil você ser expulso da vida que tinha pra viver outra.”

por Cláudia Motta, especial para a RBA

Geovane da Costa Souza, militante do MAB, é o retrato dessa solidariedade que se espalha até se transformar em luta. Atuante na bacia do Rio Doce desde dezembro de 2015, saiu do Norte do Brasil, onde havia sido atingido pela construção de uma hidrelétrica em Rondônia. “Vim para a região com uma brigada de solidariedade ao povo atingido. Estamos aqui organizando e lutando para que o maior crime socioambiental da história da mineração não caia no esquecimento. Organizando o povo para que tenham acesso mínimo à reparação justa, tanto social, quanto ambiental.”

Tormento

É também para ir atrás dessa reparação que Jocenilson Cirilo Mendonça concentra suas forças. Pescador em Linhares (ES), na foz do Rio Doce, aos 46 anos, traz nos olhos o desespero de quem busca saídas todos os dias e não encontra nada. Nem para ele, nem para a comunidade de Povoação, aos quais representa como presidente da associação de moradores.

“São dois anos de cadastro. Até hoje a Samarco não chegou a uma definição para ajudar as pessoas que foram impactadas. Elas não têm mais a vida que tinham. Jogam uns contra os outros, porque tem gente recebendo (ajuda financeira) e outros ficaram sem receber, mesmo tendo sido prejudicados. Gente que tinha carteira de pesca, comerciantes, agricultores.”

Jocenilson conta que agora “inventaram o tal programa de indenização imediata”. “Oferecem o que querem, mas as pessoas não têm direito de dizer que não está bom. Se eles oferecerem R$ 10 mil, tem de ser os R$ 10 mil ou não participa do programa. Eles causaram o crime e a população tá pagando por esse crime. Não é questão de não terem condição de acertar com as pessoas, é que eles não querem acertar. Mas até recuperar o rio, eles têm de pagar os danos que causaram para as pessoas impactadas”, reforça.

“Minha vida virou um verdadeiro tormento. As pessoas me cobram, todo dia 30, 40, 50 pessoas. Meu trabalho, como presidente da associação de moradores, é correr atrás para ajudar aqueles que foram impactados. Eu não tô vivendo, é tanto problema. Saímos do Espírito Santo para ter uma oportunidade para divulgar o que está acontecendo. Só deus sabe o que a gente está passando.  É tanto enrolação, ninguém aguenta mais. Povoação está dentro do degredo, dentro da área do crime e eles não tomam uma solução pra ajudar a gente.  Cabe aos governantes, ao Ministério Publico, ao Poder Judiciário ajudar as comunidades atingidas”, cobra, lembrando a vida pacata que tinha em Povoação. “Tenho mulher, um filho de 23 anos, uma filha de 15. Até dentro da própria casa da gente as coisas estão difíceis. A gente corre pra um lado, corre pra outro e a não tem salário para poder estar brigando pelas pessoas, mas elas acreditam na gente. Minha vida mudou, é demanda todo dia. Enquanto isso, o Ministério Público proibiu pescar no mar, no Rio Doce, no Rio Manhuaçu. O turismo acabou. Hoje se a pessoa não tiver uma caixa d’água em cima da casa, nem pode beber agua. A Justiça proibiu a pesca, mas não meteu a caneta na empresa para poder pagar as pessoas pelo crime que ela cometeu.”