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03.05.2010
Amazônia, um filho teu
não foge à luta...
Entrevista com Dom Erwin Kräutler, Bispo do Xingu e
Presidente do Cimi
Nathana Simões
Jornal
"Voz de Nazaré"
Incansável, Dom Erwin Kräutler diz que a discussão sobre
Belo Monte está apenas começando.
Foto: Marcello Casal Jr/ABr
“Recuso-me
a afirmar que essa luta está perdida”. A declaração é de Dom
Erwin Kräutler, Bispo do Xingu e presidente do Cimi
(Conselho Indigenista Missionário), sobre a Usina
Hidrelétrica de Belo Monte. O prelado que atua na região há
45 anos, quase 30 deles dedicados como Bispo, conhece como
ninguém a realidade do povo amazônida. Em entrevista
exclusiva a Voz de Nazaré, ele reitera os motivos pelos
quais Belo Monte não é imprescindível para o desenvolvimento
do Brasil, e que existem diversas alternativas, não somente
de energia, mas de respeito à dignidade, que poderiam ser
adotadas. Para ele a “luta” para tentar impedir que a usina
se torne uma realidade está apenas no começo.
Belo Monte
não é apenas uma discussão que já perdura 30 anos, é uma
incógnita que se arrasta há décadas, tanto para as
populações diretamente afetadas quanto para o resto do
Brasil. Para os que defendem a sua construção, Belo Monte
trará consigo prosperidade, mas para outros, como Dom
Erwin, não há dúvida de que a usina afetará profundamente a
vida de comunidades ribeirinhas, populações indígenas e o
povo da parte mais baixa da cidade de Altamira, e por
consequência, cada cidadão brasileiro.
1) Após o
leilão de concessão do aproveitamento de Belo Monte, do
último dia 20, o senhor acredita que as chances de conseguir
impedir a sua construção ficaram mais distantes? Ou o senhor
acredita que ainda é cedo para dizer que a luta está
perdida?
Dom Erwin:
Recuso-me a afirmar que essa luta está perdida. O próprio
Juiz Federal de Altamira, Antônio Carlos Almeida Campelo,
que concedeu as três liminares na véspera do leilão admite
que estamos apenas no início de uma verdadeira guerra
judicial "nesta soma de absurdos que foi o leilão de Belo
Monte"[1].
Continuo a acreditar que, finalmente, a Carta Magna do
Brasil seja respeitada. A planejada usina hidrelétrica Belo
Monte é a primeira no Brasil que, se for construída,
aproveita recursos hídricos de áreas indígenas (Paquiçamba e
Arara). Em um caso desse tipo a nossa Constituição Federal
exige no seu Artigo 176 uma lei específica[2].
E essa lei regulamentadora simplesmente não existe. Nem
sequer foi discutida no Congresso Nacional. Ao lado da
denúncia de "irregularidades ambientais", este é o argumento
primordial das ações civis públicas ajuizadas pelo
Ministério Público Federal (MPF) e de outras entidades,
entre as quais o Cimi (Conselho Indigenista Missionário). O
Desembargador Jirair Meguerian, presidente do Tribunal
Regional Federal, 1ª Região, cassou todas as liminares num
tempo recorde, para possibilitar o leilão. O que realmente
espanta é que Jirair Meguerian em nenhum momento contestou
os argumentos. Justificou apenas que a decisão do MPF por
ele derrubada se baseou tão somente em "conjecturas". Essa
alegação não deixa de ser uma indicação de que o meritíssimo
não havia lido as 50 (cinquenta) páginas da decisão.
Deixou-se influenciar por outros parâmetros. Ora, se um
Artigo da Constituição Federal é considerado mera
"conjectura" (= fantasia, hipótese) então o Brasil está à
beira da falência de Estado de Direito. A Constituição
Federal foi desrespeitada, violada. Essa é a verdade! Nem o
presidente da República nem um juiz estão acima da
Constituição Federal. Se assim for, o Brasil já se tornou
ditadura.
Até
o insuspeito Senador Pedro Simon faz um alerta ao Presidente
da República. Cobra explicações ao povo brasileiro sobre o
processo de licitação e declara textualmente: "Precisamos
de energia, mas a controvérsia em torno de Belo Monte
espanta. E não é de agora. Nem os militares, com o Congresso
fechado, ousaram levar adiante a obra"[3].
