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11.08.2010
Moradores
criticam consórcio de Jirau por falta de diálogo
Eduardo Sales de Lima,
do enviado a Porto
Velho, Mutum-Paraná e Jaci-Paraná (RO)
As
empresas que produzem energia elétrica para a venda no
“mercado livre” começaram a poder utilizar o mecanismo de
desapropriação por interesse público durante a construção de
usinas hidrelétricas, que desalojam forçadamente as
populações atingidas pelas obras. Isso é o que explica o
advogado do setor de direitos humanos da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), Leandro Scalabrin. O mecanismo teria
começado na era das privatizações do setor elétrico no país,
durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.
Por outro lado, de acordo com
o advogado, não houve nenhuma medida legislativa, no sentido
de definir o conceito legal de população atingida por
barragem, os direitos das populações desalojadas e afetadas
pelas hidrelétricas, ou no sentido de criar um órgão estatal
responsável pela promoção das indenizações. Isso permitiu,
segundo ele, que o poder de realizar todos estes atos
ficasse nas mãos dos investidores, o que se tornou “a
principal causa de violações de direitos humanos na
construção de barragens no Brasil e de impunidade das
empresas”. Tais informações lançam luz aos caminhos que
desembocaram no atual tratamento que a GDF/Suez oferece em
relação às comunidades atingidas pela usina de Jirau, no rio
Madeira.
A 120
quilômetros de Porto Velho (RO) situa-se o distrito de
Mutum-Paraná, que desaparecerá por causa do funcionamento da
hidrelétrica. Desde o dia 14 de junho até o início de julho,
catorze das 118 famílias do distrito se instalaram numa nova
cidade planejada que será chamada de Nova Mutum.
A localidade comportará 1600
residências e equipamentos públicos como escola, posto de
saúde, prédios para administração pública municipal e
estadual e terminal rodoviário. O consórcio de Jirau garante
que os moradores terão uma vida boa. Mas não é o que pensa o
líder comunitário Rovaldo Herculino Batista. “Lá vai ser
pior que aqui, que tem garimpo pelo menos; lá não tem nada
[para trabalhar]”, argumenta o morador de Mutum-Paraná.
Além da casa em Nova Mutum,
que custaria R$ 50 mil, Rovaldo informa que o consórcio
Energia Sustentável, comandado pela empresa franco-belga GFD/Suez,
também pode oferecer uma indenização que chega no máximo a
R$ 35 mil. O agricultor, entretanto, revela que o consórcio
de Jirau assedia os moradores de Mutum-Paraná em meio a uma
forte pressão psicológica. “Eles sempre batem na tecla de
que, se nós ficarmos aqui e não aceitarmos os acordos, não
teremos nem energia, nem saúde e nem educação”, conta.
“Infelizmente, muita gente
aceitou essa micharia e fizeram o acordo”, diz Rovaldo.
Dentre os que não aceitaram está José Silvério Cardoso,
também conhecido como Negão. “Fizeram uma proposta máxima de
R$ 21.900 pela minha casa aqui em Mutum-Paraná e depois
ficou uma dificuldade falar com eles”, destaca Negão, que
terá 21 alqueires inundados pelas águas da barragem de
Jirau. “Eu quero o direito de morar com minha mulher e minha
filha onde eu quiser”, pondera.
Ao lado de Negão, ainda
existem mais 56 famílias dispostas a negociar, mas que não
aceitam os questionáveis termos impostos pelo consórcio.
“Posso até estar pessimista, mas acredito que não vai dar
certo; eu sei de muita gente que já está querendo vender
essa casa em Nova Mutum”, revela Rovaldo.
Entre os dias 13 e 17 de maio,
por sinal, a transnacional GDF-Suez, que terá a concessão da
usina hidrelétrica de Jirau por 35 anos, foi condenada pelo
Tribunal Permanente dos Povos (TPP), em
Madri (Espanha), ao lado de outras empresas que integram a
construção do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira, como o
Banco Banif, de Portugal, e o Banco Santander, da Espanha,
por cometer “graves, claras e persistentes violações dos
princípios, normas, convênios e pactos internacionais que
protegem os direitos civis, políticos, econômicos, sociais,
culturais e ambientais das pessoas”.
(Colaborou
Alisson Cleiton) |