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15.10.2010
IV Assembleia da
Articulação de Mulheres do Campo da CLOC – Vía Campesina
Declaração de Quito
Ao
ritmo das lutas históricas dos povos e movimentos sociais, a
América Latina iniciou um caminho de mudanças sem
precedentes, de desenvolvimento do pensamento crítico,
reforçando o projeto socialista, a construção do Bom Viver /
Viver Bem, cristalizado em processos de transição que estão
comprometidos com a descolonização e por profundas
transformações, que levem a sociedades de igualdade, justiça
e soberania, bem como a harmonia entre os seres humanos e a
natureza.
Para as
mulheres rurais de nossa América, reunidas na metade do
mundo, o reconhecimento dos direitos da Pachamama (Mãe
Terra) e de nossos deveres para com ela, a afirmação da
diversidade da economia como produtiva, a prioridade da
reprodução da vida e não do capital, é uma realização
significativa das reivindicações históricas das campesinas
rurais, indígenas e afrodescendentes.
Mas,
enquanto estamos satisfeitos com esta evolução, que resultam
de nossas lutas e resistências, reafirmamos nossa
determinação de continuar lutando para que a proposta
feminista continue ajudando a definir as mudanças
socialistas que desejamos, para aqueles que lutaram
incessantemente até que as forças combinadas do capitalismo
e do patriarcado sejam parte do passado.
Da mesma
forma, nós nos comprometemos a continuar a luta pela
soberania alimentar, por nossas formas de vida, pela
agricultura camponesa e por modos de distribuição de
reciprocidade, que são desenvolvidos em harmonia com a
natureza, dentro da qual temos implantado o exercício
criativo da agricultura, a hibridização de semente, a
pordução de alimentos que atendam a toda a humanidade, e
outros conhecimentos, através dos quais se alimentou o
mundo.
Nós
rejeitamos as visões capitalistas que predominam na
agricultura, que privatizaram a terra e a água e que impõem
a dinâmica das empresas que destroem a vida rural.
Nós nos
opomos a transnacionalização da produção de alimentos e à
lógica da acumulação de ganhos do capital, que continuam a
servir como objetivo a humanidade e nossas vidas, para as
subordinar aos seus interesses.
Queremos
passar de uma visão de distribuição regida pelo "livre
comércio" para uma de complementaridade, reciprocidade e
cooperação, como as nossas organizações têm vindo a propor
em seus países, mas também no processo de integração
regional, como da ALBA e da Unasul, que é um eixo-chave para
o encaminhamento de nossas aspirações socialistas e
anti-patriarcais.
A América
Latina que queremos construir é uma que se construa de um
relacionamento harmonioso e de interdependência entre os
seres humanos, constituídos como iguais, que orientem sua
ação tendo em conta a sustentabilidade da vida.
A América
Latina a que aspiramos é uma compilação de convivência e
solidariedade entre povos e culturas diversas,
descolonizada, sem machismo ou racismo.
Queremos
uma América Latina comunicada, que reconheça e se reconheça
na diversidade de formas de expressão e comunicação de
nossos povos, com meios de comunicação nos quais se
expressem as iniciativas dos nossos movimentos sociais e das
propostas políticas de mudança. Rejeitamos o ataque da
ideologia capitalista e machista imposta pela mídia
corporativa, que se tornou porta-voz dos interesses do
capital e da direita.
Queremos
uma região e um mundo livre de todas as formas de violência,
seja machista, patriarcal, capitalista ou imperialista.
A América
Latina e o Caribe que nós queremos é um território pacífico,
desmilitarizado, sem bases militares estrangeiras, livre de
práticas imperialistas de controle, sem criminalização ou
perseguição política de organizações, do protesto e da
pobreza.
Rejeitamos
e condenamos as ameaças imperialistas e tentativas de golpe
contra os processos de mudança, como na República
Bolivariana da Venezuela, no Estado da Bolívia, Equador, e
como foi imposta em Honduras. Rejeitamos qualquer tentativa
de interferência e ingerência em nossos países e nas
decisões de nossos povos, tal como se expressa no bloqueio
imposto a Cuba há mais de 50 anos, pelo governo dos Estados
Unidos.
Nós,
mulheres rurais de 19 países, levantamos nossas vozes em
uníssono em defesa da Mãe Terra como um todo e por uma
reforma agrária integral, que garanta o acesso das mulheres
à terra. Nós levantamos nossas vozes em defesa da soberania
alimentar, produção e distribuição baseadas em economias
solidárias e comunitárias, e não nos esquemas desleais e
predatórios do capitalismo.
Vamos
estar atentas até que nossa América Latina e o mundo sejam
livres da opressão do capital e do patriarcado.
Sem
feminismo não há socialismo
Contra
o saqueio do capital e do império, América luta!
Pela
terra e a soberania de nossos povos, América luta!
Mulheres do Campo lutando pela soberania popular, pela
justiça, a vida e a igualdade! |