2)
Na semana passada, o diretor de
licenciamento do IBAMA, Pedro Bignelli, afirmou ao site
Agência Brasil, que nenhuma terra indígena seria afetada com
a construção de Belo Monte. O que senhor acha desta
declaração?
Dom Erwin:
Essa declaração já conheço há tempo pois foi divulgada em
verso e prosa pela mídia, mas não deixa de ser uma falácia.
O IBAMA (Pedro Bignelli) e Maurício Tomasquim, presidente da
Empresa de Pesquisa Energética (EPE), sempre argumentaram
que nenhuma área indígena será inundada. Esconderam, porém,
o outro lado da moeda.
O
painel de 40 especialistas[4]
divulgou já ano passado seu parecer sobre a viabilidade de
Belo Monte. O documento analisa entre outras coisas os
impactos causados aos povos indígenas. O Governo,
lamentavelmente, não se deixou impressionar.
Em
primeiro lugar, se Belo Monte for construída, a obra será
realizada no limite de terras indígenas com inegáveis
impactos sociais e culturais causados pela proximidade do
canteiro de obras e de pessoas estranhas às aldeias.
Ao
longo de cerca de 100 km, a volta Grande do Xingu sofrerá
"redução da vazão e rebaixamento do lençol freático com
impactos biológicos originando um Trecho de Vazão Reduzida (TVR),
com vários impactos biológicos e sociais associados, como os
problemas para a navegação e os efeitos sobre as florestas
inundáveis". Essa perda de recursos naturais e hídricos
prejudicará diretamente os povos indígenas.
Áreas indígenas não serão inundadas. Sim! O contrário
acontecerá: aos indígenas será cortada a água! Como viver no
seco? De que se alimentarão, já que "o conjunto das espécies
que vivem neste trecho do rio não sobreviverá sob um regime
de vazão", em outras palavras, se aos indígenas falta o
peixe?
Não
é macabro cinismo afirmar que nenhuma terra indígena será
afetada, se aos povos indígenas aí existentes é arrancada a
condição de sobrevivência?
3) Alguns
especialistas apontaram que apesar de Belo Monte ter um
custo elevadíssimo, ela será a Usina menos produtiva do
Brasil, e deve funcionar com apenas 40% da capacidade.
Apesar dessas críticas, o Governo persiste em considerar
Belo Monte imprescindível para o desenvolvimento do Brasil.
Na sua avaliação, porque há esta insistência?
Dom Erwin:
São dois fatores que causam essa insistência.
Um é de ordem política o que o Governo se nega a admitir.
Mas quem não sabe que Belo Monte é a menina dos olhos do PAC
1? Se o Governo levar uma derrota, põe em risco, no entender
da cúpula do PT e do presidente, a eleição da Dilma Rousseff
que, como então ministra de Minas e Energia concebeu esse
plano e o deu à luz. Num contexto como esse não há mais
clima para uma discussão serena. E o próprio presidente
avisa: tem que ser feito, mesmo que seja "de qualquer
jeito", até "sozinho se for necessário". Assim ele não tem
como negar que a questão tem conotação política, pois Lula
mesmo o revela, quando diz com todas as letras: "As usinas
de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio são coisas que nossos
adversários torcem para não dar certo"[5].
Assuntos e decisões tão importantes e de consequências
irreversíveis para a Amazônia, o Brasil e o planeta Terra,
são banalizados ao nível de queda de braço
político-partidário e ainda eleitoreiro, ou então à briga
entre a torcida de um time e outro. Até que ponto chegamos?
O
segundo fator é "econômico" e esse abarca o maior número de
mentiras, pois desde o início se quis vender o projeto como
medida necessária para evitar o "apagão". Fala-se de energia
barata para as casas dos pobres. Mera demagogia! Na
realidade a quem interessa Belo Monte são as grandes
empresas, especialmente do setor mineral e, naturalmente, as
firmas barrageiras que mais uma vez querem auferir somas
astronômicas e empregar seu maquinário e "know how" num
modelo tradicional de construção de hidrelétrica com
barramentos, imensos paredões de cimento, diques e canais de
derivação, repetindo os erros do passado, alagando áreas
imensas e arrasando florestas.
4) Algumas
pessoas defendem uma discussão em torno da busca de energias
alternativas: energia solar, por exemplo. O senhor acredita
que esta é uma tendência global e que o Brasil poderia sim
pensar em investir mais neste tipo de alternativa?
