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01.10.2009
Energia: a tragédia da privatização
Leia
reportagem da revista Carta Capital sobre a desastrada
abertura do setor elétrico na era FHC e suas conseqüências
na elevação da tarifa de energia
Carta Capital
Por
Luiz Antonio Cintra
Foto: João Zinclair
Distante
dos holofotes, uma Comissão Parlamentar de Inquérito
trabalha há três meses para tentar responder a uma pergunta
que tem ocupado especialistas habituados com os meandros do
intrincado setor elétrico nacional: o Brasil possui as mais
caras tarifas elétricas do mundo?
Em que
pesem as dificuldades de comparação com outros países, por
causa das oscilações do câmbio e das diferenças de matriz
energética, o fato é que as tarifas praticadas no País sobem
em ritmo acelerado desde o início da privatização do setor,
em meados dos anos 1990.
Estudo
assinado por economistas do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que serviu de
base ao pedido de CPI, sustenta que sim, que somos líderes
no ranking mundial, à frente de países com uma renda per
capita muito superior à brasileira, como Japão e Alemanha.
De 1995 a meados de 2008, data de publicação do estudo, a
tarifa média teria subido nada menos que 398%. No mesmo
período, os salários, corrigidos pelo IPCA, subiram bem
menos, apenas 164%.
Intitulado
“Por que as tarifas foram para os céus? Propostas para o
setor elétrico brasileiro”, o que seria apenas mais um
paper destinado a discussões entre especialistas ganhou
um inesperado fôlego político com a CPI, que teve de vencer
a resistência inicial dos parlamentares governistas. E
esquentou o debate em torno do tema – e por extensão, sobre
a qualidade da atuação da Agência Nacional de Energia
Elétrica (Aneel), responsável pela gestão e fiscalização do
setor, também na mira dos parlamentares.
“O Brasil
possui o menor custo de produção de energia do mundo entre
as nações com mais de 50 milhões de habitantes e um dos
menores do mundo. Entretanto, para o consumidor, a tarifa é
uma das mais caras”, anotam os economistas Gustavo dos
Santos, Eduardo Barbosa, José Francisco da Silva e o
contador Ronaldo de Abreu, autores do estudo. O quarteto
credita ainda a alta ao modelo pós-privatização, que teria
criado uma “enormidade de custos desnecessários e tornado o
sistema menos confiável”.
Criou
ainda disparidades regionais antes inexistentes. Após a
privatização, cada concessionária passou a cobrar de acordo
com os seus custos – e o resultado foi que em estados como o
Maranhão ou o Piauí, onde a renda per capita é das mais
baixas do País, a energia custa quase o dobro da tarifa dos
paulistas, detentores da maior renda individual.
No
Maranhão, a tarifa residencial era de 648 reais o
megawatthora em dezembro de 2008, segundo a Aneel, em
comparação a 369 reais cobrados em São Paulo. Um estudo
produzido por técnicos da USP constatou indícios de cobrança
indevida por parte da concessionária local, Cemar, do grupo
Equatorial Energia. A distribuidora teria faturado a mais em
contas de 80 mil consumidores de baixa renda. Consultada por
CartaCapital, a Cemar, em nota enviada por e-mail, afirma
que a empresa chegou a um Termo de Ajuste de Conduta (TAC)
com o Ministério Público Estadual para a realização de uma
perícia conclusiva sobre o caso. “Apenas
a complementação da perícia poderá constatar se houve alguma
inconformidade”, responde a Cemar.
A empresa atribui ainda o custo elevado da
sua tarifa aos aspectos socioeconômicos (baixo consumo per
capita) e à extensão da área de concessão. E ainda aos
impostos e encargos pagos pelos consumidores. Os ganhos de
eficiência estariam sendo revertidos, diz a nota, aos
consumidores – em agosto, o custo do megawatthora teria
caído 1,64%. A redução não deverá prejudicar o balanço, cada
vez mais recheado de zeros. No ano passado, a Cemar
registrou lucro líquido de 228 milhões de reais, ante 180
milhões em 2007, um incremento de 27%.
