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04.03.2011
Desrespeito com famílias
atingidas pela Barragem do Peão
João Renato Vieira Pinto
secretário da Cáritas Arquidiocesana de Montes Claros
Em
visita realizada às famílias atingidas pela Barragem do
Peão, em São João do Paraíso, no extremo Norte de Minas
Gerais, em fevereiro de 2011, a Cáritas Arquidiocesana de
Montes Claros, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) ouviram
atentamente o clamor do povo e levantaram irregularidades e
descontentamentos dos atingidos e atingidas.
Lá
crianças estão sem acesso à escola. Desde julho de 2010, as
crianças das famílias atingidas não frequentam a escola.
Para essas crianças, o ano letivo de 2010 ficou comprometido
em termos de frequência, uma vez que, por determinação
legal, o estudante deve assistir 75% das aulas no ano para
ser aprovado, além do compromisso de fazer as tarefas
repassadas pelos professores e de tirar notas boas. Caso o
problema não seja resolvido com urgência, o mesmo pode
acontecer em 2011.
Mas não
pense que a dor de cabeça dos reassentados por causa da
Barragem do Peão para por aí. As famílias estão sem acesso à
saúde. Segundo relatos, não existe a mínima assistência
médica no local. Não há presença de médicos e nem sequer de
agentes de saúde. A empreendedora da Barragem do Peão, a
Fundação Rural Mineira (Ruralminas) não realiza as
negociações de praxe. As áreas dos lotes das famílias
indenizadas ou reassentadas estão irregulares quanto à área
coletiva. Esta é usada hoje por terceiros. Dessa forma, as
famílias não têm acesso à área de módulo rural de 65
hectares, conforme acordado com a Ruralminas.
Mais
desacordos
A
Ruralminas também não cumpriu o acordo com as famílias de
preparação de quatro hectares de terra com calcário e
adubos, para cada uma, como também um sistema de irrigação.
Há inviabilidade produtiva nas terras recebidas pelas
famílias atingidas por causa da construção dessa Barragem.
As áreas onde as famílias foram reassentadas apresentam
série de limitações quanto ao potencial produtivo. Mesmo com
recursos técnicos, financeiros e bastante conhecimento
disponíveis, as famílias não têm condições de produzir nem
para a própria subsistência. A doação de cestas básicas por
alguma entidade filantrópica é essencial para a
sobrevivência desse povo.
Houve
enchimento do lago sem equipe de resgate da fauna e da flora
locais. A legislação ambiental exige que, para projetos de
construção de barragem, seja feito com antecedência todo um
estudo do lugar que vai ser alagado. Animais, plantas,
flores nativas e até elementos da cultura popular devem ser
observados e colhidos para ser preservados em locais
indicados para isso.
A
Ruralminas não contratou psicólogos e assistentes sociais
para acompanhar as famílias atingidas pela Barragem do Peão.
O trauma que a construção de uma barragem causa em um(a)
morador(a) tradicional da área alagada é superior ao trauma
causado pelos impactos da mineração no meio ambiente e na
população que vivia isolada na região, sem querer
menosprezar os efeitos de ambas as atividades na vida do
povo. Nas famílias atingidas pela Barragem do Peão, há
muitos idosos(as) que nutriam um valor afetivo e simbólico
pela terra.
Traumas
A Cáritas,
a CPT e o MAB reforçam que as famílias reassentadas sofreram
impacto grande ao sair de suas antigas localidades. Era ali
que elas davam conta de conviver natural e historicamente
com o meio ambiente. Isso trouxe sérios problemas para elas.
Muitas famílias sofrem com alcoolismo, separações, venda dos
lotes, entre outros problemas causados por uma civilização
com mentalidade urbana que só faz o povo sofrer.
As
indenizações não foram quitadas totalmente. Três famílias,
que negociaram posteriormente com relação às demais, não
receberam a totalidade do valor acordado. E falta o que
mais? Famílias ainda vivem isoladas das demais.
Recentemente, ocorreu falta dos produtos destinados ao
tratamento da água utilizada pelas famílias, no caso, da
estação de tratamento de água, implantada para as famílias
reassentadas.
Agora
imagine você que quem mora perto de uma barragem não tem
acesso à energia elétrica ou possui um acesso bastante
precário. As contas de luz de alguns atingidos já vieram com
valores bastante elevados. As pessoas que sofrem com os
impactos da Barragem do Peão são pobres e desconhecem a
atual forma de viver da sociedade dita moderna. As famílias
tiveram contas de luz cortadas. Adivinha por qual motivo?
Sem dinheiro pra pagar a tarifa, sem luz. Além disso, há
precariedade no acesso ao título de terra dos lotes
conquistados pelas famílias.
O outro
lado
Em
virtude desses problemas, o presidente da Ruralminas, Luiz
Afonso Vaz de Oliveira, solicitou reunião com os
representantes da Cáritas, da CPT e do MAB. Participaram
também do encontro lideranças dos Sindicatos dos
Trabalhadores Rurais de São João do Paraíso e de Indaiabira,
e da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de
Minas Gerais (Fetaemg). O prefeito de São João do Paraíso,
Manoel Andrade Capuchinho, foi outra liderança que
compareceu a esta reunião para discutir sobre a situação dos
atingidos pela Barragem de Peão. A reunião aconteceu na
última segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011.
O
presidente da Ruralminas argumentou que deseja resolver os
problemas dos atingidos pela Barragem do Peão e atender as
suas reivindicações no que diz respeito aos seus direitos,
tais como acesso à água, à titularização da terra, à
correção da acidez do solo e ao pagamento da conta de
energia elétrica até a primeira colheita e venda dos
produtos. As famílias já recebem cestas básicas e visita de
uma assistente social.
O prefeito
de São João do Paraíso assumiu o compromisso de construir
uma escola no assentamento, em tempo integral, além de um
posto de saúde. Comprometeu-se a designar o acompanhamento
de profissionais, como agentes de saúde, médicos,
psicólogos, à comunidade. A presença do Conselho Tutelar no
local também foi prometida pelo prefeito. |