|
06.12.2010
Legislação ambiental foi
distorcida e não mede impacto social, diz vice-procuradora
Veja
vídeo com a opinião do
professor Carlos Vainer (UFRJ) sobre violações de direitos
humanos em barragens
Gilberto Costa
Repórter da Agência Brasil*
Brasília
– Os estudos de Impacto Ambiental e os relatórios de Impacto
no Meio Ambiente, conhecidos pela sigla EIA-Rima, não medem
corretamente os efeitos da construção das barragens. A
avaliação é da vice-procuradora-geral da República, Deborah
Duprat.
Segundo
ela, “foi se esquecendo [nos processos de licenciamento
ambiental] do meio sociocultural”. Duprat assinala que entre
as distorções, “a área de influência direta virou o local do
empreendimento, quando se sabe que o impacto vai muitas
vezes além daquele raio. No final, o que passou a ser o
norte do impacto ambiental foi o meio físico e o resto
girando em torno dele”, afirma.
As
distorções levam os licenciamentos à Justiça, o que pode
atrasar a autorização de construção e funcionamento do
empreendimento. “Essa é uma briga histórica, já chegou ao
Judiciário várias vezes, falta mais compreensão por parte do
governo e por parte das empresas do que é estudo de impacto
ambiental”, diz a procuradora em entrevista à Agência
Brasil. Ela acrescenta que o projeto de construção da Usina
de Belo Monte (PA) “não foge à regra. Isso já está
denunciado”.
Para
Deborah Duprat, há interpretação errada da lei. “A
Constituição é antropocêntrica. O meio ambiente existe em
função do homem. O último destinatário desses estudos é o
homem, e ele não é estudado nunca. A Resolução 001 do Conama
[Conselho Nacional do Meio Ambiente] diz que tem que estudar
meio físico, meio biótico e meio antrópico”, afirma.
A
vice-procuradora participou, na semana passada, da reunião
do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH)
em Campo Grande (MS), na qual foi aprovado o relatório sobre
violações de direitos humanos cometidas durante o processo
de licenciamento e a construção das barragens. O relatório
foi apresentado pelo professor Carlos Bernardo Vainer, do
Instituto de Pesquisa de Planejamento Urbano e Regional da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para
Vainer, o EIA-Rima peca por ser estritamente técnico e
focado apenas na dimensão ecológica. “À medida que os
movimentos sociais começaram a aparecer foram evidenciando
as falências do processo. Nenhum estudo de impacto ambiental
previu que ia haver movimento e contestação. A sociedade é
tratada como fosse meio ambiente. A própria palavra
“atingido” põe a população no polo passivo: é objeto da ação
do outro. É como se fosse peixe, mas peixe não se organiza.
Não há comitê de defesa da ictiologia”, compara.
Segundo o
professor, os problemas de licenciamento permaneceram no
novo modelo para o setor hidrelétrico estabelecido em 2004.
Para ele, o modelo “é uma catástrofe” e “esvazia o
compromisso do empreendedor”, que pode ganhar a licitação de
uma obra da qual não estudou os impactos ambientais.
Vainer
critica a exploração privada das hidrelétricas. “Está se
entregando a água e o potencial hidrelétrico, que são
patrimônios públicos, para empresas privadas construírem com
recursos públicos, sob a proteção do Estado, com mandado de
desapropriação que é publico, sobre territórios imensos. Uma
alienação absoluta do espaço”, avalia.
*O repórter viajou a Campo
Grande a convite do CDDPH//Edição: Graça Adjuto |