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16.06.2010
“O desafio é organizativo
e ideológico”
Nilton Viana
Brasil de Fato
Há um
processo de alteração no caráter da crise, que parcialmente
vai mudando de uma crise de acumulação de capital para uma
crise fiscal dos Estados nacionais. Essa é a avaliação de
Ricardo Gebrim, da Consulta Popular. Para ele, isso se dá
através do intenso conjunto de políticas de ajuda e
salvamento direcionadas às mais diversas frações da
burguesia. Por outro lado, segundo Gebrim, vivemos um longo
período de descenso da luta de massas. “Lutas ocorrem e
podem gerar conflitos radicais localizados, mas permanecem
localizados e não se expandem”, avalia.
Em
entrevista ao Brasil de Fato, ele afirma que a
Consulta Popular vai aproveitar o momento eleitoral para
promover a agitação e propaganda dos pontos programáticos do
projeto popular. E acrescenta: “Continuaremos dando
prioridade ao nosso trabalho de organizar o povo, promover a
formação política e incentivar as lutas sociais. Nossas
lutas acumulam as forças necessárias que são imprescindíveis
para um processo revolucionário”.
Brasil de
Fato – Como você avalia a atual crise do capitalismo, que
teve seu ápice nos EUA em 2008 e que agora se mostra com
força na Grécia?
Ricardo
Gebrim
– Em nossos debates na Consulta Popular seguimos
prognosticando que a crise capitalista será profunda e
prolongada. Afirmamos isso por entender que se trata de uma
crise de superprodução. Quer dizer, a causa é o acirramento
de uma tendência do capitalismo em produzir um desenfreado
aumento da capacidade produtiva na busca de lucro,
ultrapassando seus próprios limites e acarretando
contraditoriamente o declínio da taxa de lucro, implicando
na diminuição do ritmo de acumulação, no desemprego dos
trabalhadores e na própria destruição e desvalorização de
capital. É verdade que a crise não nos atingiu fortemente e
mesmo em nosso continente os impactos maiores se deram no
México e na América Central. Por isso mesmo, criou-se um
falso cenário de que a crise estava superada. E muitos
setores populares passaram a compartilhar esse entendimento.
Tal otimismo precipitado pode induzir a um grave erro de
análise política. O que presenciamos é um processo de
alteração no caráter da crise, que parcialmente vai mudando
de uma crise de acumulação de capital para uma crise fiscal
dos Estados nacionais, através do intenso conjunto de
políticas de ajuda e salvamento direcionadas às mais
diversas frações da burguesia. É o que assistimos na Grécia
e Espanha e que provavelmente seguirá ocorrendo nos próximos
anos.
Em recente
artigo, o professor José Paulo Netto (da Escola de Serviço
Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro) disse que
a crise da esquerda não é teórica, mas sim organizacional.
Você concorda com essa avaliação?
Estamos
enfrentando um longo período de descenso da luta de massas.
Se considerarmos que a Revolução Popular Sandinista em 1979
foi a última conquista revolucionária de um Estado, estamos
quase alcançando o intervalo de 34 anos que vai da Comuna de
Paris em 1871 até a Revolução Russa de 1905. E sabemos que
nos períodos de descenso o pensamento revolucionário
enfrenta condições extremamente adversas para se construir e
sua capacidade de influência é muito limitada. Além disso, a
marca central deste período de descenso é o impacto
ideológico que acompanhou o fim da União Soviética e demais
repúblicas populares do Leste Europeu. Por mais problemas
que apresentassem, a derrota destas experiências abalaram
profundamente as convicções e esperanças de todos lutadores.
Esse impacto reavivou concepções teóricas que haviam sido
enterradas pela luta de classes e reaparecem com novas
roupagens e autores. Concordo, porém, com José Paulo Netto
ao afirmar que os elementos teóricos fundamentais para uma
transformação revolucionária estão garantidos. Realmente não
se trata de formular uma teoria superadora mas,
principalmente, resgatar a atualidade dos elementos centrais
que asseguraram as revoluções no século 20. Neste sentido,
nosso desafio é fundamentalmente organizativo e, acrescento,
também ideológico, para não se perder neste momento tão
adverso em que a cada seis meses, surge uma teoria da moda.
Mas será
que o descenso não virou uma desculpa para não avançar mais?
