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08.07.2010
O acesso à água: entre a
privatização e a solidariedade
Parceria com o Brasil possibilita captação e
armazenamento da água da chuva,
permitindo o acesso à água limpa no país
Thalles Gomes
Haiti
Muitos
são os desafios do povo haitiano na tarefa de reconstrução
do país após o terremoto de 12 de Janeiro de 2010 que
vitimou mais de 300 mil pessoas e desabrigou outras 1,5
milhão. No entanto, uma das demandas mais emergenciais – e
que já dificultava a vida de milhões de haitianos bem antes
do terremoto – é a do acesso à água limpa.
Segundo
dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), um em cada dois
haitianos não tem acesso à água potável. Se somarmos isso ao
fato de que apenas 19% da população têm acesso ao sistema de
saneamento básico, e que esses dados não contabilizam os
danos da catástrofe de 12 de Janeiro, podemos perceber a
gravidade e centralidade da questão da água no panorama
atual do país.
Enquanto
algumas multinacionais propõem como saída para esse dilema a
privatização da água, transformando-a cada vez mais em mera
mercadoria – a Nestlé, por exemplo, colocou em circulação
cerca de 1 milhão de dólares em garrafas de água no país
após o terremoto – há os que buscam outras formas de
solidariedade. Os movimentos sociais que compõem a Via
Campesina Brasil, por exemplo, estão compartindo com os
camponeses haitianos as experiências e técnicas de captação
da água da chuva.
Com
índices pluviométricos anuais que variam de 500mm nas
regiões mais áridas a 2.500mm nas montanhas, o Haiti possui
um média anual de incidência de chuvas semelhantes a algumas
das regiões mais úmidas no Brasil. De fato, não falta água
no Haiti, o que falta é um melhor aproveitamento da que já
existe. Diante disso, a técnica de captação de água da chuva
através de cisternas e seu posterior reaproveitamento tanto
para uso humano como para atividades produtivas
agropecuárias se configura como uma das soluções mais
viáveis para o problema do acesso à água limpa no país.
Uma troca
de experiências nessa área já está em curso há alguns anos
entre movimentos camponeses haitianos e brasileiros. A ida
de técnicos brasileiros ao Haiti e a visita de camponeses e
lideranças haitianas ao Brasil vêm alastrando e divulgando
as diversas técnicas de construção e utilização de
cisternas. Entretanto, após o terremoto de 12 de Janeiro,
tornou-se necessária intensificar e incrementar essa troca.
Por esse
motivo, uma parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento
Social e Combate a Pobreza do Governo da Bahia, a
Coordenação-Geral de Ações Internacionais de Combate à Fome
do Ministério de Relações Exteriores e a Via Campesina
Brasil está proporcionando a entrega de 1.284 cisternas
emergências de polietileno às famílias camponesas haitianas.
Este tipo
de especial de cisterna, com capacidade para armazenar até 8
mil litros de água, por ser feita de material mais flexível
e financeiramente mais acessível é o mais indicado para
atender as necessidades emergenciais dos camponeses e
camponesas haitianos.
Estas
1.284 cisternas desembarcaram em solo haitiano no dia 10 de
Junho de 2010 e, através da ação da Brigada da Via Campesina
Brasil no Haiti e os movimentos camponeses haitianos, já
começaram a ser distribuídas e instaladas em diversas
regiões do país. Comunidades camponesas nos departamentos
Norte, Noroeste, Nordeste, Latibonit, Central, Oeste,
Sudeste, Nippes e Grandanse já receberam as cisternas. O
passo atual é o da formação técnica e política, para que as
comunidades beneficiadas possam não só instalar as cisternas
em suas casas, como também compreender os entraves e
desafios que a problemática do acesso à água enfrenta no
Haiti e no mundo. Esta formação já está em curso, organizada
pelos movimentos camponeses haitianos e a Brigada da Via
Campesina Brasil no Haiti.
As
primeiras cisternas já foram instaladas. A perspectiva é que
para o próximo período 30 mil cisternas sejam enviadas ao
Haiti. Um exemplo concreto de solidariedade entre os povos,
que não precisa nem de armas nem de lucros para se efetivar. |