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16.03.2009
Jornada defende soberania
energética e popular
De acordo com José Josivaldo
Alves de Oliveira, do MAB, os trabalhadores estão empenhados
em evidenciar os prejuízos causados pelas hidrelétricas e a
falta de direitos das populações atingidas
Patrícia
Benvenuti - Brasil de Fato
Denunciar
o atual modelo energético e, ao mesmo tempo, debater
alternativas. Esse será o eixo da Jornada de Lutas do
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) deste ano,
realizado neste 14 de março, Dia Internacional de Lutas
Contra as Barragens.
O
integrante da coordenação nacional do MAB, José Josivaldo
Alves de Oliveira, explica que, como em todos os anos, os
trabalhadores estão empenhados em evidenciar para a
sociedade os prejuízos causados pelas hidrelétricas e a
falta de direitos das populações atingidas, que não recebem
indenizações e são vítimas de perseguições por parte das
empresas responsáveis pelas obras.
Para ele,
é essencial revelar os interesses que estão por trás da
construção desses grandes projetos, especialmente das
empresas transnacionais que participam dos consórcios. "Esse
é um modelo falso, que fortalece apenas o acúmulo e a
mais-valia para as grandes empresas", argumenta.
Além das
denúncias, explica Oliveira, os atingidos por barragens
também querem aproveitar a Jornada como um espaço de debate,
a fim de repensar o atual modelo energético e propor um novo
projeto, baseado na soberania energética e popular. "Os
trabalhadores estão construindo um outro modelo, que
contemple a classe tabalhadora como um todo e que avance nas
conquistas para melhorar a vida do povo", afirma.
Preço das
tarifas
A Jornada
também é um protesto contra os altos preços cobrados pela
energia. Oliveira lembra que, enquanto as grandes empresas
tem a energia subsidiada pelo governo, pagando por ela um
preço de custo, a população arca com valores até sete vezes
mais altos. Na sua avaliação, são necessárias medidas
imediatas para reverter esse quadro.
"Queremos
igualdade de preço com as maiores empresas e exigirmos que o
Estado elimine o subsidio a elas, que consomem muito e geram
pouco emprego", destaca.
Os
atingidos pedem, ainda, a isenção de cobrança de energia
para famílias que consomem até 100kwh/mês, como já ocorre no
Paraná.
Crise
econômica
Destaque
nas agendas dos movimentos sociais, a crise econômica também
é ponto importante na Jornada do MAB. Além de um debate
sobre os impactos da crise para os trabalhadores, como o
aumento do custo de vida e das taxas de desemprego, o
coordenador do MAB explica que os atingidos estão pensando a
questão também por um viés energético.
Com a
queda da atividade industrial, o consumo da energia vem
apresentando significativas reduções, o que põe em xeque,
segundo Oliveira, a própria política energética atual,
sobretudo do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC),
que prioriza o investimento urgente em novos projetos
hidrelétricos.
"Em
virtude da crise não há necessidade de construir novas
barragens, o consumo real hoje já é menor em 2006, teve uma
queda brusca", avalia.
Os
atingidos também criticam a postura do governo federal que,
além de incentivar os grandes projetos hidrelétricos, tem
tido como prioridade a ajuda financeira aos bancos e aos
grandes empresários.
"O governo
está indo para fortalecer e salvar empresas e banqueiros e
também em projetos de grande infra-estrutura do capital,
como as hidrelétricas do [rio] Madeira", denuncia.
Recentemente, o governo destinou, por meio do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), 7,2 bilhões
de reais somente para a Usina Hidrelétrica de Jirau,
prevista para o Rio Madeira.
Atividades
Em alguns
Estados, já acontecem atividades da Jornada de Lutas do
Movimento dos Atingidos por Barragens, muitas realizadas em
conjunto com a Jornada das Mulheres da Via Campesina. Na
Paraíba, cerca de 800 trabalhadores participaram de um ato
unificado no dia 9, com a presença de integrantes do MAB, do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da
Assembléia Popular.
Em
Rondônia, cerca de 500 pessoas participam, desde o dia 11,
de um acampamento em Porto Velho. Nesta sexta-feira (13), os
atingidos realizaram um protesto em frente ao escritório do
consórcio Madeira Energia (Mesa), responsável pela
construção da usina de Santo Antônio. Em seguida, eles se
dirigiram ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra) para exigir regularização fundiária das
famílias que serão afetadas pelas duas barragens.
Em Santa
Catarina, os atingidos por barragens participaram, no dia 9,
de mobilizações com as mulheres da Via Campesina em Chapecó,
Curitibanos e São Miguel do Oeste.
No Rio
Grande do Sul, os atingidos também participaram das ações da
Jornada da Via Campesina no dia 10, em Porto Alegre. No dia
11, eles participaram de uma ocupação no Banco do Brasil em
Erechim, no Norte gaúcho, que resultou na prisão de sete
trabalhadores. Ainda no dia 11, militantes da região de
Vacaria estiveram mobilizados no escritório da distribuidora
de energia RGE, pressionando a empresa para que reconheça as
autodeclarações da Tarifa Social, que garante desconto nas
tarifas para famílias de baixa renda.
No Paraná,
os atingidos pelas barragens do Vale do Ribeira farão, no
dia 14, uma mobilização no município de Adrianópolis (PR),
em protesto contra a usina de Tijuco Alto.
No Vale do
São Francisco, na Bahia, cerca de 200 jovens do MAB e de
outros movimentos sociais participarão, nos dias 14 e 15, de
um Encontro de Formação em Petrolina. Eles discutirão, entre
outros temas, a transposiçãõ do Rio São Francisco e as
barragens construídas e projetas para o Vale.
Em Minas
Gerais, haverá, no dia 14, uma panfletagem em Ponte Nova,
Guaraciaba e Rio Doce, com o objetivo de alertar a população
sobre os direitos dos atingidos pelas barragens e o
desrespeito das empresas com as populações locais. Estão
previstos, ainda, encontros e debates em universidades e
escolas de Belo Horizonte, Ponte Nova, Montes Claros,
Jequitiba e Viçosa. |