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03.12.2009
Foco de investimentos não
mudará, aponta presidente do BNDES
Em audiência com comunidades
afetadas por projetos financiados pelo BNDES, o presidente
do banco,
Luciano Coutinho, afirmou que
medidas de mitigação estão sendo discutidas,
mas se esquivou de cobranças
por redirecionamento
Por Verena Glass
Representantes de comunidades e populações atingidas por
empreendimentos financiados pelo Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se reuniram esta
semana com o intuito de pressionar por mudanças na
conduta do principal banco estatal brasileiro de
fomento. Após três dias na capital fluminense para o
encontro organizado pela Plataforma BNDES - rede de mais de
30 organizações e movimentos sociais que acompanha os
impactos da atuação do banco, eles ouviram do presidente do
banco, Luciano Coutinho, apenas uma promessa de "reiterar o
compromisso de levar a sério o documento [elaborado pelos
participantes]".
Na
audiência entre as partes realizada nesta quarta-feira (25),
Luciano Coutinho não deu abertura para as demandas de
reorientação política e econômica sugeridas pela sociedade
civil. Segundo o presidente do BNDES, a instituição tem
desempenhado um papel fundamental no setor produtivo -
muitas vezes evitando que empresas quebrem, o que, segundo
ele, "seria pior". De acordo com ele, o banco tem atuado nos
setores sociais e ambientais dos projetos onde tem
participação societária e tem financiado apenas projetos com
licenciamento ambiental. Advertiu ainda que "se a empresa
omite ou distorce [dados sobre os impactos], isso é um
problema de interlocução entre nós".
A possibilidade de debate sobre a redirecionamento do
crédito e a priorização de investimentos em projetos de
desenvolvimento social em detrimento dos apoios ao setor
macroempresarial parece não encontrar espaço na agenda do
atual presidente do BNDES. De acordo com João Roberto Lopes,
coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e
Econômicas (Ibase), Luciano Coutinho reafirmou total
alinhamento com o atual modelo, desconsiderando a Plataforma
BNDES como interlocutor na medida em esta se baseia na
cobrança de mudanças estruturais e não se contenta com
mitigações.
O encontro
da Plataforma BNDES se concentrou em questões como acesso
maior a informações (disponibilização da totalidade da
carteira de projetos privados, classificação de risco
ambiental dos projetos e critérios de aprovação,
condicionantes socioambientais e cláusulas de suspensão de
contrato), participação e controle (as populações
diretamente impactadas pelos projetos devem ser
consideradas, informadas e consultadas durante a análise dos
projetos de financiamento do Banco), e remodelação da agenda
de desembolsos do banco, atualmente direcionada a grandes
empreendimentos. As demandas vieram acompanhadas de
depoimentos de lideranças indígenas e de agricultores sobre
problemas ambientais, sociais, fundiários e econômicos
gerados pelos projetos apoiados pelo BNDES.
"É difícil
conversar com o senhor, que financiou a nossa desgraça",
desabafou Cleide Passos, ribeirinha atingida pelas obras de
construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Santo Antônio, no
Rio Madeira, em Rondônia, que recebeu R$ 6,1 bilhões do
BNDES. A família de Cleide foi uma das desalojadas pela
obra, e hoje enfrenta grandes dificuldades em função da
impossibilidade de praticar a agricultura de subsistência.
"O senhor está financiando a nossa morte; é a nossa desgraça
que o senhor assinou", acusou a ribeirinha, que não conteve
o choro e teve que sair da sala para se acalmar.
Balanço
João
Roberto Lopes, do Ibase, frisou também a falta de
implementação de medidas acordadas no primeiro encontro do
presidente do Banco com a Plataforma BNDES em 2007. Na
ocasião, o presidente do banco prometera
reexaminar financiamentos do setor de papel e celulose, um
dos mais impactantes do ponto de vista socioambiental.
De acordo
com João Roberto, apesar de um pequeno avanço no quesito
transparência - o BNDES passou a publicar, trimestralmente,
dados sobre os financiamentos ao setor privado referentes
aos últimos 12 meses, mas retira da pagina eletrônica as
informações anteriores a cada nova publicação -, todas as
demais demandas, e principalmente um estreitamento do
diálogo com as entidades da sociedade civil, pouco avançaram
e não apresentam nenhuma realização concreta.
Como
resultado do I Encontro Sulamericano de Populações Afetadas
por Projetos Financiados pelo BNDES, que reuniu cerca de 200
representantes de comunidades atingidas de todo o país, o
coordenador do Ibase apresentou ao presidente do banco a
exigência de que assuma as responsabilidades e
co-responsabilidades pelos problemas causados por obras como
as usinas do Madeira, e projetos de empresas como Aracruz
e Votorantim (papel e celulose), bem como da Vale
(mineração) e dos setores sucroalcooleiro e da pecuária,
recordistas na exploração de mão-de-obra escrava.
