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13.03.2008
Por que nos
mobilizamos
O
Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) e a Via Campesina
iniciaram, nesta semana, uma jornada de mobilizações para
denunciar a estrutura do modelo energético brasileiro e o preço
elevado da tarifa. Por ocasião do 14 de março, Dia
Internacional de Luta contras as Barragens, dez estados
fizeram atos e ocupações.
Mais do
que denunciar o desrespeito aos direitos dos atingidos, o
movimento pretende mostrar que esses megaempreendimentos (como a
UHE Tijuco Alto e Estreito) não beneficiam a população em geral,
mas sim empresas transnacionais que geram poucos empregos onde
atuam. Portanto, essa luta não é apenas da população atingida
pelos lagos. Todo povo brasileiro é atingido pelas tarifas
caras, pela privatização da água e da energia, pelo dinheiro
público investido nessas obras (via BNDES).
O
Brasil possui 10% do potencial hídrico energético do mundo, só
fica atrás da Rússia (13%) e da China (12%). Considerando a
grande vantagem da hidroeletricidade, do ponto de vista do preço
de custo, porque então o brasileiro paga a 5ª maior tarifa de
energia elétrica do mundo? Com o processo de privatização do
setor elétrico brasileiro, a energia foi transformada numa
grande mercadoria e quem passou a controlá-la foram as grandes
empresas multinacionais. Desde então, a Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel) reajustou as tarifas residenciais em
386,2%, quase o dobro da inflação.
Com a
privatização feita no governo Fernando Henrique Cardoso
(1994-2002), o preço da energia elétrica deixou de ser cobrado
pelo seu custo de produção real (baseado na hidroeletricidade)
para ser determinado pela energia que tem o maior custo de
produção, predominante nos demais países (energia térmica). Ou
seja, o modelo energético brasileiro passou a ser organizado
para permitir que as empresas controladoras da energia, na
maioria transnacionais, pudessem extrair as mais altas taxas de
lucro. Enquanto as empresas lucram, o povo brasileiro paga a
conta.
Durante
a jornada de luta, foram feitos atos ou ocupações em três
barragens (Estreito, Salto Santiago e Machadinho) que tem
participação acionária da multinacional franco-belga
Tractebel Suez, a maior empresa estrangeira de geração de
energia no Brasil, com 13 usinas (6 hidrelétricas e 7
termelétricas), com capacidade instalada para gerar 5.900 MW, 8%
do total do consumo do país. Segundo dados da própria empresa,
divulgados no último dia 11, em 2007, o lucro líquido foi de R$
1,05 bilhão, 6,8% acima do lucro obtido em 2006.
Em
Goiás, onde a Tractebel é dona da barragem de Cana Brava, a
empresa possui apenas 15 funcionários. No entanto, mais de mil
famílias goianas foram expulsas de suas terras tornado-se
sem-terra e sem trabalho. Estas famílias, que estão concentradas
em dois bairros dos mais pobres do município de Minaçú, até hoje
continuam lutando para recuperar o que perderam. Já no Paraná, a
empresa é acionária das usinas de Salto Santiago e Salto Osório,
e possui apenas 85 funcionários,
contrariando a constante
propaganda de geração de empregos nas regiões onde se constroem
barragens.
Com as
ações realizadas nos dez estados durante esta semana, o MAB
denuncia que empresas multinacionais como a Tractebel, devastam
o meio ambiente, desestruturam milhares de famílias e mandam
bilhões de reais para o exterior, cabendo à maioria do povo
brasileiro a miséria e uma das tarifas de energia mais altas do
mundo, sob conivência do Estado, que mantém uma política
energética que privilegia estas multinacionais.
Se não
bastasse, a privatização do setor elétrico trouxe junto o
aumento da violência sobre trabalhadores/as. A ação das milícias
na Hidrelétrica de Estreito revela uma nova prática em curso nas
barrancas dos rios brasileiros. Há poucos meses, milícias com
mesmo estilo assassinaram um trabalhador Sem Terra no estado do
Paraná, na fazenda da Syngenta. O MAB denuncia ações como essas
e exige das autoridades competentes proteção aos trabalhadores
que se mobilizam por uma vida melhor.
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