“A
explosão das tarifas decorre do modelo mercantil de FHC,
qualitativamente mantido no governo Lula. Foi mantida uma
âncora para a especulação no chamado mercado livre (660
grandes consumidores no País, especialmente indústrias),
custeada pelo mercado cativo (residencial e de empresas
menores). Não foram feitos inventários para licitar novas
hidrelétricas, o que deveria ter sido feito desde 2003”,
afirma Ildo Sauer, ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras
e um dos principais estudiosos do tema no País. “Renegociei
contratos emergenciais imorais da Petrobras. Por que o
restante do governo não fez o mesmo, já que custaram ao País
6,2 bilhões de reais? O setor elétrico é uma verdadeira
caixa-preta. É preciso saber o caminho que a energia faz
desde a geração até a distribuição, e quem está ganhando com
isso.”
Presidente
da CPI, o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) pediu auxílio ao
Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público Federal
para que os parlamentares consigam entender o que se passa
nos meandros contábeis das empresas do setor. “Notamos que
as empresas do setor mandam informações para a Aneel, mas a
agência não tem condições de auditar essas informações”, diz
o deputado. Fonte diz que, apesar das pressões em contrário
do governo no início da CPI, agora os ânimos dos deputados
“já são outros”, diante da visibilidade crescente do tema.
Dirigentes da Aneel, EPE, Ministério de Minas e Energia,
além de outros especialistas no setor já foram ouvidos pela
comissão, cujos trabalhos prosseguirão até meados de
outubro, caso não haja prorrogação.
Apesar de
ser um crítico do atual modelo, Roberto D´Araújo, um dos
criadores da ONG Ilumina, chama atenção para os riscos da
comparação com outros países, nem sempre pertinentes, em
decorrência das diferenças existentes tanto na matriz
energética (no Brasil, dominada pelas hidrelétricas e
termoelétricas), como no ambiente regulatório, impostos e
encargos existentes, além dos efeitos do câmbio. Para ele, a
simles comparação da tarifa prejudica as análises.
Araújo
considera, porém, que pode ser produtivo olhar para o caso
do Canadá, onde algumas províncias não aderiram à
privatização e a matriz elétrica e extensão territorial são
parecidas com a brasileira (quadro à página XX). “Ao
contrário do que acontece aqui, nas províncias de Quebéc e
British Columbia, um regulador dita as tarifas e lá, mesmo
quando os impostos são descontados, os valores são
inferiores aos brasileiros”, afirma. Segundo Araújo, no
Brasil, a situação é agravada pelos impostos “altíssimos”
existentes, especialmente o ICMS, que chega a quase 30% em
algumas regiões do País. “Mas aqui também temos os
consumidores cativos pagando tarifas altas, enquanto os
consumidores livres pagam tarifas irrisórias e ‘surfam’ nas
sobras de energia.”
Atualmente, com a abundância de chuvas dos últimos meses, o
preço do chamado mercado spot (uma parcela do mercado
livre) estava a 16,90 reais o megawatthora, muito abaixo do
custo de geração, de ao menos 40 reais. Araújo critica a
dispersão de entidades governamentais responsáveis por
administrar, gerir e fiscalizar o setor elétrico, o que
representaria custos elevados e pouco eficiência. “Houve
melhoras com o novo governo, como a obrigatoriedade dos
leilões e o fim do autossuprimento, pelo qual as
distribuidoras podiam comprar de geradoras do mesmo grupo, o
que distorcia o mercado. Mas em linhas gerais o modelo foi
mantido.”
Mesmo nos
EUA, pátria do liberalismo, existem exemplos para contrariar
os defensores do modelo de privatização. Nos estados de West
Virginia e Idaho, diz Araújo, que mantêm o sistema de
“remuneração garantida” da energia, a tarifa custa um terço
do valor cobrado no estado de Nova York, que apostou no
modelo baseado nos custos de produção, também vigente no
Brasil. “O sistema de remuneração garantida não tem nenhuma
relação com o fato de a distribuidora ser estatal ou
privada. Apesar dos defeitos advindos da possibilidade de se
praticar custos exagerados e da imerecida fama de ideologia
“estatizante” que ganhou aqui, muitos países ainda o
adotam”, afirma.
