Transposição do São Francisco: que as águas sirvam à vida!

Sabemos que, mais do que um fim, a inauguração dessa obra marca mais um período de luta dos movimentos sociais e do povo nordestino pelo direito à água do Velho Chico

Foto: João Zinclar

O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) sempre afirma em sua análise que não é o tipo de tecnologia para geração de energia ou captação de água que determina se elas são alternativas ou sustentáveis. O que determina, de fato, é“pra quê” e “pra quem” estas obras são construídas. Quem serão os beneficiados: o povo ou meramente as empresas do capital privado?

Nenhuma tecnologia está isenta de seu caráter político. Dentro do modelo energético brasileiro, afirmamos que a construção de hidrelétricas e as riquezas por elas geradas são para beneficiar o capital – em sua grande maioria internacional.

Essa mesma conceituação utilizamos para analisarmos a transposição do rio São Francisco. Porém, é impossível não se emocionar com a felicidade da multidão que participou no último domingo (19) da reinauguração da obra com seus verdadeiros autores – o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente democraticamente eleita Dilma Rousseff.

Como podemos ser contra a interligação das águas de uma região que detém menos de 5% das reservas hídricas do país? Como se colocar contra a obra que pretende dar melhores condições a todo povo castigado pelo semi-árido? Muitas vezes o erro não está nas respostas, mas nas perguntas.

“Pra quê” foi realizada a transposição do rio São Francisco e “quem” se beneficiará dela? Qual a melhor maneira de resolver o problema da falta de água dos milhões de nordestinos? Essas são as perguntas que achamos mais pertinentes.Temos que buscar técnicas e tecnologias que melhorem a condição de vida do povo no semi-árido que, apesar de possuir baixas reservas de água, gera uma riqueza extraordinária ao país.

Em 2007, cerramos fileiras contra a obra porque sabíamos que no interior de sua concepção, como toda grande obra do capital, predomina o abastecimento ao agronegócio e às grandes indústrias localizadas nas regiões dos “portos”.

Além disso, o empreendimento também desalojou milhares de famílias e violou os direitos humanos de centenas de comunidades, incluindo indígenas e quilombolas. Mais do que isso, milhares de pessoas que vivem à beira dos canais do Velho Chico ainda dependem da água de caminhões-pipa, como o caso das famílias atingidas pela barragem de Acauã, na Paraíba.

Celebrar e festejar a inauguração popular da obra é um direito do povo da Paraíba e de todo o Nordeste, pois ali está a esperança dos mais marginalizados de finalmente terem acesso à água. Sabemos que, mais do que um fim, a inauguração dessa obra marca mais um período de luta dos movimentos sociais e do povo nordestino pelo direito à água do Velho Chico.

Devemos continuar unidos, assim como ocorreu no último domingo em Monteiro (PB), para que os trabalhadores possam usufruir das águas dessa transposição. Para que as águas do Velho Chico possam abastecer o reassentamento do Novo Alagamar, em Jaguaretama (CE), conquistado com muita luta pelos atingidos pela barragem do Castanhão e muitas outras comunidades de trabalhadores. Por todas as contradições postas, nossa luta será para que as águas do Velho Chico possam servir à vida e não só ao capital!

Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens

São Paulo, 20 de março de 2017