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02.02.2010
Belo Monte é mais um
presente para construtoras e mineradoras
Ontem
(01/02), o governo concedeu a licença prévia para a
construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. Ela custará
muitos milhões de dólares e vai fazer a festa das
empreiteiras.
Hamilton Octavio de Souza, do
sítio da Caros Amigos
O
governo federal insiste na construção da usina hidrelétrica
de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará. É obra grande, está no
PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), custará muitos
milhões de dólares, vai fazer a festa da Camargo Corrêa,
Odebrecht, Andrade Gutierrez e de todas as mineradoras
privadas que serão beneficiadas com energia farta custeada
pelo dinheiro público. A megalomania exalta a maior
hidrelétrica brasileira.
A
construção será tocada mesmo sem a conclusão de todos os
estudos de impacto ambiental, já que o Ibama foi pressionado
a acelerar a liberação da licença; sem a realização de mais
de 20 audiências públicas prometidas aos moradores da
região, que serão atingidos pelo lago da barragem, que
deverá ter mais de 100 km de extensão; e sem respeitar as
reservas indígenas, os ecossistemas, as grutas, as
cachoeiras e os vários sítios arqueológicos já localizados.
Contrário
à construção da usina, Dom Erwin Krautler, bispo da Prelazia
do Xingu e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI),
agrega outros aspectos negativos à polêmica obra, como a
inundação de bairros inteiros de Altamira, o despejo de 30
mil famílias, a destruição de terras indígenas e a criação
de um forte polo de migração sem que a região tenha
condições de oferecer serviços públicos adequados, de
moradia, educação, saúde e segurança.
Em
entrevista dia 29 de janeiro, no auditório da Livraria
Paulinas, em São Paulo, Dom Erwin contou que a grande
maioria da população resiste à usina de Belo Monte,
especialmente a população ribeirinha, os pescadores e os
povos indígenas. Para os índios, explicou, a inundação de
suas terras e a destruição do curso normal do rio, são
coisas inaceitáveis, na medida em que representam atentados
aos antepassados e ao futuro de seus filhos. A violência não
é só física, na destruição do seu habitat, é também
cultural, atinge suas crenças e sua religiosidade.
Morador na
região Amazônica há mais de 40 anos, constantemente ameaçado
de morte por latifundiários, grileiros e madeireiras, Dom
Erwin Krautler disse que o movimento popular em defesa do
Rio Xingu tem feito de tudo para convencer as autoridades a
desistirem da usina de Belo Monte. Ele esteve pessoalmente
duas vezes com o presidente Lula, que lhe garantiu que
ouviria os índios e os moradores de Altamira e que
respeitaria os estudos de impacto ambiental. No entanto,
segundo ele, os ministérios do Meio Ambiente e das Minas e
Energia decidiram construir a hidrelétrica de qualquer
maneira, sem levar em conta a manifestação dos moradores da
região.
O bispo
assegura que a construção da usina provocará uma reação
muito forte no povo do Xingu, principalmente por parte dos
grupos indígenas – que estão bem organizados, têm plena
consciência dos efeitos da obra nas suas reservas e tratam o
assunto como algo vital para os seus povos. O que vai
acontecer em Belo Monte é “imprevisível”, afirma Dom Erwin.
* Hamilton Octavio de Souza é
jornalista, editor da revista Caros Amigos e professor da
PUC-SP |