Superintendente da Aneel, Davi Antunes rebate as críticas,
começando pela ‘tese’ de que as tarifas brasileiras estão
entre as mais elevadas. “Um levantamento da Agência
Internacional de Energia concluiu que o Brasil está em 20º
lugar no mundo no ranking das tarifas elétricas”, afirma.
Antunes considera que são vários fatores a explicar o custo
atual, dividindo-os em parcela A ou “gerenciáveis” e parcela
B ou “não-gerenciáveis”. Antunes considera inapropriado
comparar regiões com realidades tão distintas, como são as
do Maranhão e São Paulo. “Pelo modelo atual, cada concessão
tem de se sustentar sozinha. E o Maranhão é um estado
grande, com uma população de baixo poder aquisitivo e que
está espalhada pelo território, então o custo unitário acaba
sendo alto. Já São Paulo possui a maior renda per capita e
uma rede madura que atende a uma população concentrada na
região metropolitana (no caso da concessão da Eletropaulo).”
Na
avaliação de Antunes, a Aneel tem recebido críticas
indevidas em relação às tarifas, já que cabe à agência
seguir as regras do modelo vigente e zelar pelos contratos,
mesmo aqueles fechados no modelo anterior. Uma das críticas
que se faz nesse caso diz respeito ao fato deles serem
corrigidos anualmente pelo IGP-M, índice de inflação
sensível às flutuações do dólar. Pelo cálculo dos
economistas do BNDES, a escolha fez com que as tarifas
quintuplicassem de valor entre 1995 e meados de 2008.
“Nesses casos, somos apenas o ‘cara’ que entrega a pizza,
apenas fazemos a conta, e não é certo dizer que a culpa é de
quem faz o cálculo.”
Em sua
análise, Antunes toca no calcanhar-de-Aquiles do setor para
os próximos anos, a dificuldade de se construir novas usinas
hidrelétricas. Com a presença crescente de termoelétricas
movidas a carvão, diesel e gás natural, aumentará também o
custo da energia nos próximos anos, avalia o superintendente
da Aneel.
Maurício
Tolmasquim, presidente da EPE, discorda de que haja uma
tendência de alta do custo médio de geração de energia. E
cita os números da IEA para se opor também à afirmação de
que as tarifas elétricas brasileiras estão muito caras. “O
último leilão, com as termoelétricas, é um ponto fora da
curva. A tendência de médio prazo é o custo da energia cair.
E hoje, descontados impostos e encargos, as tarifas não
podem ser consideradas elevadas.” Tolmasquim cita a
construção da usina no Rio Madeira e a retomada dos
inventários das bacias hidrográficas e licenciamentos
ambientais como um indicativo de que o País não corre o
risco de perder a vantagem comparativa representada pela
hidroeletricidade.
A atual
legislação ambiental, no entanto, ao restringir a construção
dos reservatórios de água, como ocorria até os anos 1970,
leva o governo a ter de ampliar a presença das
termoelétricas movidas a combustível fóssil. “Apesar de ser
algo paradoxal, o aumento das emissões decorrentes das
termoelétricass é a contrapartida para a não criação dos
reservatórios, que funcionam como uma espécie de poupança de
água do País, alguns com capacidade de armazenamento de até
três anos.”
Raciocínio
semelhante faz Antonio Machado, presidente da Câmara de
Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). “O modelo atual
está dando certo. Com os leilões e o mercado livre, temos
garantia de oferta e espaço para tarifas menores para os
grandes consumidores. Mas existem limitações, como é o caso
dos contratos, que precisam ser respeitados. O maior custo
para o País seria a falta de energia.”
Na CPI das
tarifas elétricas, também surgiram críticas à atuação da
Aneel. A agência teria corrigido indevidamente as tarifas no
Mato Grosso, durante a segunda revisão tarifária, ocorrida
no ano passado. Estudo do professor Dorival Gonçalves
Junior, da Universidade Federal do Mato Grosso, considerou
haver “indícios de irregularidades” na correção das tarifas
cobradas pela Cemat. Ao repassar aos consumidores os custos
relativos às perdas de energia decorrentes, na avaliação de
Gonçalves, de equipamentos inapropriados, a Aneel teria
errado.
Antunes,
da Aneel, diz que considerar o estudo em questão
"abominável". "O responsável discorda tecnicamente dos
critérios da Aneel e chama a isso de irregularidade." |