Tua
pergunta reflete bem uma exasperação que existe na
militância quando escuta a palavra descenso. Realmente, toda
uma geração que despertou para a luta a partir da década de
1990 já não aguenta mais ouvir essa palavra. Porém, o
descenso existe. Pode ser medido objetivamente pela perda da
massa salarial e direitos trabalhistas, mas também é
identificado subjetivamente pela inviabilidade das formas de
luta se generalizarem e pelo desânimo em buscar soluções
coletivas. Quer dizer, lutas ocorrem e podem gerar conflitos
radicais localizados, mas permanecem localizados e não se
expandem. São os períodos históricos em que os mecanismos de
dominação são efetivos e apesar de se produzirem tensões,
funcionam bem, cumprindo o papel de manter a ordem. É claro
que um período histórico de descenso da luta de massas não
pode servir como desculpa para deixar de construir lutas,
até porque o re-ascenso também depende do papel dos
indivíduos na história. Porém, por maior que seja nossa
vontade, estamos limitados pelas circunstâncias históricas
deste momento de refluxo.
Mas isso
não é muito pessimista?
Pelo
contrário. Os projetos de transformação e as organizações
revolucionárias constroem-se exatamente nos períodos de
descenso, quando podem se dedicar a formar seus quadros,
construir a confiança entre seus militantes, consolidar-se
ideologicamente e definir sua estratégia. Mesmo sabendo que
o re-ascenso não depende apenas de nossa vontade, nossas
lutas acumulam as forças necessárias que são imprescindíveis
para um processo revolucionário.
Neste
cenário de descenso que você apresentou, quais são os
desafios atuais para a classe trabalhadora?
Antes de
tudo, sobreviver a essa conjuntura tão adversa, preservando
os quadros, especialmente os mais jovens, mantendo os
valores, princípios e os ideais de uma sociedade socialista.
É preciso reconstruir as bases políticas, organizativas e
ideológicas para esse processo revolucionário. Isso implica
formar toda uma geração de lutadores, em construir um
paciente trabalho de base, em construir a unidade das forças
populares e ter uma política clara que sempre identifica e
aponta para o inimigo. Mas tudo isso necessitará encontrar
circunstâncias históricas favoráveis e não será a tarefa de
uma única força política.
Como você
avalia a esquerda brasileira nesse atual cenário?
Desde o
final da década de 1980 até 2002, a centralidade tática que
unificou a esquerda brasileira foi a eleição de Lula. Ao
longo deste processo a questão estratégica de conquista do
Estado foi gradativamente sendo reduzida para a vitória
administrativa. Portanto, não é casual que a vitória de 2002
desencadeie todo um processo de rearranjo das forças
políticas de esquerda. Esse cenário gerou uma intensa
divergência tática. Alguns setores acharam que o central era
sustentar a todo custo o governo Lula, ainda que tivessem
que rebaixar seus programas, e outro setor passou a ter como
objetivo central constituir-se numa oposição eleitoral ao
governo Lula. Hoje já é possível fazer um balanço deste
processo e achamos que ambas as táticas foram equivocadas.
Elas permaneceram aprisionadas na lógica do governo e na
luta eleitoral e parlamentar. Nós optamos por uma tática
diferente. Deixamos claro que o governo Lula não era o nosso
inimigo, mas não deixamos de enfrentá-lo na questão agrária,
na política econômica, na política energética, nos leilões
entreguistas do petróleo e todas as outras ações
antipopulares. Tampouco tivemos vergonha de apoiá-lo como no
recente episódio do acordo com o Irã e a Turquia. Nossa
referência nunca foi a sustentação ou a oposição ao governo,
mantendo sempre a autonomia em torno das bandeiras do
projeto popular. Neste cenário, o grande desafio consiste em
unificar a esquerda e o conjunto das forças populares em
torno de um programa e um calendário de lutas. Retomar o
projeto estratégico e construir força social que o sustente.
A isso chamamos de construir um projeto popular para o
Brasil.
E como
você vê a atuação dos movimentos sociais no Brasil?
Apesar de
enfrentarmos uma conjuntura adversa para as lutas sociais
neste período de descenso, existem paradoxalmente
possibilidades promissoras de avanços organizativos e
consolidação de espaços unitários. Apostamos na construção
da Assembleia Popular enquanto uma articulação de lutadores
e lutadoras populares, que não abandonaram o método do
trabalho de base e têm a prática permanente de debater e
lutar por um projeto popular para o Brasil.
