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04.08.2009
As contradições do campo
Fonte: CPT
– Paraná
Enquanto 43% das terras
brasileiras são ocupadas pelos latifúndios, 70% da produção
de alimentos são de responsabilidade dos agricultores
camponeses
“É
fundamental que façamos este debate. Uma estratégia pautada
na soberania alimentar, além de assegurar alimentos à
população em situações de crise, é uma política altamente
inclusiva.” A fala é da professora adjunta do Departamento
de Geociências da Universidade Estadual de Londrina (UEL),
Eliane Tomiasi Paulino, ao afirmar a importância de discutir
as reais consequências geradas a partir do modelo de
agricultura comercial adotado no Brasil. Resultados que
serão abordados durante a 24ª Romaria da Terra do Paraná,
que ocorre no próximo dia 16 de agosto, em Marilândia do
Sul, região norte do estado.
Para
Paulino não podemos retribuir o atual modelo somente ao
processo de colonização. Segundo ela, instaurado o regime de
propriedade privada no Brasil com a Lei de Terras de 1850,
este modelo de agricultura, regulado na concentração, foi
reafirmado. “O que tínhamos antes da Revolução Verde era uma
grande concentração de mão-de-obra humana e animal nas
lavouras, principalmente nas plantações de café. É o que
chamamos de acesso precário às terras. Os camponeses não
eram proprietários de terra, mas trabalhavam nela”,
explicou.
Foi a
partir da década de 1960 que o campo brasileiro passou,
segundo Paulino, pela chamada modernização conservadora que
tem como pilar modernizar os grandes latifúndios em busca de
qualidade e alta produtividade. Tudo isso acompanhado pela
adubação química e mecanização, tendo como foco a
exportação. É chegada a Revolução Verde, onde a mão-de-obra
do camponês foi substituída pelo uso das máquinas.
“Estima-se que entre os anos de 1970 e 1980 cerca de 30
milhões de brasileiros foram despejados nos centros
urbanos.”
É neste
contexto que há o inchaço das populações urbanas e, conforme
Paulino, os impactos são generalizados, pois, segundo ela, a
concentração de terras impede a geração de renda. “As
pessoas são expulsas do campo, vão para cidade e engrossam a
massa industrial. Quanto maior a oferta, menor o valor.
Resultado: salários baixos, favelas, violência. A cidade é a
cara do agricultor e ela não o inclui pelo trabalho. Afinal,
quem fica satisfeito e amistoso quando não se tem onde morar
e o que comer? As pessoas urbanas só se relacionam com o
campo quando vão ao mercado e percebem que o preço dos
alimentos está mais caro”, analisou a professora que ainda
afirmou que este processo ainda não acabou. Para ela o
modelo da agricultura brasileira vai desempregar cada vez
mais. “E os centros urbanos não suportam mais esta demanda”,
alertou.
Segundo
Eliane Tomiasi Paulino, este modelo que conhecemos hoje como
agronegócio é extremamente sedutor pelas facilidades que
proporciona nos manejos agrícolas. Já a produção pautada na
Agroecologia, por exemplo, exige uma imensa quantidade de
processos artesanais, o que desestimula os pequenos
agricultores. A professora acredita que esta é uma
competição desleal, mas que a aplicabilidade da Agroecologia
em busca da Soberania Alimentar não é impossível, contudo
exige uma reconstrução do modelo agrícola. “Não existe nada
na sociedade que realmente estimule o processo orgânico”,
observou.
“Nem a
modernização e nem o dinheiro fez o agronegócio produzir”
Atualmente
o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking dos maiores
exportadores de alimentos do mundo. É com esta imagem,
reafirmada constantemente na mídia, que o agronegócio foi
socialmente legitimado como o sustentador da economia
nacional. Todavia, conforme dados de 2007 do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a agropecuária
contribuiu com apenas 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro. Já a indústria colaborou com 29,8% e o setor de
serviços com 63,7%. Não bastasse, o Brasil perde para a
Holanda que ocupa o segundo lugar em exportações de
alimentos no mundo. Vale lembrar que o território da Holanda
é menor do que o estado de Sergipe.
