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11.11.2009
Encontro reúne populações
afetadas por projetos financiados pelo BNDES
A
Plataforma BNDES, articulação de mais de trinta
organizações, movimentos e redes da sociedade civil
brasileira, realizará entre os dias 23 e 25 de novembro no
Circo Voador, no Rio de Janeiro, o I Encontro Sul-Americano
de Populações Afetadas pelos Projetos Financiados pelo
BNDES. O encontro pretende, entre outros objetivos, expor os
impactos socioambientais, culturais e econômicos causados
por empreendimentos financiados por um dos maiores bancos de
fomento do mundo - maior até mesmo que o capital somado do
Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) e do estadunidense Eximbank.
A proposta
do encontro, que deve reunir cerca de 200 pessoas de todo o
País, é dar voz às populações diretamente atingidas, seja
através da perda de seus territórios e destruição de modos
de vida tradicionais, da eliminação e precarização de postos
de trabalho, desorganização da produção de alimentos e do
trabalho análogo a escravidão, como também atingidas pelo
desmatamento e degradação de ecossistemas, privatização de
rios e cursos d’água, conflitos agrários e pela exploração
intensiva dos recursos naturais.
Com um
orçamento recorde de R$ 160 bilhões para o ano de 2009, o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
já há alguns anos assumiu um papel central na definição do
modelo de desenvolvimento do Brasil. Ele prioriza largamente
o financiamento de multinacionais brasileiras e estrangeiras
dos setores de etanol, hidroeletricidade, papel e celulose,
mineração e siderurgia, e agropecuária, com elevados custos
socioambientais. Do total desembolsado em 2008, apenas 10%
foram direcionados aos micro e pequenos empreendimentos,
enquanto as grandes empresas, já consolidadas até mesmo no
mercado internacional, receberam 76% dos recursos. A
Plataforma BNDES reivindica que o Banco fomente o
desenvolvimento que não concentre renda, não promova a
exclusão de direitos e contribua para a superação de
desigualdades.
“Está na
hora de expor e cobrar a co-responsabilidade do Banco em
relação a estes impactos. Na verdade, o BNDES é responsável
por um padrão de desenvolvimento centrado na especialização
produtiva em setores intensivos em natureza, só beneficia as
grandes empresas nacionais e multinacionais, com baixa
geração de empregos e com grandes impactos sociais e
ambientais nos territórios”, afirma Luiz Dalla Costa, da
coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB) e da Via Campesina.
Além dos
vultosos financiamentos que concede a um pequeno e
privilegiado grupo de empresas, o BNDES ainda tem
participação acionária em várias destas companhias. No setor
de mineração, por exemplo, é acionista da Vale, o que o
torna responsável direto pelas cerca de duas mil demissões
feitas pela mineradora recentemente. Na pecuária, a BNDES
Participações (BNDESPar) detém 26,9% do capital do
Bertin e 19,4% do capital do JBS Friboi – sendo, portanto,
também co-responsável pelo desmatamento da floresta
amazônica realizado pelos pecuaristas. No setor de etanol, o
BNDES é um dos principais acionistas da Brenco (Companhia
Brasileira de Energia Renovável), que sofre processo por
exploração de trabalhadores em condições análogas à
escravidão; o BNDES financia com um aporte de R$ 13 bilhões
as obras hidrelétricas no Rio Madeira, também flagradas com
trabalho escravo este ano. O Banco atua, igualmente na
internacionalização das empresas destes setores,
particularmente na América do Sul e África.
É preciso
explicitar que, apesar de priorizar os investimentos de
grupos privados, os recursos do BNDES vêm, majoritariamente,
do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Tesouro
Nacional. “Queremos que o BNDES, um banco 100% estatal,
cumpra o papel de um banco 100% público. Não há
justificativa para investir o dinheiro dos trabalhadores em
empresas milionárias, enquanto o Brasil continua sendo um
dos campeões da desigualdade social no mundo. A Plataforma
BNDES demanda que o Banco financie um modelo de
desenvolvimento justo”, declara Gabriel Strautman,
secretário executivo da Rede Brasil sobre Instituições
Financeiras Multilaterais.
Outras
demandas das organizações que compõem a Plataforma são a
adoção de uma política transparente de informação (sobre a
totalidade da carteira de projetos privados, classificação
de risco ambiental dos projetos, critérios de aprovação,
empresas e projetos beneficiados por financiamentos a
investimentos fora do País) e a adoção de critérios sociais
e ambientais na análise e concessão do crédito.
Para
mais informações sobre a Plataforma BNDES:
www.plataformabndes.org.br
Comissão operativa:
Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Federação Nacional
dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Fetraf),
Fórum Boliviano de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Fobomade),
Fórum Brasileiro de Economia Solidária (Fbes), Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Justiça
Global, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB),
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Rede
Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais. |