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06.11.2009
"Belo Monte será uma
repetição de Tucuruí", diz senador José Nery
Fonte: Amazonia.org.br
Aldrey Riechel
Mesmo com
os movimentos sociais da região do Xingu se manifestando
contrários à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte,
no Pará, a sua realização parece estar cada vez mais perto
de ser concretizada. A data do leilão já foi anunciada - 21
de dezembro - e a Fundação Nacional do Índio (Funai)
entregou um parecer favorável ao Estudo e Relatório de
Impactos Ambientais (EIA/RIMA).
A briga
entre o governo, que pretende "enfiar goela abaixo" uma obra
com grandes impactos sociais e ambientais, e movimentos
indígenas, especialistas e ambientalistas está longe de
acabar. As opiniões são completamente divergentes e neste
impasse o Senador José Nery (PSOL/PA) já escolheu o seu
lado: "estou sintonizado com as afirmações, postura e luta
que os movimentos sociais do Xingu têm realizado".
Para Nery
a implantação de um projeto como este não irá atender às
populações e acarretará em prejuízos, como aconteceu com a
usina hidrelétrica de Tucuruí. Segundo o senador, Tucuruí
"deixou um rastro de destruição e desestruturação dos
moradores que habitavam aquela área e que muito deles ainda
hoje não têm sequer energia elétrica em suas casas".
Confira
a entrevista:
Amazônia.org.br - Senador, gostaria de saber sua opinião à
respeito da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Segundo os
movimentos sociais da região, as audiências públicas foram
"mera formalidade", com o objetivo de apenas blindar a usina
de críticas. O senhor concorda com isso?
José
Nery -
Nesta questão eu estou sintonizado com as afirmações,
postura e a luta que os movimentos sociais do Xingu têm
realizado para questionar a implantação da hidrelétrica de
Belo Monte. Quem critica as audiências não são apenas os
movimentos sociais, mas a própria postura adotada pelo
Ministério Público Federal e Ministério Público do Estado ao
não participar da audiência em Belém já é uma demonstração
de que setores mais amplos têm conhecimento da legislação,
que sabe que o projeto da hidrelétrica não seguiu todos os
passos necessários para a obtenção da licença prévia de
instalação. Que trará enormes prejuízos àquelas populações,
inclusive com deslocamentos de quase 20 mil pessoas em
função da formação do lago da hidrelétrica de Belo Monte,
atingindo quilombolas, indígenas, agricultores, ribeirinhos.
E
nós sabemos, por experiência própria no Pará, o que
significou, por exemplo, a construção da usina hidrelétrica
de Tucuruí, que deixou um rastro de destruição e
desestruturação dos moradores que habitavam aquela área e
que muito deles ainda hoje não têm sequer energia elétrica
em suas casas. Muitos não tiveram as indenizações
adequadamente calculadas para serem ressarcidos pelo
prejuízo e, portanto, Belo Monte será um repetição de
Tucuruí, em que a energia produzida servirá para os grandes
grupos econômicos e não para garantir a energia para as
pessoas do Pará e da Amazônia, razão pela qual eu me somo
aos movimentos sociais para questionar a necessidade e a
própria eficiência como apontam o painel de especialistas
que fizeram uma observação crítica do projeto para dizer que
Belo Monte é dispensável
Amazônia.org.br - O senhor concorda com a opinião do bispo
do Xingu, que disse que o governo está passando por cima dos
povos locais para construir a usina?
José
Nery
- Isso acaba sendo uma verdade, porque os responsáveis pela
elaboração do relatório de viabilidade são grandes
empreiteiras que mais uma vez vão se beneficiar do dinheiro
público que serão investidos nessa obra. Uma obra que até
hoje não tem sequer um custo estimado de forma mais
objetiva: fala-se de 10 a 30 bilhões de recursos necessários
para a implantação, ou seja, nem os próprios responsáveis do
projeto sabem ao certo o seu próprio custo. Mas nós sabemos
e de sobra! O custo social, ambiental e econômico, cultural
inclusive para as populações atingidas.
Amazônia.org.br - Existe esse debate dentro do Senado? A
maioria é favorável ao projeto?
José
Nery -
Claro que os mega-projetos no Brasil sempre têm o apoio
favorável da maioria da elite política do país. Mas não
temos aferido aqui. O próprio Senado, no processo de
instalação, deveria ter sido ouvido e não foi. Em geral eu
diria que aqui existe uma maioria favorável a Belo Monte,
mas há também um grupo que questiona a sua necessidade,
especialmente a sua eficácia. Porque a usina terá em apenas
um terço dos meses do ano a possibilidade de funcionar com
sua plena capacidade de operação.
Amazônia.org.br - Já foram levantados diversos problemas
existentes no licenciamento ambiental, e mesmo assim o
governo insiste em levar esse projeto adiante. Como o
senhor acha que o Congresso, onde trabalham os
representantes da população, poderia contribuir?
José
Nery
- Eu estou propondo em requerimento a realização de uma
audiência pública, que será votada na próxima semana. A
proposta é realizar uma audiência pública na comissão de
Direitos Humanos do Senado para examinar o projeto de
construção da usina de Belo Monte sob a ótica dos movimentos
sociais, e também convidar para fazer parte o Ibama
[Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais
Renováveis], que é o responsável pelo licenciamento, e o
governo, que tem grande interesse em viabilizar o projeto.
Pretendemos fazer com que esse debate seja ampliado aqui e
crie na sociedade brasileira, e principalmente na sociedade
paraense, mais elementos para uma avaliação do significado e
dos impactos que este projeto vai produzir para a região do
Xingu e para a região brasileira.
Amazônia.org.br - O senhor acha que existe alguma
possibilidade de que Belo Monte não seja implantada?
José
Nery -
Eu diria que uma questão fundamental nesse enfrentamento é a
possibilidade real que tem os movimentos sociais para fazer
com que as informações e o conhecimento do projeto de Belo
Monte sejam amplamente divulgados, especialmente discutidas
as suas conseqüências.
Há
quase 25 anos os movimentos, com apoio do Ministério Público
e de outras organizações, têm conseguindo resistir e impedir
a construção de Belo Monte, por essa experiência posso
afirmar que se os movimentos conseguirem fazer com que a
sociedade tome conhecimento da situação, isso poderá gerar
um movimento tão expressivo que o governo se verá obrigado,
em vez de atender os interesses dos grandes grupos
econômicos e daqueles que pretendem lucrar muito com a
construção da usina sejam então compelidos, a desistir desse
projeto. E sem dúvida eu creio que o movimento tem meios e
instrumentos para potencializar as suas lutas e finalmente
fazer com que sua vontade soberana seja superior a vontade
do governo e daqueles que de toda forma querem impor à
região esse empreendimento, sem sequer obedecer aos ditares
mais elementares da legislação, que estabelece a necessidade
de estudos mais apurados e mais eficazes para um tipo de
empreendimento como este.
Amazônia.org.br - Durante um evento que aconteceu em São
Paulo a senadora Marina Silva chegou a dizer que não há como
fugir do aproveitamento hidrelétrico do Rio Xingu. Segundo
ela, faz sentido uma hidrelétrica na região.
José
Nery -
Bom, não é isso que pensa a maioria dos movimentos e dos
povos do Xingu e que pensa o painel dos especialistas com
renomados cientistas, pesquisadores dessa questão que têm um
posicionamento muito crítico. Nessa questão, como eu
afirmei, prefiro ficar com os movimentos sociais e com a
ciência comprometida com a reprodução da vida e não com a
reprodução e acumulação de lucros. |