Além
disso, de acordo com dados do último censo agropecuário
brasileiro publicado (referente aos anos de 1995 e 1996),
informados a reportagem pela professora, a agricultura
camponesa é responsável por 70% da produção de alimentos no
país.
Segundo as
amostragens apenas 21,8% do rebanho bovino encontra-se nos
grandes estabelecimentos, 37,7% está nos pequenos
estabelecimentos. Na produção do arroz, os grandes
contribuem com 18,4%, enquanto os pequenos com 38,9%. No
caso do feijão a diferença é enorme, os pequenos são
responsáveis por 78,5% da produção nacional, já os grandes
estabelecimentos produzem apenas 4,6%.
Esta
discrepância também ocorre com o milho (54,4% produzidos por
pequenos e 10,8% pelos grandes) e com o trigo (60,6%
produzidos pelos pequenos e 4,2% pelos grandes
estabelecimentos). O soja, símbolo do agronegócio, também
tem sua produção concentrada nos pequenos estabelecimentos.
Enquanto os grandes produzem 21,9%, os pequenos são
responsáveis por 34,4% da produção nacional.
Além de
apresentarem grandes diferenças na produção, estes
estabelecimentos também se divergem em geração de renda.
Enquanto os pequenos respondem por 86,6% de todos os
empregos e ocupações no campo, os grandes geram apenas 2,5%
deles. “Não podemos esquecer que 43,7% das terras do país
são ocupadas por apenas 50 mil estabelecimentos (0,9%) com
mais de um mil hectares e que três milhões de propriedade
com até dez hectares (52,9%) ocupam apenas 2,7% da área
total do país”, ressaltou.
Eliane
Tomiasi Paulino também salientou que com a reafirmação do
agronegócio, cada vez mais perdemos políticas voltadas em
busca da soberania alimentar, mesmo à frente de inúmeros
problemas causados pelo atual modelo agrícola. Um exemplo
citado pela professora foram os recentes pacotes agrícolas,
referentes ao plano safra 2009/10, lançados pelo governo
federal em que R$ 93 bilhões serão disponibilizados para
financiar a safra agrícola comercial, enquanto R$ 15 bilhões
serão destinados a agricultura familiar.
Soberania
alimentar: uma lógica simples e inclusiva
A
professora da Universidade Estadual de Londrina, Eliane
Tomiasi Paulino, acredita que este processo de modernização
conservadora que acarretou inúmeros problemas sociais e
ambientais para o país e para o mundo, tem volta. Basta
inverter a lógica do estado brasileiro. “É só inverter os
pacotes agrícolas. Investe R$ 15 bilhões na agricultura
comercial e R$ 93 bilhões na familiar. Este já seria um
grande passo”, sugeriu Paulino que ainda ressaltou a
importância da reforma agrária para a concretização deste
processo.
Para a
professora a soberania alimentar é a política mais
estratégica para a geração de renda, além de ser altamente
inclusiva. “Ela mantém os camponeses no campo. Isso gera
mais produção. São mais pessoas produzindo. Mais renda para
movimentar o comércio da região. É uma lógica simples”,
argumentou Eliane que ainda lembrou que esta é política
agrícola adotada na maioria das sociedades mais
desenvolvidas do mundo, como os países da Europa.
Ela também
ressaltou que a participação da igreja neste debate é
fundamental, pois, de acordo com ela, esta instituição tem
forte penetração na sociedade em geral. "Este debate é mais
eficaz quando é realizado no plano religioso do que a mídia,
pois a igreja tem maior confiabilidade perante a população".
A professora acredita que estes momentos, como as romarias
da Terra, representam um engajamento coletivo necessário
para buscar mudanças. "Só haverá mudança se houver
mobilizações coletivas permanentes". |