|
14.03.2011
A caixa-preta da energia
Artigo de
Carlos Vainer
Jornal O Globo
O recente
debate sobre a construção de usinas hidrelétricas na
Amazônia começou a levantar a cortina de silêncio que tem
mantido a opinião pública ignorante acerca das razões e
consequências da política do setor elétrico. Começam a
pairar dúvidas quanto à opção inaugurada com Tucuruí, no
regime militar, pelo nada saudoso ministro de Minas e
Energia Shigeaki Ueki, que começou a fazer da Amazônia uma
fonte de energia para indústrias eletrointensivas
exportadoras (alumínio, sobretudo). Será de fato a
hidreletricidade, como divulgam os arautos do modelo
elétrico brasileiro, uma energia limpa e barata?
Necessitamos de muito mais informação e discussão, como
recentemente voltaram a cobrar Miriam Leitão (O GLOBO) e
Washington Novaes ("Estado de S. Paulo"). Inclusive porque,
como advertiu o procurador da República no Pará, Felício
Ponter Jr, "o setor elétrico no país é uma das maiores
caixas-pretas do governo" (O GLOBO, 8/01/2011).
A
inundação de 5,3 mil km2 de florestas nos próximos dez anos,
a transformação de nossos rios em escadas de lagos
artificiais, a extinção de espécies fluviais de grande valor
nutricional e econômico, tudo isso implica em altos custos,
muitas vezes inestimáveis. Os desastres ambientais, porém,
talvez sejam pequenos se comparados aos desastres sociais
que se abatem sobre as populações afetadas. Estima-se que
foram cerca de um milhão os deslocados por barragens no
país. Nos últimos 50 anos, sofreram com a destruição de suas
vilas, cidades, cemitérios e igrejas. Cultivos e criações
foram inviabilizados. As reparações foram
quase sempre insuficientes para que recomeçassem suas vidas
- isto quando receberam alguma coisa. E um capítulo à parte
deveria ser consagrado à dramática situação a que têm sido
levados grupos indígenas, cujos territórios, meios e modos
de vida são sacrificados no altar de um desenvolvimento que
não lhes reserva qualquer lugar.
Novas
informações são agora colocadas à disposição do público pelo
Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, ligado à
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República,
que vem de aprovar relatório elaborado por Comissão Especial
que examinou denúncias de violações de direitos humanos no
planejamento, implantação e operação de barragens.
As
conclusões do relatório são graves: "Os estudos de caso
permitiram concluir que o padrão vigente de implantação de
barragens tem propiciado de maneira recorrente graves
violações de direitos humanos, cujas consequências acabam
por acentuar as já graves desigualdades sociais,
traduzindo-se em situações de miséria e desestruturação
social, familiar e individual."
Longo e
variado é rol de direitos violados por empreiteiras,
empresas energéticas públicas e privadas e órgãos
governamentais: direito à informação e à participação,
direito à liberdade de reunião, associação e expressão;
direito ao trabalho; direito à moradia adequada; direito à
educação; direito a um ambiente saudável e à saúde; direito
à plena reparação das perdas; direito às práticas e aos
modos de vida tradicionais, assim como ao acesso e
preservação de bens culturais, materiais e imateriais.
Populações indígenas, idosos, mulheres chefes de família,
crianças são os que pagam o preço mais alto.
O CDDPH
vai além do diagnóstico e alinha quase cem recomendações
para reparar a enorme dívida social contraída com as
populações atingidas e prevenir novas violações no futuro.
Uma destas recomendações já foi adotada, com a instituição
do cadastro socioeconômico para identificação, qualificação
e registro público da população atingida por empreendimentos
de geração de energia hidrelétrica (Decreto-lei n o- 7.342,
26/10/2010). É ainda pouco, mas o relatório e o decreto são
passos na direção certa.
Agora há
que exigir do setor elétrico, da Aneel, do MME e do MMA, que
as novas barragens, o novo Plano Decenal de Energia e o
Plano Nacional de Energia incorporem as recomendações do
CDDPH. E que energia e barragens deixem de ser sinônimos de
violações de direitos humanos.
CARLOS
VAINER é professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento
Urbano e Regional, da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. |