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03.11.2009
Cimi encerra encontro e
reafirma luta indígena
Do Cimi
DOCUMENTO FINAL DA 18ª ASSEMBLÉIA GERAL DO CIMI
"Paz e
Terra para os Povos Indígenas"! Este foi o tema da 18ª
Assembléia Geral do Cimi, realizada em Luziânia, Goiás, de
27 a 30 de outubro de 2009. O tema se inspira no texto do
Profeta Isaias “O fruto da Justiça será a Paz, e a obra da
justiça consistirá na tranqüilidade e na segurança para
sempre” (Is 32, 17) e enfatiza que o direito assegurado dos
povos indígenas à terra tradicional é condição prioritária
para que haja paz na terra. Sem justiça, não haverá
demarcação das terras, não haverá respeito às diferenças,
não haverá tranquilidade e segurança, não haverá futuro com
dignidade para os povos indígenas.
Ao
analisarmos a conjuntura indigenista, política, econômica e
social, concluímos que, embora haja êxitos e conquistas no
que tange à participação indígena nas esferas públicas de
controle social, vivemos um período de profundas e graves
adversidades porque estão sendo consolidados programas e
políticas que desrespeitam os direitos humanos, sociais,
ambientais e culturais.
As
prioridades absolutas do governo federal são empreendimentos
exploratórios dos recursos naturais existentes nas terras e
nas águas. Para viabilizar tais projetos desenvolvimentistas
o Estado disponibiliza suas estruturas administrativas,
financeiras, jurídicas e políticas. As leis precisam
corresponder a essas expectativas e, quando isso não
acontece do ponto de vista dos setores da produção, novas
leis serão criadas. O Governo entende que os demais entraves
que comprometem os planos desenvolvimentistas – tais como os
povos indígenas, os quilombolas e outras populações
tradicionais, o Ministério Público, o meio ambiente e suas
riquezas não monetárias – devem ser removidos.
Para a
remoção destes entraves, o Estado também se estrutura com
departamentos e secretarias que atuam em três frentes: no
convencimento pela persuasão, na cooptação e na repressão
quando as primeiras não surtirem o efeito desejado. Nesta
mesma direção vão as ações do governo federal que objetivam
impedir a presença e acesso de aliados dos povos indígenas
às aldeias. Essa é mais uma das estratégias dos interesses
econômicos e do governo para facilitar a extração dos
recursos naturais das terras indígenas.
Como
consequência desse modelo de desenvolvimento, nenhuma terra
indígena foi regularizada nos dois últimos anos. Os povos
Guarani-Kaiowá e Terena em Mato Grosso do Sul sofrem
violências sistemáticas pela expansão do agronegócio,
especialmente do monocultivo da cana e da soja. Grandes e
pequenas hidrelétricas são projetadas e construídas sem
respeitar os povos que sofrerão terríveis impactos e sem
levar em conta riquezas naturais que serão destruídas. Belo
Monte no rio Xingu, Santo Antônio e Jirau no rio Madeira, a
transposição do rio São Francisco, e centenas de outros
empreendimentos afetarão os povos indígenas em todas as
regiões do país. De modo particular preocupa-nos os povos em
situação de isolamento que serão atingidos pelo complexo
hidrelétrico do rio Madeira e dezenas de outros que sofrerão
impactos em função do avanço do desmatamento e da exploração
mineral na Amazônia.
Representantes de diversos povos indígenas participaram
desta Assembléia e externaram, uma vez mais, seu clamor e
sua indignação diante da violência, criminalização de
lideranças, omissão do poder público e a devastação
decorrentes da implantação dos grandes projetos de morte – e
não de vida – para a grande maioria da população. Em sua
firme resistência e esperança, lançaram o apelo para que
mais setores da sociedade compreendam e apóiem seus direitos
e suas lutas. Fizeram um apelo especial aos missionários,
insistindo que, além de continuarem solidários e
compromissados com eles, se esmerem em conseguir sempre mais
aliados para essa causa.
Como
missionários e missionárias do Cimi, seguindo a tradição da
entidade desde a primeira Assembléia Geral em 1975,
assumimos o compromisso de apoio irrestrito aos povos
indígenas na luta pela demarcação e garantia de seus
territórios tradicionais, conforme determina a Constituição
Federal e convenções e declarações internacionais da qual o
Brasil é signatário. Definimos como ação estratégica
prioritária o apoio aos povos Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso
do Sul. A expulsão destes povos de suas terras ancestrais
configura-se em verdadeiro processo genocida e etnocida.
Continuaremos a denunciar os órgãos de Estado que praticam
atos de violência contra os povos indígenas, a exemplo do
caso dos indígenas Tupinambá torturados pela Polícia Federal
na Bahia.
Revigoramos nesta Assembléia o espírito de justiça e
compromisso missionário junto aos povos indígenas deste país
e do continente. Reafirmamos nossa abertura para o diálogo
interreligioso e ecumênico. Celebramos o testemunho dos
lutadores e lutadoras, que consagram suas vidas a esta causa
e dos que já partiram, em especial nossos companheiros de
décadas de luta e trabalho em favor dos povos indígenas de
pouco contato ou em situação de isolamento e risco, Padre
Günter Kroemer e Carlos Tavares dos Passos.
Unimo-nos
ao clamor da natureza, contra a destruição da vida no
planeta Terra. Os povos indígenas continuam a oferecer a
todo o mundo seus projetos históricos de convivência
harmoniosa com a natureza.
Mesmo que
campanhas antiindígenas tentem abafar nossos gritos por
terra e justiça, jamais conseguirão matar nossos sonhos e
nossa decisão inquebrantável de lutar pela vida, a dignidade
e os direitos dos povos indígenas.
A
primavera em flor em Luziânia, Goiás, tornou a Assembléia
mais alegre e esperançosa. A resistência dos povos indígenas
desabrocha na luta por seus direitos e fundamenta a nossa
mística militante. Acreditamos que "um outro mundo é
possível" que coincide para nós com o Reino de Deus em que
“Amor e Verdade se encontram, Justiça e Paz se abraçam.” (Sl
85 (84),11).
Luziânia, 30 de outubro de 2009 |