Em
resposta às organizações sociais, Luciano Coutinho refutou
a falta de abertura para o diálogo e mencionou as recentes
audiências com ambientalistas e com o Ministério Público
Federal (MPF) para discutir mitigações e compensações dos
impactos causados pelo agronegócio. De acordo com o
presidente do BNDES, o banco está preparando uma série de
manuais para os diversos setores em que atua - guias que
deverão estabelecer protocolos e regras de conformidade para
a observação de direitos sociais e ambientais das
populações.
Uma nova
rodada de negociações foi marcada para meados de dezembro,
quando deverão ser apresentadas as considerações oficiais do
banco de fomento sobre o documento do "I Encontro
Sulamericano de Populações Afetadas por Projetos Financiados
pelo BNDES".
Na
avaliação de Gabriel Strautman , secretário executivo da
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais,
apesar superficialidade e da falta de compromisso que
marcaram o posicionamento de Luciano Coutinho durante a
audiência com os atingidos pelos empreendimentos, "ele ouviu
as nossas considerações com atenção". "Mas o diálogo com o
BNDES só vai avançar com pressão e sob exigência contundente
da sociedade", prevê.
CARTA
DOS ATINGIDOS PELO BNDES
Somos
indígenas, quilombolas, camponeses, ribeirinhos, pescadores,
trabalhadoras e trabalhadores do Brasil, Equador e Bolívia,
reunidos no I Encontro Sul-Americano de Populações
Impactadas por Projetos financiados pelo BNDES.
Somos,
todas e todos, atingidos por estes projetos, sobre os quais
nunca fomos consultados e que são apresentados para nós como
empreendimentos que irão trazer progresso e desenvolvimento
para o Brasil e para América do Sul. São projetos
financiados pelo BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, voltados para o monocultivo de cana de
açúcar e eucalipto, para a produção insustentável de carne,
para a exploração de minério, para a construção de fábricas
de celulose, usinas de produção de agroenergia,
siderúrgicas, hidrelétricas e obras de infraestrutura, como
portos, ferrovias, rodovias, gasodutos e mineriodutos. Estes
têm afetado direta e profundamente nossas vidas, em especial
das mulheres, nos expulsam das nossas terras, destroem e
contaminam nossas riquezas, que são os rios, florestas, o ar
e o mar, dos quais dependemos para viver, afetam nossa saúde
e ampliam de forma permanente a exploração sobre os povos de
nossos países.
Os
investimentos crescentes do BNDES, que apenas em 2009 podem
ultrapassar os R$ 160 bilhões de reais, utilizando recursos
do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Tesouro
Nacional, estão servindo para aumentar os lucros de um grupo
reduzido de algumas dezenas de grandes empresas de capital
nacional e internacional. Enquanto isso, a apropriação por
parte dessas empresas dos nossos territórios, da água, das
florestas e da biodiversidade ameaça não só a segurança
alimentar das nossas comunidades, mas também a soberania
alimentar, mineral e energética dos nossos países. Dessa
forma, os financiamentos promovem uma integração da América
do Sul que se baseia em uma forte concentração do capital,
no controle e na privatização de territórios de uso comum e
na exportação dos bens naturais do nosso continente.
Por
diversas vezes, buscamos as autoridades para protestar
contra o financiamento do BNDES a estes projetos, mas nossos
argumentos são invariavelmente desconsiderados. Na verdade,
o que constatamos é o comprometimento da grande maioria do
Executivo, Legislativo e Judiciário com a defesa destes
projetos, que promovem a constante violação dos nossos
direitos. Enfrentamos cada vez mais dificuldades para a
demarcação de nossas terras indígenas e quilombolas, a
realização da reforma agrária e a obtenção de empregos com
garantia de direitos, no campo e nas cidades. Denunciamos a
verdadeira ofensiva de ameaças, perseguição e criminalização
que estamos sofrendo, que já custou a vida de inúmeros
companheiros e companheiras na luta pela defesa do nosso
território, dos nossos rios, mares e matas.
Nossa
troca de experiência explicita que há um bloco, formado por
grandes empresas multinacionais, o Estado e os grandes meios
de comunicação, que cria, promove e se beneficia dos
projetos que o BNDES financia. O principal argumento do
BNDES para justificar estes financiamentos - a geração de
empregos - é falso. Os projetos financiados destroem
milhares de formas de trabalho nas comunidades impactadas e
os empregos criados pelos financiamentos, além de
insuficientes, aumentam a superexploração do trabalho, o que
inclui muitas vezes a prática do trabalho escravo. As
grandes obras de infraestrutura e a reestruturação dos
processos produtivos, que automatizam e terceirizam a
produção, afetam ainda mais os trabalhadores e as
trabalhadoras. O resultado é um grande contingente de
desempregados e lesionados, com direitos cada vez mais
reduzidos.
Nossa luta
é pela vida e contra a morte que os projetos do BNDES têm
promovido através dos seus financiamentos. Lutamos por uma
inversão da lógica de acumulação capitalista e do lucro,
causadora da crise ambiental, climática, econômica e social
que vivemos, de modo a garantir o respeito à dignidade e à
diversidade dos modos de vida das populações sul-americanas.
