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01.03.2011
Obras da transposição do
Rio São Francisco violam direitos humanos
Por Maristela Lopes
Falta de
água potável, falta de titulação e demarcação das terras dos
quilombolas e indígenas, falta de escolas, de posto médico.
Esses são
alguns dos exemplos de violação dos direitos humanos que
constam no Relatório da Missão à Petrolina e região do Rio
São Francisco, apresentado pela Plataforma Dhesca Brasil –
Rede Nacional de Direitos Humanos, que congrega entidades
ligadas às redes de direitos humanos da sociedade civil.
O
relatório foi apresentado oficialmente pelo sociólogo Sergio
Sauer, no plenário da Assembléia Legislativa de Pernambuco,
no dia 22 de fevereiro.
Sauer fez
um breve relato das principais demandas e recomendações do
relatório, frisando que todo o trabalho foi estruturado a
partir da coleta de depoimentos e denúncias dos integrantes
das comunidades de Pernambuco atingidas pelas obras de
transposição do rio São Francisco e pela construção de
barragens no semi-árido.
Ele
lembrou que a missão de verificação in loco aconteceu
em outubro de 2010, com visitas aos municípios de Petrolina,
Santa Maria da Boa Vista e Cabrobó, região do sertão do São
Francisco, onde está concentrado grande número de
assentamentos da Reforma Agraria.
Para ele,
essas obras “violam os direitos humanos dessas populações,
principalmente o direito à terra e território. E nem as
obras de compensação como habitação adequada e escolas até
agora foram cumpridas”.
O
documento assinado em 2008 entre o Ministério da Integração
e o Incra nacional, que garantia compensação das perdas de
lotes individuais e das áreas dos assentamentos da Reforma
Agrária com a construção de dutos da transposição, não foi
cumprido.
As
comunidades tradicionais como os quilombolas e indígenas e
moradores dos assentamentos da Reforma Agrária são os
principais atingidos pela transposição do São Francisco e
pela construção de barragens de Riacho Seco e Pedra Branca,
ambas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
À
margem da cidadania
A área da
comunidade quilombola de Cupira formada por 200 famílias, e
que fica localizada à margem do São Francisco, não possui
água potável. O atendimento médico só é possível há 18
quilômetros, sendo que os casos mais graves são levados para
Petrolina, distante há 100 quilômetros. E essa área será
totalmente inundada com a obra da Barragem do Riacho Seco.

Fernanda
Rodrigues, representante dessa comunidade e uma das
coordenadoras do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB),
denunciou durante o lançamento do relatório “a falta de
respeito com a história de mais de duzentos anos de meu
povo. Para nós, a terra não é somente um espaço. É o nosso
território, é onde vivemos com nossas tradições e
manifestações culturais”.
Ela disse
ainda que as empresas que chegam por lá querem interferir
até mesmo “na nossa cor dizendo quem é ou não é quilombola”.
Esse exemplo se expressa como uma negação ao que diz a
Constituição brasileira, que garante o direito fundamental
de ser quilombola. Das 18 comunidades reconhecidas daquela
região, nenhuma até agora possui título territorial.
Na
comunidade de Jatobá, no município de Cabobró, as 116
famílias mesmo vivendo às margens do São Francisco, não
contam com água. O relatório registra que Codevasf instalou
os canos, com a promessa de água potável, mas simplesmente
não há fornecimento de água.
Escolas e
postos de saúde, como obras de compensação também não foram
realizadas. Com isso, crianças e adolescentes para
frequentarem a escola precisam se deslocar a cidades em
transporte escolar precário - quando ele existe, pois muitas
vezes encontra-se quebrado.
Dentre a
série de denúncias feitas pelos ribeirinhos, quilombolas,
indígenas e trabalhadores rurais assentados, uma diz
respeito à falta de informações oficiais sobre quais são os
planos governamentais para essa região.
No
documento, consta também que os estudos antropológicos dos
povos indígenas Truká e Tumbalalá não foram finalizados e já
perduram por muito tempo, cujos territórios não são
reconhecidos e nem demarcados, na sua integralidade. Essas
áreas, ou serão inundadas ou impactadas por essas obras na
região. E diante dessas incertezas têm ocorrido conflitos
entre esses povos indígenas e os órgãos governamentais.
Reforma
agrária
No
acampamento Lagoa da Pedra, do MST, as 103 famílias, embora
cadastradas no Incra, não recebem cestas básicas há cerca de
quatro meses. A explicação é que não há transporte para a
entrega por falta de licitação. E outro agravante é que não
existe fornecimento de água para o acampamento. Essas
famílias são obrigadas a comprarem a água dos carros pipas,
em média por R$150,00 a 200 reais.
Para Edgar
Mota, do Setor de Direitos Humanos do MST em Pernambuco,
“isso demonstra que estado brasileiro tem sido um grande
violador de direitos humanos. Por isso, temos que garantir
nossos direitos”.
O
Relatório da Missão à Petrolina e região do Rio São
Francisco será encaminhado às autoridades federal e
estadual. E mecanismos internacionais poderão ser utilizados
para que os problemas diagnosticados, as recomendações e
denúncias possam ser solucionadas e que a situação vivida na
região seja reconhecida como violação dos direitos humanos.
O
relatório também será utilizado como forma de dar
visibilidade a toda articulação e às mobilizações das
comunidades e entidades
envolvidas. |