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03.11.2008
Brasil e Paraguai
conseguem avançar nas negociações sobre o acordo de Itaipu
Pontos mais polêmicos, como a
negociação da dívida paraguaia
e estabelecimento de preços
mais justos, ainda serão discutidos
Dafne Melo, Brasil de Fato
As
comissões formadas pelos governos do Brasil e Paraguai
realizaram outra reunião no dia 27 de outubro, dando
continuidade às negociações acerca do Tratado de Itaipu. Em
coletiva de imprensa realizada após o fim do encontro, os
representantes afirmaram que houve avanço em três pautas: a
co-gestão, a construção de obras previstas no acordo inicial
e o estabelecimento de mecanismos de auditorias bilaterais.
Nos outros
três pontos, considerados os mais importantes, as
negociações ainda estão abertas; a saber: a negociação de
dívida paraguaia decorrente às transações financeiras da
usina, um reajuste no preço que o Brasil paga hoje pela
energia exportada pelo país vizinho e o direito do Paraguai
de ter livre disponibilidade sobre os 50% da energia a que
tem direito. Hoje, na prática, o país é obrigado a vender
todo excedente ao Brasil, a preços que o governo do país
vizinho atesta serem muito baixos.
Dentro de
um mês, uma nova reunião deve ser feita entre as comissões
para discutir esses itens. A idéia é que isso ocorra antes
da visita de Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente
Fernando Lugo, em meados de dezembro.
Disputa
O tema das
renegociações do Tratado de Itaipu é uma das prioridades do
atual presidente Lugo, empossado no dia 15 de agosto,
quebrando a hegemonia de 61 anos do Partido Colorado no
poder. Este nunca questionou o Tratado, comportamento
esperado já que foi ele mesmo que ajudou a elaborar o
acordo, ratificando-o em 1973. Para o governo Lugo,
movimentos sociais e entidades da sociedade civil, o acordo
é lesivo à soberania paraguaia e ilegítimo, pois feito em um
período ditatorial.
Hoje,
entretanto, o tema tem se mostrado capaz de unir setores
sociais antagônicos no país. E é por meio dessa pressão
popular que Lugo, ao menos pelo que vem demonstrando,
pretende ser firme e exigir do Brasil acordos justos. Por
enquanto, ainda que cedendo em alguns pontos, os brasileiros
não têm se mostrado muito abertos a negociar acerca dos
temas mais cruciais.
O
engenheiro Ricardo Canese declarou ao jornal La Nación
que “o tema da disponibilidade livre de nossa energia e ter
a possibilidade de vender a outros países não agrada em nada
os brasileiros”.
Nova
rodada
No próximo
encontro, as duas subcomissões criadas em uma primeira
reunião no dia 17 de setembro, que cuidam dos temas
auditoria da dívida e livre disponibilidade – e que já
apresentaram estudos na reunião do dia 27 – voltarão a
tratar do tema, bem como ouvir um posicionamento brasileiro,
embora houvesse uma expectativa de que isso já ocorresse
nessa última rodada.
O governo
paraguaio, ainda que não tenha defendido oficialmente, não
descarta a idéia de trabalhar com prazos. O diretor
paraguaio de Itaipú, Carlos Mateo Balmelli, declarou que “o
pior que pode ocorrer em um processo de negociação tão amplo
e controverso como o de Itaipu é colocar prazos”. O
chanceler Alejandro Hamed Franco acrescentou que, se datas
forem estabelecidas, isso será feito em comum acordo entre
as partes. “São os negociadores que determinarão os prazos”.
Quais
são as seis reivindicações paraguaias:
1.
Preço Justo:
uma ata de 1966, incorporada ao Tratado de Itaipu de 1973,
afirma que, se um dos países não usasse os 50% de energia a
que tem direito, o outro teria direito preferencial, desde
que fosse pago um preço justo por ela. O Paraguai afirma que
o Brasil paga um valor baixo pela energia, inferior às
praticadas no mercado internacional.
2.
Livre disponibilidade:
como, de
acordo com o governo paraguaio, o Brasil não paga um preço
justo, o Paraguai poderia tentar vender seu excedente de
energia a outros países, como a Argentina. Mas, na prática,
o Brasil impõe a compra de toda energia não utilizada a
preços irrisórios. Por isso, o Paraguai exige a livre
disponibilidade sobre a energia a que tem direito.
3.
Revisão da dívida:
a regra que rege Itaipu estipula que os dois países que
consomem a energia paguem por ela um valor equivalente aos
custos operacionais e financeiros. 65% desse custo está
ligado ao pagamento da dívida de construção das obras. O
Paraguai, mesmo vendendo quase 45% da sua parte, acaba
acumulando dívida com a Eletrobrás. A maior parte da dívida
externa paraguaia está relacionada à Itaipu.
4.
Co-gestão da usina:
os
principais diretores de Itaipu são brasileiros indicados
pelo governo. Os paraguaios exigem a participação na gestão
da empresa, conforme as regras que estabelecem a
binacionalidade do empreendimento.
5.
Mecanismos de auditoria bilaterais:
A
binacionalidade tem servido de desculpa para que a usina não
submeta suas gestões administrativa e financeira aos órgãos
de controladoria nem ao Paraguai, nem ao Brasil. O governo
do país vizinho defende que, se a empresa é bi-estatal, deve
estar subordinada ao controle das duas partes.
6.
Finalização de obras:
são
exigidas a construção de duas obras previstas desde o
início. Uma subestação na margem direita (lado paraguaio)
que permitiria ao país produzir mais energia.
A outra diz respeito à navegabilidade no rio
Paraná. |