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06.10.2008
Licença Ambiental “delivery”
Telma Delgado Monteiro
Apesar de já ter sido
considerado “imbarrável” pelo Ibama, o rio Araguaia é hoje
objeto de entendimentos entre o Ministério de Minas e
Energia (MME) e o do Meio Ambiente (MMA). E para evitar os
“entraves ambientais” nos projetos de duas hidrelétricas,
Santa Isabel e Couto Magalhães, terá um tratamento especial.
Os
entendimentos entre esses ministérios vão beneficiar a
concessão da Hidrelétrica Santa Isabel, no rio Araguaia,
dada há sete anos à Vale do Rio Doce. O projeto está sendo
ressuscitado para receber a chancela de um Ibama “mais
pragmático”, conforme expressão do presidente da Empresa de
Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim.
Flexibilizar é a palavra de
ordem no MMA e, no caso do rio Araguaia que esteve a salvo
até agora de aproveitamentos hidrelétricos, ela pode
significar danos ambientais em terras indígenas, destruição
de sítios arqueológicos e perda de cenários deslumbrantes.
O projeto da Hidrelétrica
Santa Isabel, de 2001, volta para ameaçar o incrível
patrimônio arqueológico de cerâmicas, pinturas e gravuras
rupestres. Arqueólogos alertam para o impacto direto em
mais de 100 sítios na região escolhida para ficar submersa.
A ilha dos Martírios, com aproximadamente cinco mil gravuras
rupestres, estaria condenada.
A fronteira energética está
em franca expansão na região do Araguaia, para desespero dos
defensores do cerrado!
Um grande negócio para
quem?
Construir hidrelétricas é um
grande negócio, no Brasil, em que o governo federal e
governos estaduais concedem incentivos fiscais e
facilitam o acesso a fontes de recursos para financiamento
às empreiteiras. Só no Estado do Tocantins estão em
elaboração 31 projetos entre Pequenas Centrais
Hidrelétricas (PCHs) e Usinas Hidrelétricas (UHEs).
Andrade Gutierrez, Camargo
Corrêa e Odebrecht são parceiros da Eletrobrás para
transformar a Amazônia no seu canteiro de obras. E o
governo federal, incentivado pelos empresários do
apocalipse do apagão, propõe mudanças na legislação
ambiental para facilitar a concessão de licenças aos
projetos de hidrelétricas.
Para esse processo de retorno
à ditadura do Brasil grande, os ministérios estão buscando
fórmulas mágicas para “aperfeiçoar” o processo de
licenciamento ambiental e torná-lo mais rápido. Licença
ambiental “delivery” é o novo produto lançado pelo Ministro
Minc.
Os pareceres técnicos do
Ibama, em 2002, atestaram a inviabilidade ambiental dos
projetos das hidrelétricas no rio Araguaia. Para o
presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, vai ser fácil
assinar essas licenças ambientais, experiente que é em
ignorar as recomendações de seus técnicos, como no caso da
Hidrelétrica Santo Antônio, no rio Madeira.
Fala-se em incompatibilidade
entre os interesses do País e os critérios de licenciamento
ambiental. A sociedade precisa rever quais são os
verdadeiros interesses do País. Já se está chamando de
“entraves ambientais” as leis que garantem o direito dos
cidadãos a um meio ambiente equilibrado.
Essa garantia está na
Constituição Federal. |