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claret coluna

Oração militante

Por Antônio Claret Fernandes*

Louvo-te, ó dialética, concebida no seio da história, na memória coletiva, na materialidade
Bendito seja o teu nascimento, no conflito, na morte da harmonia, inaugurando a realidade de forças contrárias em permanente disputa
Louvo-te, ó dialética, filha da santa e da outra, ao mesmo tempo, rebento do novo, de novo, sempre
Bendito seja o ser social que gera consciência, ciência, na opção de classe, unidade tensional e necessária
Louvo-te, ó dialética, pelas estradas retas tornadas tortas, pelas portas fechadas e abertas, pelas rachaduras no tempo
Bendita seja a contradição: no cansaço dos atalhos – a aliança com a burguesia atrasa a chegada; no gosto amargo do farelo de pão velho – pra nunca mais cochilar; no sabor insosso do golpe mortal – pra não morrer nem pensar que é sina que é ‘sorte’ que é o fim da história
Louvo-te, ó dialética, pelo sol que se esconde para iluminar a lua, que se enche de beleza e formosura, que dá clareza de rumo, que ilumina a noite até ser dia novo, de novo
Benditas sejam a esperança - do verbo esperançar - e a utopia, filhas da outra realidade, presentes nos ensaios da nova ordem social
Louvo-te, ó dialética, por ser interrogação entre tantas respostas prontas e acabadas
Benditas sejam as perguntas ‘energia pra quê e pra quem’, ‘minério pra quê e pra quem’,  ‘trabalho pra quê e pra quem’, ‘viver pra quê e pra quem’, pois tudo tem lado e tem razão; aquela causa mais funda que nos põe de pé, nos faz caminhar, na luta permanente ‘por água e energia com soberania, distribuição de riqueza e controle popular’.

*Militante do MAB e padre da Arquidiocese de Mariana