Esse ano
teremos eleições no Brasil. Ao que tudo indica não há
nenhuma perspectiva viável eleitoralmente, capaz de
enfrentar os grandes desafios do ponto de vista da esquerda.
Como você vê esse cenário?
Ao longo
de seu processo de construção, o PT aprovou em 1986 o
chamado “Programa Democrático Popular”. Segue sendo um
programa extremamente atual que enfrenta os principais
problemas estruturais de nosso país. Ainda que alguns
setores não gostem do nome, todas as principais forças
populares sustentam o mesmo programa porque nossos problemas
permanecem os mesmos. Porém, esse não foi o programa adotado
no governo Lula. O programa implementado pelo governo
rebaixa completamente aquele programa histórico. A grande
questão é que, ao contrário dos setores mais organizados e
das forças de esquerda, a maioria do povo brasileiro não
considerou que houve um rebaixamento programático porque não
tinha expectativa nestas transformações. Enxergam o governo
Lula como um avanço, uma conquista. Vivenciaram como uma
experiência positiva e concretamente existiram aspectos
positivos. E todo o esforço de retomar as bandeiras
históricas do programa que enfrenta os problemas estruturais
não é percebido pelo nosso povo enquanto uma alternativa
política. Esse é um tremendo desafio para as forças
populares. Exigirá unidade e a realização de muitas lutas
para aparecermos enquanto alternativa. Nestas eleições
haverá um plebiscito, entre a manutenção deste projeto
rebaixado e o retrocesso. O projeto popular não estará em
debate e as candidaturas de esquerda que tentam romper essa
lógica são residuais, impotentes para alterar essa lógica.
Mas qual é
a posição da Consulta Popular nestas eleições?
Recentemente realizamos nossa III Plenária Nacional, onde
deliberamos não apoiar nenhuma candidatura presidencial no
primeiro turno. Aproveitaremos o momento eleitoral para
promover a agitação e propaganda dos pontos programáticos do
projeto popular. Continuaremos dando prioridade ao nosso
trabalho de organizar o povo, promover a formação política e
incentivar as lutas sociais. Também decidimos que vamos nos
empenhar em denunciar e combater as candidaturas que
expressam o projeto neoliberal e o imperialismo, como a
candidatura de Serra.
Em
entrevista ao Brasil de Fato, o jornalista José Arbex Jr.
defendeu a criação de um novo instrumento político,
impulsionado pelo movimentos sociais, que seja capaz de
fazer frente ao atual estágio capitalista no país. Como você
vê essa proposta? A esquerda brasileira precisa construir um
novo partido revolucionário?
O Arbex é
um grande amigo nosso, embora não seja militante da Consulta
Popular. Sua proposta expressa a angústia das pessoas
sensíveis aos problemas sociais e aflitas para responder
rapidamente a um processo complexo que exige uma construção
paciente. Em nossa experiência, aprendemos que a necessidade
de contar com uma referência política que se coloque de
forma visível para as massas não depende apenas da vontade
das lideranças. A recente construção do Psol por lutadores
sérios e consequentes apostava nesta possibilidade e sua
atual crise demonstra os limites deste caminho. Nossa aposta
enquanto Consulta Popular, que estamos construindo desde
1997, aponta em outra direção. Percebemos que não bastava
reunir alguns bons militantes, aprovar um programa e
disputar cargos institucionais para resolver esse problema.
Não estamos preocupados com nossa visibilidade e sim com a
construção de uma estrutura de quadros, organizados em
núcleos que funcionem de modo regular, construindo
coletivamente uma estratégia unitária que tem como centro a
luta pela conquista do poder do Estado. Sabemos que é uma
aposta que exige a combinação de paciência e ousadia. Os
desafios são enormes, mas aprendemos que a construção de um
projeto revolucionário precisa ser desenvolvida exatamente
nos períodos não revolucionários da história. Estamos
orgulhosos com nossa trajetória.
Ricardo
Gebrim é advogado, ex-presidente do Sindicato dos
Advogados do Estado de São Paulo e integrante da coordenação
do Movimento Consulta Popular. Foi presidente do Diretório
Central dos Estudantes (DCE Livre da PUC) em 1980 e
militante da Solidariedade com a Revolução Nicaraguense. De
1988 a 1991, foi assessor jurídico da Central Única dos
Trabalhadores (CUT). |