Perante
essa situação, nos comprometemos a:
-
Prosseguir em nossa luta em defesa da nossa terra, ar e
água, certos de que esta será a principal ferramenta
para resistirmos aos projetos financiados pelo BNDES.
-
Socializar com nossas comunidades e movimentos e com
todo o povo dos nossos países todas as informações e
denúncias relatadas neste encontro e incentivar o
trabalho de formação nas nossas regiões no Brasil e na
América do Sul sobre o papel do BNDES e dos governos que
promovem o atual modelo, chamado de desenvolvimento, mas
a serviço da acumulação de lucros de grandes empresas
multinacionais.
-
Articular e fortalecer cada vez mais nossas lutas contra
os projetos de barragens, monoculturas, celulose,
agrocombustíveis, agropecuária, mineração,
infraestrutura e siderurgia, buscando fortalecer nossa
resistência.
-
Exigir
do BNDES critérios socioambientais transparentes que não
se restrinjam à legislação ambiental e ao ambientalismo
de mercado, incorporando critérios de equidade que
respeitem a diversidade dos modos de vida e de produção
já existentes nos territórios. Além disso, exigimos o
respeito aos direitos humanos e a aplicação com rigor de
todos os tratados e convenções ratificados por nossos
países.
-
Denunciar as graves conseqüências destes projetos sobre
os povos indígenas nos nossos países, apoiar e
incentivar as suas lutas contra os projetos que destroem
seus territórios, bem como exigir a imediata demarcação
e desintrusão das terras indígenas.
-
Fiscalizar as irregularidades das empresas financiadas
pelo BNDES.
-
Exigir
do BNDES transparência e acesso irrestrito ao conjunto
das informações dos financiamentos.
-
Responsabilizar o BNDES e os governos pelos prejuízos
causados pelos projetos que o Banco financia e exigir a
suspensão do financiamento a empresas que violam
direitos, degradam o meio ambiente e as condições de
trabalho.
-
Fortalecer nossa luta por um projeto popular que possa
gerar perspectivas para todos, e principalmente para a
juventude, para que não abandonem nossos territórios
ameaçados pelos projetos financiados pelo BNDES.
-
Lutar,
em nossos países, por uma forte integração dos povos,
pela economia solidária, pelo respeito aos nossos
direitos, pela garantia da nossa soberania, pelo
bem-estar das comunidades e pela integridade dos nossos
territórios.
-
Exigimos que o BNDES seja um instrumento para fortalecer
este novo projeto de sociedade.
Rio de
Janeiro, 25 de novembro de 2009
Assinam
esta Carta representantes das seguintes organizações:
Actionaid
Brasil
Assembléia Popular
Assoc. de Moradores Sem Casa de Entre Rios de MG
Associação Indígena Tupiniqueira e Guarani ES - AITG
Amigos da Terra - Amazônia Brasileira
Associação de Funcionários do BNB
ATTAC Brasil
Campanha Justiça dos Trilhos
Centro de Apoio Sócio-Ambiental - CASA
Central Única dos Trabalhadores - CUT
Centro de Defesa de Direitos Indígenas - CDDI
Centro de Educação e Documentação para Ação Comunitária -
CEDAC
Comissão Pastoral da Terra - CPT
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura -
CONTAG
Conselho Indigenista Missionário - CIMI
Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica -
COICA
Central Única dos Trabalhadores - CUT
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira - COIAB
Sistema de Cooperativas de Crédito Rural com Integração
Solidária - Cresol
Esplar Centro de Pesquisa e Assessoria
Equipe de Conservação da Amazônia - ACT Brasil
Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na
Agricultura Familiar - FETRAF
Foro Boliviano sobre Medio Ambiente y Desarrollo - Fobomade
Fórum Brasileiro de Economia Solidária - FBES
Fórum Brasileiro de Segurança Alimentar e Nutricional -
FBSAN
Fórum Permanente de Mulheres do RJ
Frente Nacional do Saneamento Ambiental - FNSA
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional -
Fase
Fórum Brasileiro de Economia Solidária - FBES
Fórum Popular e Independente do Madeira
Fórum Permanente de Mulheres
Instituto Brasileiro de Inovações Pró-Sociedade Saudável -
IBISS-CO
Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul - PACS
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas -
Ibase
Instituto de Estudos Socioeconômicos - Inesc
Justiça Global
Movimento dos Atingidos por Barragens -MAB
Movimento dos Pequenos Agricultores - MPA
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra _ MST
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto - MTST
Movimento Nacional de Direitos Humanos _MNDH
Movimento Quilombola
Movimento Xingu Vivo para Sempre
Núcleo Amigos da Terra Brasil
Pastoral da Juventude Rural de ES - PJR
Plataforma Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais
e Ambientais - DESCHA
Rede Alerta contra o Deserto Verde
Rede Brasileira de Justiça Ambiental
Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Rede Brasileira de Teatro de Rua
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
Rede Brasileira pela Integração dos Povos - REBRIP)
Repórter Brasil
Sindicato Matabasi Inconfidentes - Congonhas MG
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Mucuri - BA
Sindicato dos Portuários - Suporte/ES
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