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14.09.2009
"Bancada ruralista é
contra a Constituição e não quer novos índices",
afirma ministro Cassel
Fonte: Radioagência NP
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu aos
trabalhadores rurais que atualizaria os índices de
produtividade da terra até o dia dois de setembro. Passada a
data, o presidente ainda não cumpriu com o acordo. Usados
para classificar uma fazenda como produtiva ou improdutiva,
os índices não têm novo prazo definido para serem revisados
– mesmo estando previsto na Constituição Federal que devam
ser atualizados periodicamente. Em entrevista à Radioagência
NP, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel,
ressaltou a importância do reajuste dos índices de
produtividade. Segundo ele, é preciso deixar de lado o velho
embate entre ruralistas e sem-terra, pois os índices
protegem interesses legítimos de todos os brasileiros.
Radioagência NP – Ministro, por que a atualização dos
índices ainda não foi feita? O que impediu?
Guilherme
Cassel – De fato houve uma decisão do presidente da
República de atualizar os índices de produtividade. Essa
decisão foi informada a mim e ao ministro Reinhold [Stephanes],
pois somos nós dois que temos que assinar a portaria que
reajusta os índices. Já assinei essa portaria, já encaminhei
ao Ministério da Agricultura. O ministro Reinhold expressou
que tem dificuldade de natureza política para fazer isso no
momento.
RNP – O
ministro Reinhold Stephanes é contra a revisão dos índices.
Até que ponto isso emperra o processo de atualização?
GC – A lei
8.629 de 1993 determina que a revisão dos índices se dê por
uma Portaria Interministerial assinada pelo ministro do
Desenvolvimento Agrário e pelo ministro da Agricultura. Se o
ministro Reinhold não assinar, isso impede que os índices
sejam reajustados. Agora, acima da minha vontade, da vontade
do ministro Reinhold, tem uma vontade do presidente da
república. Há uma orientação clara do presidente para que os
índices sejam reajustados. Pelo que sei, agora é necessário
convocar o Conselho [Nacional] de Política Agrícola que tem
que ser informado dos índices antes da Portaria.
RNP – A
bancada ruralista está influenciando no atraso do reajuste?
GC – A
reação da bancada ruralista é uma coisa esperada por todos.
Acho que o país inteiro já se acostumou com esse tipo de
reação. Temos que refletir que não é possível que deixemos
de cumprir a Constituição, que se deixe de cumprir uma lei
que está em vigor no grito. Ou que o setor acostumado a
ganhar no grito, queira ganhar mais uma vez. Isso não é
razoável. Os índices de produtividade vigentes foram feitos
em 1980, com base nas condições tecnológicas e na produção
de 1975. Qualquer cidadão ou cidadã com o mínimo de
informação, de bom senso e de equilíbrio, sabe que de 75
para cá a agricultura mudou muito. A produção e a
produtividade cresceram bastante. A tecnologia mudou e mudou
radicalmente.
RNP –
Então, a obrigatoriedade legal vem sendo deixada de lado há
quase 30 anos. Como explicar que isso aconteça?
GC – Algo
que explica isso é que tem um país real e renitente que
ainda tem algum poder político. A agenda do índice de
produtividade é um pouco da agenda da reforma agrária. Todos
os países desenvolvidos do mundo já enfrentaram o tema da
reforma agrária. Fizeram a reforma agrária, construíram uma
estrutura fundiária mais equilibrada no século XIX e na
primeira metade do século XX. Essa agenda é tardia no
Brasil. E o que acarreta isso? Na medida em que você não fez
a reforma agrária, que você manteve uma estrutura fundiária
absolutamente desequilibrada e muito concentrada – no
Brasil, a concentração fundiária é maior do que a
concentração de renda – essa concentração no campo
brasileiro tem também repercussões políticas, porque ela
acabou construindo e solidificando poderes políticos. Aqui
no Brasil, a propriedade da terra sempre andou de mãos dadas
com o poder político.
RNP –
Associações de produtores rurais criticam a revisão dos
índices, apesar de cidades produtoras nas Regiões do
Centro-Oeste e Sul do país terem apresentado produção média,
no último ano, acima do número exigido pelos novos índices.
A crítica desses produtores é pertinente?
GC – Claro
que não. Se prestarmos atenção, vamos ver que nenhum setor
está discutindo os índices em si, os índices que, por
exemplo, passam de cinco para dez. Por quê? Porque são
absolutamente confortáveis para qualquer produtor no país
que tenha um mínimo de cuidado com a sua produção. Então, o
debate se dá de uma forma muito deformada. Mas, o que está
escondido, o que não aparece de forma clara é o fato de que
muitas pessoas ainda são contra aquilo que está na
Constituição. E o que é? A função social da terra. Não
tratamos a terra como um bem qualquer. A terra de uma nação,
de um país, é um bem finito, tem tamanho determinado. E as
terras agricultáveis de um país devem ser tratadas de forma
responsável e tem que reverter em algo benéfico para toda a
sociedade. Terra tem que ser produtiva. Tem um setor nesse
país que ainda é contra isso. É um setor arcaico.
RNP – O
MST está pressionado o governo pelo reajuste dos índices.
Essa atitude é legítima?
GC – Não
só é legítima por parte do MST como seria legítimo por parte
de toda a sociedade brasileira. A revisão dos índices de
produtividade não é de interesse exclusivo do MST. É de
interesse dos trabalhadores de uma maneira geral, dos
produtores, dos consumidores e de todo mundo que quer dispor
de alimentos baratos de qualidade.
De São Paulo, da Radioagência
NP, Desirèe Luíse. |