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01.07.2009
“O presidente estava
dando participação real ao povo”
Igor Ojeda,
da Redação
do jornal Brasil de Fato
Para
Wendy Cruz, da Via Campesina em Honduras, o presidente do
país, Manuel Zelaya, deposto por meio de golpe de Estado no
dia 28, queria “abrir uma brecha para que o povo conquiste
sua emancipação” ao propor uma consulta sobre uma Assembleia
Constituinte. Em entrevista ao Brasil de Fato por
correio eletrônico, esse foi o motivo da reação dos “grupos
de poder econômico do país, monopolizado por 13 famílias”.
Zelaya
propunha para o mesmo dia 28 uma enquete sobre a quarta
urna: ou seja, nas eleições gerais de novembro, em que a
população escolheria um novo presidente, deputados e
autoridades locais, seria adicionada (caso no dia 28 o povo
assim o determinasse) uma consulta sobre a convocação ou não
de uma Assembleia Constituinte. Leia, a seguir, a entrevista
com a integrante da Via Campesina:
Por que
tiraram o presidente Manuel Zelaya da presidência de
Honduras?
Porque ele decidiu consultar o povo hondurenho se se
instalava uma quarta urna nas eleições do próximo novembro.
Os grupos de poder deste país deram um golpe de Estado
porque o presidente estava dando participação real ao povo.
Quem
são os protagonistas do golpe?
Os
grupos de poder econômico do país, monopolizado por 13
famílias, como por exemplo os Kafati, Ferrari, Facuse,
Villedas, Larach, Rosental, entre outros. Esse grupo de
poder mantém sequestradas todas as instituições do Estado e,
inclusive, têm a suas ordens a Corte Suprema de Justiça e o
Congresso Nacional da República. Para que você veja como
isso se evidencia, há uma hora [cerca de 14hs de Brasília],
a Justiça emitiu 25 ordens de captura e ajuizamento paraos
principais líderes populares, entre eles, Rafael Alegría,
Carlos H. Reyes, Berta Oliva, Juan Barahona e Andrés Pavón.
Invocamos ao Dr. Ramón Custodio, da Comissão de Direitos
Humanos, que, em vez dele estar defendendo ao golpista
Roberto Micheletti Bain deveria estar junto com o povo
hondurenho, e que exigimos que nossa democracia não seja
violada.
Pode-se
dizer que a justiça hondurenha ajudou a fomentar o golpe?
Por quê?
Sim, eles tentaram parar a enquete com ordens judiciais da
Corte Suprema de Justiça e por meio de recursos de amparo do
Ministério Público pedindo sua nulidade. Ordens que nosso
presidente não tinha que acatar, já que a enquete é legal,
no marco da nossa Lei de Participação Cidadã.
Como se
explica o fato de que inclusive membros do partido do
presidente tenham apoiado o golpe?
Porque o Partido Liberal está dividido por vários grupos, e
os que se opõem são os que formam os grupos de poder, como
Roberto Micheletti e Elvin Santos, atual candidato [à
presidência pelo Partido Liberal nas eleições de novembro].
A
maioria das forças sociais do país está com Zelaya? Por quê?
Todos os movimentos sociais estamos apoiando o presidente
Zelaya não porque sejamos de seu partido, mas sim porque
acreditamos que devemos derrotar esse modelo econômico
neoliberal que não permite aos povos a liberdade de decidir
suas próprias políticas de desenvolvimento. Se não pusermos
em marcha transformações sociais, isso é impossível de se
conseguir. E nosso presidente quis abrir essa brecha para
que o povo conquiste sua emancipação.
Que
medidas ele vinha tomando no governo?
Não
continuar a privatizar os recursos do Estado hondurenho, por
exemplo: a Empresa de Energia Elétrica (ENEE), o sistema
portuário, o sistema de saúde, entre outros.
Como
está a situação hoje em Honduras? Há repressão?
A
situação é crítica, estamos vivendo em uma constante
intranquilidade de repressão, de toques de recolher, a não
permissão de livre trânsito às pessoas que vêm da área
rural, a livre expressão. Na manifestação de ontem [29 de
junho], em que estavam mais de 50 mil pessoas, nos
reprimiram para nos tirar a força de lá, e, para isso,
jogaram bombas de gás lacrimogênio, ferindo a mais de 50
pessoas, algumas com armas de brinquedo.
Por que
a convocação de uma Assembléia Constituinte é uma demanda
histórica dos movimentos sociais?
Porque os grupos de poder vêm submetendo o país a 100 anos
de bipartidismo e manipulando a “democracia” a seu favor.
Assim, parece que é uma questão de herança ser deputado/a,
ocupar qualquer cargo no Estado hondurenho. Convencidos que
esta “democracia” é uma falácia dirigida pelos grupos de
poder econômico do país, os movimentos sociais exigimos que
se faça uma nova Constituição da República, onde todos os
setores da sociedade hondurenha possamos estar representados
em forma real.
Quais
seriam as bases de uma nova Constituição, e por que os
protagonistas do golpe a temeriam?
Que
fosse elaborada a partir dos diferentes setores da sociedade
hondurenha, que por sua vez estivesse representada por
camponeses, indígenas, negros, jovens, mulheres,
sindicalistas, operários, empresários, entre outros grupos.
Os protagonistas do golpe temem porque sabem que o povo
hondurenho não está disposto a continuar sob o jugo da
oligarquia hondurenha. Pode nos ter marginalizados por um
tempo, mas agora exigimos que queremos ser consultados sobre
tudo que seja transcendente neste país. Esse grupo golpista
vêm, durante muitos anos, através do Congresso Nacional,
mantendo seu status quo, e hoje vêem um perigo eminente.
Vocês
acreditam que houve participação dos EUA no golpe?
Realmente não sabemos com exatidão, embora eles venham sim
empurrando aos hondurenhos esse golpe fatal.
O que
você pensa das declarações de Barack Obama sobre o golpe?
Foi
importante ao dizer que só reconhece Manuel Zelaya como
presidente, mas ainda continuamos preocupados pela posição
dos EUA, porque Hillary Clinton [a secretária de Estado
estadunidense] disse que não queria opinar sobre o golpe de
Estado em Honduras porque não estava segura se foi um golpe
de Estado. Isso significa que há desacordos entre eles.
O que
vocês esperam que ocorra a partir de agora?
Continuamos com a esperança de restabelecer nossa ordem
constitucional com a chegada do senhor presidente da ONU e
do nosso presidente Zelaya, mas enquanto isso estamos
resistindo porque esse grupo de poder é capaz de tudo.
Alertamos a todos os movimentos sociais do mundo a continuar
a se solidarizarem com o povo hondurenho, porque, do
contrário, esses golpistas seguirão com seu plano. |