Dom Erwin:
O Brasil está perdendo uma enorme chance de inovar. Nessa
época de preocupação mundial em relação ao aquecimento
climático em um ritmo nunca visto, o Brasil poderia dar ao
mundo um eloquente exemplo de cuidado mais esmerado com o
meio-ambiente e, ao mesmo tempo, de avanço na busca de
fontes alternativas de energia, como a energia solar e
eólica. Não nos faltam universidades, centros de pesquisa, e
cientistas de ponta na busca de tais alternativas. Falta
incentivo para tal. É mais fácil gritar "o país precisa
de Belo Monte" do que investir em estudos mais
aprofundados que a médio prazo chegariam sem dúvida a
conclusão de que não precisamos de nenhuma hidrelétrica Belo
Monte, pois nesta Amazônia tropical temos energia solar de
sobra, e não temos necessidade de alagar nem sequer um campo
de futebol, de sacrificar um rio e acabar com uma
encantadora paisagem.
5) O
senhor levou esta questão para a Ad Limina?
Dom Erwin:
Sim, levamos! Digo "levamos", pois não fui
apenas eu quem apresentou a preocupação pelo futuro da
Amazônia, mas estivemos lá todos os bispos do Regional Norte
II da CNBB e assim o assunto pertencia a todos. Havia dois
momentos de tratarmos das hidrelétricas na Amazônia. O
primeiro foi a Coletiva de Imprensa, promovida pela Radio
Vaticano no dia 15 de abril, em que falamos abertamente
sobre os projetos de hidrelétricas nos rios Xingu e Tapajós
e suas consequências imprevisíveis. O segundo momento foi a
audiência particular com o Papa. Dom Esmeraldo de Santarém
encontrou-se com o Papa pessoalmente naquele mesmo dia 15 de
abril e o Papa pediu-lhe que deixasse algo por escrito a
respeito das ameaças ao Rio Tapajós. Eu mesmo fui recebido
pelo Papa no dia 16 de abril, dia de seu aniversário
natalício, e "peguei o gancho" deixado por Dom Esmeraldo e
expliquei ao Papa toda a problemática que Belo Monte irá
trazer para os povos do Xingu, se o projeto realmente for
executado. Aproveitei para entregar-lhe em mãos o texto que
eu tinha preparado para a Coletiva de Imprensa. Posso
revelar que a nossa angústia a respeito do futuro da
Amazônia e, de modo especial, dos nossos rios Tapajós e
Xingu tocaram o Papa profundamente.
6) Nos
últimos meses muitas ações foram feitas para tentar impedir
que Belo Monte se torne uma realidade, além de protestos o
senhor chegou a escrever uma carta e se encontrar com o
próprio Presidente Lula, agora o que o senhor pretende
fazer, quais serão as próximas ações?
Dom Erwin:
Na realidade não se trata de novas ações ou outras cartas ao
Presidente. Vou simplesmente continuar a defender, em todas
as ocasiões que se apresentam, os povos do Xingu, os povos
indígenas, os ribeirinhos e o povo de Altamira que será
tremendamente atingido, se Belo Monte tornar-se realidade.
Enquanto Deus me der fôlego não deixarei de empenhar-me, de
modo especial em favor dos mais prejudicados e necessitados.
Quero repetir sempre com Dom Oscar Romero: "Como pastor,
estou obrigado por mandato divino de dar a vida por aqueles
que amo".
7) Para
finalizar gostaria que o senhor falasse um pouco sobre a
importância da presença da Igreja nessa discussão, e também
do cidadão comum, o senhor acha que todos deveriam se
posicionar sobre o assunto?
Dom Erwin:
Quero apenas citar um trecho do Documento de Aparecida que
lembra a visita do Papa ao Brasil em 2007:
"Em
seu discurso aos jovens, no Estádio do Pacaembu, em São
Paulo, o Papa Bento XVI chamou a atenção sobre a “devastação
ambiental da Amazônia e as ameaças à dignidade humana de
seus povos” e pediu aos jovens “um maior compromisso nos
mais diversos espaços de ação”" (DAp 85).
Estou convicto de que não apenas nossa juventude é
interpelada a assumir esse "maior compromisso", mas todos
nós. A faixa etária não importa.
No
Símbolo Apostólico professamos: "Creio em Deus, Pai
Todo-poderoso, Criador do céu e da terra". A fé no Pai
Criador implica no amor e no zelo por tudo que Ele criou e
na responsabilidade a ser assumida pelo lar (ecologia = do
grego: "ciência do lar") que Ele nos confiou, também em
vista das futuras gerações.
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