Perguntar não faz mal

Pergunta não faz mal, não é? Lutar também não! Nós vamos permitir que essa empresa, responsável por uma tragédia criminosa, defina o nosso futuro?

Por Antônio Claret Fernandes, militante do MAB em Minas Gerais e padre

Quem acumula capital explorando minério e a classe trabalhadora por quase uma centena de anos, levando a riqueza e deixando a miséria, e as crateras, junto com o lixo do rejeito, chantageando o Estado Brasileiro e as diversas esferas de Governo, querendo nos fazer acreditar que nós dependemos das mineradoras, quando, na verdade, elas é que dependem de nós, sugando nosso sangue e nossos bens naturais?

Quem permitiu tamanha negligência, fazendo romper a barragem de Fundão, no dia 5 de novembro, e que tartaruga é essa que, mesmo a lama chegando a Barra Longa 11 horas depois desse crime, ainda pega o povo de surpresa?

Quem sofre mais com essa empresa: o operário terceirizado, pressionado, que sai de casa 5 horas da manhã e chega às 9 da noite, com o uniforme branco de sal, açoitado diariamente por um salário, ou o atingido pela lama, que vai pra cama e o sono não vai; que espera a reunião da empresa pra solucionar o problema, e vem mais uma promessa, ainda no emergencial, depois de quase 70 dias desse crime social e ambiental, o maior do Brasil?

Quem vai acreditar numa empresa que sumiu com o dinheiro da conta, que faz de conta, que aproveita a enchente pra soltar mais rejeito, que gosta do mal feito, que empurra o barro pro rio com a desculpa de abrir a estrada, que esconde o rejeito e outras sujeiras sob a sonoridade de uma ‘adubação verde’, que não cumpre os acordos, então quem, em boa saúde, colocaria esse gambá pra tomar conta dos ovos?

Quem vai acreditar numa empresa que tem tecnologia de ponta pra tirar minério, mas tira zero quando o assunto é lidar com gente - o direito do povo -, criando problema com tantas famílias que ficam sem cartão e até com um ‘peru do natal’? E que tenta criminalizar os lutadores, fazendo uma entrevista diferente com a Coordenação do MAB, querendo saber de tudo – quem é o chefe do grupo, o que acham disso e daquilo ... -, um claro desrespeito à autonomia do movimento e à livre expressão popular?

O que fazer com essa empresa, se o povo fala ‘pão’ e ela entende ‘pedra’, fala ‘alimento’ e ela entende ‘minério’? Quando algumas famílias de Volta da Capela querem moradia segura, quintais revitalizados, e ela quer somente passar verniz em tudo? Quando algumas famílias de Morro Vermelho querem habitar fora da área de risco e ela quer uma reformazinha e um murinho de contenção? Quando famílias de Gesteira querem tudo que é necessário pra vida ficar igual ou melhor, pois esse foi o discurso da empresa,  e ela quer remendar a vida, que matou?

Pergunta não faz mal, não é? Lutar também não! Nós vamos permitir que essa empresa, responsável por uma tragédia criminosa, defina o nosso futuro? Nós vamos permitir que, no calor do emergencial, tudo fique provisório? Claro que não!