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03.03.2010
Trabalhadoras do campo e
da cidade iniciam jornada de mobilizações no RS
Dezenas
de mulheres da Via Campesina, do Movimento de Trabalhadores
Desempregados (MTD) e movimentos sindicais ocupam, neste
momento, os dois andares da Delegacia do Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) em Porto
Alegre, no Rio Grande do Sul.
O
Ministério foi ocupado em protesto contra a política de
desenvolvimento do governo federal que privilegia o
agronegócio, responsável pela produção de alimentos
transgênicos, com o uso intenso de agrotóxicos.
Esse
modelo de agricultura resulta em doenças para os produtores
e consumidores e grandes prejuízos ambientais. As mulheres
denunciam que mais de 95% da soja e cerca de 40% do milho
que são plantados no Rio Grande do Sul são geneticamente
modificados e que o Brasil é o campeão
mundial de uso de agrotóxicos. Por isso, “a maior parte da
comida que chega à mesa da população brasileira não é
alimento, é veneno”, declaram as manifestantes em nota.
Manifestações no interior e na região metropolitana
Cerca de
800 mulheres do campo e da cidade também realizam
manifestação no município de Palmeira das Missões. Na
cidade, as mulheres bloqueiam a rodovia RS569, entre
Palmeira das Missões e Novo Barreiro, em frente ao
acampamento de Sem Terra. Elas protestam contra a lentidão
do processo de
Reforma Agrária no país. Depois disso, as trabalhadoras
realizam uma marcha no centro de Palmeira das Missões para
reivindicar o combate a violência contra a mulher.
Os portões
de entrada da empresa Solae em Esteio, região metropolitana
de Porto Alegre, também foi ocupado por cerca de 800
mulheres. Com esta ação, as trabalhadoras querem chamar
atenção para o tipo de alimentos que o agronegócio produz.
“Este ano
nossa mobilização tem como principal objetivo denunciar para
a sociedade que a maior parte da comida que chega a mesa da
população brasileira não é alimento, é veneno”, diz a nota
pública das mulheres.
A empresa
Solae é fruto de uma parceria entre duas grandes
multinacionais do agronegócio a Du Pont e a Bunge. Esta
fábrica em Esteio é um dos maiores complexos de
processamento de soja transgênica do Brasil. Com este
protesto as mulheres denunciam que o agronegócio não serve
para alimentar o povo brasileiro porque só oferece produtos
trangênicos cultivados com muitos agrotóxicos, que provocam
doenças nos produtores e consumidores e grandes prejuízos
ambientais.
Durante a
manifestação as mulheres vão simbolicamente amamentar
esqueletos para denunciar que os efeitos nocivos dos
agrotóxicos e dos transgênicos são transmitidos de geração
para geração e uma das
formas de transmissão é pelo leite materno. “Quando comemos
comida envenenada e damos o peito aos nossos filhos ao invés
de alimentarmos a vida transmitimos a morte. No entanto, o
mesmo governo que faz campanhas para incentivar as mulheres
a amamentar, financia o agronegócio que produz a comida
envenenada para o povo pobre, contaminando o leite da
maioria das mães brasileiras”, alerta a nota das
manifestantes.
Esta ação
em Esteio marca o inicio da jornada de lutas do 8 de março
no Rio Grande do Sul. Este ano se comemora o centenário do 8
de março como dia internacional de luta das mulheres. A data
foi proposta por Clara Zetkin, comunista e feminista alemã,
no II Congresso de Mulheres Socialistas em 1910.
Leia
abaixo o manifesto divulgado pelas trabalhadoras.
Mulheres do campo e da cidade unidas na luta contra o
agronegócio
e pela soberania alimentar
Neste mês em que se comemoram
os 100 anos do 8 de março como dia internacional de luta das
mulheres, nós trabalhadoras do campo e da cidade do Rio
Grande do Sul estamos novamente nas ruas. Este ano nossa
mobilização tem como principal objetivo denunciar para a
sociedade que a maior parte da comida que chega a mesa da
população brasileira não é alimento, é veneno.
O Brasil é campeão mundial do
uso de agrotóxicos, que são venenos muito perigosos usados
na agricultura que provocam muitas doenças para produtoras/es
e consumidoras/es e grandes impactos ambientais. Além disso,
a maior parte dos produtos industriais que comemos é
fabricada com soja transgênica que também causa muito mal à
nossa saúde.
E quem come esta comida
envenenada? Somos nós, pobres. São as mulheres e homens
trabalhadores que recebem baixos salários ou estão
desempregados e escolhem os alimentos pelo preço não pela
qualidade. São as pessoas sem terra, sem teto, que se
alimentam graças às cestas básicas. Os ricos têm opção de
comer produtos orgânicos, cultivados sem venenos.
Os agrotóxicos e os
transgênicos não servem para matar a fome do povo, e sim
para matar a fome de lucro das empresas do agronegócio, a
maioria delas multinacionais. Esses produtos envenenam as
terras, as águas e principalmente as pessoas.
Leite materno só é fonte de
vida quando as mães comem alimentos saudáveis
Nesta mobilização estamos
amamentando esqueletos para denunciar a população em geral,
e principalmente às mulheres, que quando comemos comida
envenenada e damos o peito aos nossos filhos ao invés de
alimentarmos a vida transmitimos a morte.
As doenças causadas por
agrotóxicos são transmitidas de geração para geração, e um
dos modos de transmissão é através do leite materno. No
entanto, o mesmo governo que faz campanhas para incentivar
as mulheres a amamentar, financia o agronegócio que produz a
comida envenenada para o povo pobre, contaminando o leite da
maioria das mães brasileiras.
A gente não quer só comida
Nós mulheres que passamos boa
parte de nossas vidas envolvidas no cultivo e/ou no preparo
da comida para garantir saúde à nossa família estamos nas
ruas para gritar em alto e bom som que gente não quer só
comida, a gente quer alimento saudável, a gente quer
soberania alimentar!
Para o agronegócio o lucro está acima da vida. O agronegócio
faz mal a saúde do povo e do meio ambiente! E os governos
estadual e federal que financiam o agronegócio estão usando
o dinheiro público para bancar o envenenamento da população
pobre, a contaminação de nossas terras e águas.
Estamos em luta contra
Contra o agronegócio, um
modelo de produção agrícola que se sustenta na
superexploração do trabalho das pessoas, na contaminação dos
alimentos, na destruição de nossas riquezas naturais.
Lutamos contra o uso de recursos públicos para financiar a
contaminação do povo e do meio ambiente; Estamos em luta
contra todas as formas de violência contra mulheres,
incluindo a imposição de um padrão alimentar que não
respeita os costumes alimentares e causa muitos males à
saúde.
Estamos em luta por
Soberania Alimentar - com
reforma agrária, com geração de emprego e vida digna para as
populações camponesas, com agricultura ecológica que
respeita a diversidade de biomas e de hábitos alimentares.
Os governos se dizem preocupados com a segurança alimentar,
querem que as pessoas tenham várias refeições por dia. Mas
tão importante quanto a quantidade da comida é a qualidade
do que comemos. Por isso não basta segurança alimentar,
precisamos construir a Soberania Alimentar.
Mulheres da Via Campesina, do
MTD, da Intersindical e do coletivo de mulheres da UFRGS.
Porto Alegre, março de 2010. |