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07.10.2009
Trabalhadores de MG e ES
questionam modelo de desenvolvimento
Nos
dias 26 e 27 de setembro aconteceu em Congonhas/MG, o I
Seminário dos Atingidos Gerais. A atividade contou com a
presença de cerca de 100 militantes de movimentos populares
organizados na Via Campesina e de diferentes entidades
comprometidas com o povo. O objetivo do seminário foi
discutir estratégias de ação frente ao ataque das empresas
com o meio ambiente, os rios e as terras na região de Minas
Gerais, Goiás e Espírito Santo.
Leia
abaixo a Carta de Congonhas à sociedade geral:
I Seminário dos Atingidos Gerais pelo modelo
capitalista
Somos em
torno de 100 lideranças reunidas no I Seminário dos
Atingidos Gerais, nos dias 26 e 27 de setembro, na histórica
cidade de Congonhas, vindas dos estados de Minas Gerais e
Espírito Santo; pertencemos a movimentos populares
organizados na Via Campesina e a diferentes entidades
comprometidas com o povo; somos autoridades e intelectuais
identificados com a classe trabalhadora; somos população
ribeirinha, índios, quilombolas, pescadores, estudantes,
professores e tantos mais, urbanos e rurais, prejudicados
pela construção de barragens, pela mineração, pelo plantio
de eucalipto...; somos discriminados, sem acesso a bens
essenciais à vida como a água, a terra, a cultura, a
assistência à saúde, a educação de qualidade e, muitas
vezes, despejados e criminalizados pelo simples fato de ser
empobrecidos ou por reivindicar nossos direitos;
sentimo-nos, por fim, vítimas de um mesmo modelo capitalista
de desenvolvimento e somos, então, atingidos gerais.
O local
escolhido para realização desse Seminário é simbólico e
emblemático, mostrando bem o que vem acontecendo com a
classe trabalhadora em Minas Gerais, no Espírito Santo e no
Brasil. Congonhas, conhecida no mundo inteiro como a cidade
dos profetas, está literalmente encurralada pelas
mineradoras, principalmente a CSN – Companhia Siderúrgica
Nacional, das quais se tornou dependente. Isso tem a mão
suja do estado burguês através do BNDES – que tem repassado
recursos às empresas para, por exemplo, desapropriar e tirar
o trabalhador da terra - e da SEDE – Secretaria de Estado de
Desenvolvimento Econômico, que financiam essas empresas, e
traz conseqüências desastrosas para a população. Entre
todas, muito graves, destacamos dados da Secretaria de Saúde
do Município de Congonhas, mostrando que 100 pessoas
iniciaram tratamento de câncer apenas no ano de 2009, número
sensivelmente alto para uma cidade de 46 mil habitantes.
Devido à gravidade do impacto na saúde da população,
exigimos uma intervenção do Ministério da Saúde no caso.
Essa situação está provavelmente associada à exploração
minerária, intensa e desordenada, e tende a piorar com o
plano de expansão das empresas.
Lembramos
ainda, como exemplo, o caso recente, mas comum em todas as
barragens, da hidrelétrica de Barra da Braúna, construída
pela canadense Brascan; liberada ‘ad referendum’ no dia
09/09 pelo Secretário de Estado do Meio Ambiente, José
Carlos de Carvalho.
Nesses
casos relatados, repudiamos toda prepotência dos governos
burgueses e empresas como Aracruz Celulose, Fíbria, Vale e
tantas outras e defendemos um projeto energético popular,
onde as diferentes fontes de energia sejam usadas não para a
acumulação capitalista, mas para a soberania da classe
trabalhadora.
Nesse
contexto, somos, também, pessoas que acreditam que somente
com a emancipação da consciência das ‘massas’, com luta
unificada e com organização combativa será possível mudar
esse quadro, garantindo que nossas riquezas sejam
trabalhadas de forma sustentável e aliadas,
prioritariamente, ao povo mineiro e brasileiro. Somos
diferentes, viemos de lugares geográficos e espaços
diversos. Mas estamos unidos enquanto vítimas do
capitalismo, na opção de classe e na indignação. E
entendemos que a saída está no desafio da organização, da
unificação, do acreditar em nossos companheiros e
companheiras, da troca de saberes, da ocupação ou disputa
dos vários espaços de decisão e da pressão popular.
Estamos
convencidos: de que os bens naturais precisam estar a
serviço da soberania dos povos e do seu direito de decisão
sobre o melhor uso desses bens; da necessidade de uma
‘reforma agrária’ do nosso subsolo, apropriado por grandes
empresas; da necessidade de uso do conceito de ‘utilidade
pública’ para disponibilizar áreas para produção de
alimentos saudáveis e outros.
Esse
Seminário que se encerra hoje é apenas um passo num processo
mais amplo de aglutinação das forças populares na construção
de um Projeto Popular para o Brasil, ajudando a perceber
que:
É
importante valorizar as diversas lutas que já acontecem e
que já estamos fazendo, continuar o processo de
conscientização e animar o povo valorizando toda e qualquer
conquista;
Temos
diferenças geográficas e de espaços diversos de atuação ou
de militância, porém temos algo muito forte que nos une:
somos vítimas de um mesmo modelo capitalista de
desenvolvimento;
Continuar
mapeando os atingidos, os parceiros e nossos inimigos, bem
como propiciar os meios para a continuação dos debates
através de fóruns permanentes e outros;
Nesse
modelo, não existe saída para a classe trabalhadora e, por
isso, deveremos nos desafiar a ocupar e disputar todos os
espaços do ponto de vista tático para superá-lo;
As
diferentes fontes de energia é fator fundamental nos
processos de acumulação capitalista e, por isso, temos o
desafio de construir um novo projeto energético – ‘energia
para quê e para quem?’ -, que sirva à soberania do povo e a
uma nova forma de organização da sociedade;
Precisamos
aproveitar todos os meios para denunciar nossos inimigos -
mídia e outros, ganhar a simpatia da sociedade e
propagandear nosso pensamento, nossos princípios e nossas
conquistas, convictos de que nós temos o melhor projeto de
sociedade;
Reivindicar uma Audiência Pública com o BNDES em nossa
região;
Isolados
seremos esmagados, por isso deveremos ter um calendário
comum de fortalecimento e acúmulo de forças, aproveitando
cada contradição do sistema imposto, promovendo espaço de
troca de saberes e de pressão popular.
Agradecemos aos que participaram desse evento, aos que lutam
nesse imenso Brasil, aos nossos parceiros e, principalmente,
aos que vêm se despertando para essa tarefa conjunta e
corajosa de assumir a luta concreta rumo à vitória da classe
trabalhadora.
Congonhas, 27 de setembro de 2009 |