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05.11.2009
Pague a conta e apague a
luz
Fonte: Radioagência NP,
Desirèe Luíse
A Aneel
admitiu conhecer desde 2007 o erro no reajuste da conta de
luz do brasileiro. Os brasileiros pagam pelo menos R$ 1
bilhão a mais por ano do que deveriam nas contas de luz.
Segundo o TCU (Tribunal de Contas da União), um erro no
cálculo do reajuste tarifário da energia elétrica vem
causando o prejuízo aos consumidores. A Aneel (Agência
Nacional de Energia Elétrica) – responsável por gerenciar e
fiscalizar o setor de energia - admitiu ter percebido a
falha no método do cálculo em 2007.
O problema
acontece todo ano quando a Aneel define qual será a fatia
cobrada do consumidor na conta. A falha ocorre porque o
modelo de reajuste se baseia na demanda do ano anterior,
desprezando o crescimento do número de consumidores. Por
isso, se o valor das contas deveria ser distribuído entre
mais consumidores, o custo de cada brasileiro seria
diminuído.
Em
entrevista à Radioagência NP, o ex-diretor de Gás e Energia
da Petrobras e um dos principais estudiosos do setor de
energia, Ildo Sauer, avaliou que a situação não é recente. O
especialista afirma que a falha ocorre desde o início das
privatizações.
Radioagência NP: O que o senhor pode dizer
sobre o método de reajuste tarifário que, segundo o TCU,
prejudica os consumidores desde 2002?
Ildo
Sauer: A questão talvez seja um pouquinho mais grave do
que tem sido apurado pela imprensa e anunciado pelo TCU e
Aneel. Não é de 2002 para cá. Esse problema vem de antes. Na
verdade, o problema está situado no critério de reajuste
tarifário embutido nos contratos de concessão. Esses
contratos foram assinados com o processo de privatização das
empresas de distribuição de energia elétrica no Brasil a
partir dos anos 90, mas com ênfase a partir do governo de
Fernando Henrique Cardoso.
RNP:
Como você avalia a posição da Aneel em dizer que não tem um
mecanismo para interromper a falha?
IS:
Não é verdade. A impressão que eu tenho é que o grande Jesus
Cristo, o grande crucificado, é o povo brasileiro que paga
tarifas elevadas. Só que o povo está sendo crucificado há
muito tempo. Esta falha já foi verificada pela Aneel e pelo
TCU e está havendo um jogo de empurra-empurra. Por quê? Quem
elaborou o contrato com este erro que não traduz
corretamente o que diz a lei - portanto esse contrato é
nulo, ele tem que ser anulado na Justiça, essa é a única
solução -, quem fez esse erro inicial foi a Aneel, mas ela
não fez sozinha. Então, todos esses 63 contratos das 63
empresas que distribuem energia no Brasil foram criados e
aprovados pela diretoria da Aneel, mas [também] foram
verificados, homologados e aprovados pelo TCU.
RNP: Afinal, quem poderia resolver a questão?
IS:
O problema real é político e quem tem a autoridade de
decidir isso é o governo, é a Casa Civil e o Ministério de
Minas e Energia, que são os que conduzem a política
energética. Calcula-se que de R$ 1 bilhão a quase R$ 2
bilhões por ano, depende de quando começou o contrato de
concessão no Brasil inteiro, vem afetando [as contas] das
pessoas. Portanto, já são mais de R$ 10 bilhões que o povo
brasileiro pagou a mais. O problema é que a Aneel não quer
corrigir para não assumir [o erro], o TCU também não quer. O
problema precisa ser resolvido mediante uma retificação dos
contratos.
RNP: O governo sugeriu que a Aneel publicasse
uma resolução com critérios para corrigir o erro nas
cobranças apenas a partir de agora, ignorando o erro
passado. Qual é sua avaliação?
IS:
Isso é legalizar o esbulho de que a população brasileira foi
vítima. O povo pagou mais do que devia por um erro de
agentes públicos. O correto é refazer as contas, obrigar as
distribuidoras a verificar - e isso está no registro delas -
o quanto cada um consumiu, qual era a tarifa certa, quanto
foi cobrado a mais e devolver. Há registros para isso. Não
há problema nenhum, isso pode ser feito. Isso apenas vai "desengordar"
os enormes lucros que essas empresas tiveram ao longo dos
anos.
RNP: A CPI da Energia Elétrica, criada para
investigar as tarifas de energia no país, deve encerrar suas
atividades aproximadamente daqui a um mês. O senhor
participou da Comissão em duas ocasiões. Algo de proveitoso
vai resultar dessa CPI?
IS:
Um deles é este assunto do reajuste incorreto anual das
tarifas, que foi trazido a público por causa da CPI. [A
Comissão] encontrou coisas importantes, mas muitas outras
que foram lá apresentadas serão varridas para debaixo do
tapete. Haveria outros problemas que poderiam ser revelados
se [a CPI] tivesse ganhado mais apoio dentro do Congresso.
RNP: O senhor já declarou que considera o
setor elétrico no país uma caixa preta. Por quê?
IS:
Por exemplo, eu estou tentando remontar a contabilidade
destes reajustes todos e também da quantidade de energia que
foi desviada para o mercado livre [aquele que recebe acima
de 69 mil volts de tensão e mais de três mil kW de média de
carga tem o direito de "ser livre", isto é, apenas pagar o
aluguel do fio para a distribuidora e comprar energia gerada
de quem preferir, inclusive das estatais que vendem energia
a preços bem abaixo do mercado]. energia firme de custo
elevado foi vendida por 20% do seu custo. Queria saber a
quantidade de energia e quem se beneficiou dela. Há uma
sequência de transações que são obscurecidas, porque são
registradas como se fossem transações privadas. Não
beneficia apenas cerca de 600 grandes consumidores, mas
cerca de duas dúzias de empresas intermediadoras,
comercializadoras, escolhidas sob o manto do sigilo
comercial. É lamentável. |