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16.11.2009
Posição do MAB frente ao
apagão
A notícia:
No
dia 10 de novembro à noite, pouco depois das 22 horas,
ocorreu um apagão de energia elétrica e durou em torno de 4
horas até voltar à normalidade. O apagão atingiu 18 estados,
onde SP, RJ, ES e MS o desligamento foi total. Milhares de
cidades foram afetadas. Dias antes, o povo brasileiro havia
sido informado de que as empresas haviam cobrado
indevidamente 7 bilhões de reais nas contas de luz.
Estamos
assistindo a um conjunto de explicações e versões que, em
grande parte, não revelam o teor e as verdadeiras causas que
levam a ocorrer fatos como este do desligamento da energia
para milhões de brasileiros.
O
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) não quer
alimentar o circo estabelecido entre empresas, governos e
setores que representam o modelo privatista de FHC e Serra.
Eventos como o que aconteceu podem ocorrer e mais do que
discutir o fato em si, devemos aproveitar este momento para
intensificar o debate para o que nos parece central: a
insustentabilidade e o mal que o atual modelo faz para o
Brasil e a necessidade da criação de um novo projeto
energético e social.
Por isso,
nossa posição está dirigida ao povo brasileiro e a todos
aqueles setores que estão mais preocupados em construir um
projeto popular para o Brasil - com soberania energética e
sob controle popular - do que com as disputas eleitorais que
tendem a ser o principal pano de fundo desta polêmica.
A
princípio, o setor elétrico deve ter todas as medidas de
prevenção garantidas para que não ocorram estes problemas.
No nosso
entendimento, a causa principal do apagão é:
1. O
modelo energético neoliberal, que privatizou e entregou o
patrimônio do povo nas mãos de grandes empresas privadas
transnacionais, vai em direção contrária aos interesses do
povo brasileiro. Este modelo teve início nos anos 90,
principalmente nos governos Collor e FHC, e em grande parte
perdura até os dias de hoje;
2. Este
modelo transformou a energia elétrica em uma mercadoria com
o objetivo principal de extrair as mais altas taxas de lucro
tendo como principal forma a negação dos direitos das
populações atingidas e a cobrança dos mais altos preços nas
contas de luz;
3. Com
isso nos distanciamos ainda mais da soberania energética, e
ficamos subordinados aos interesses dos grandes grupos
econômicos mundiais que passam a tomar as decisões
estratégicas e se apropriam do patrimônio público nacional;
4. Todo
este modelo é dirigido pelo capital financeiro baseado na
especulação, na super-exploração dos trabalhadores e na
destruição da natureza;
5. A
privatização da energia fracionou o setor elétrico em
geração, transmissão, distribuição e em comercialização de
energia elétrica, o que torna o modelo menos eficiente e
mais suscetível a problemas como ocorreu;
6. A
criação de mecanismos como a ANEEL, a ONS e a CCEE, espaços
controlados pelas empresas privadas, servindo aos interesses
destas;
7. Os
privilegiados são os grandes consumidores, setor
eletrointensivo exportador, os chamados consumidores livres,
que não são mais de 665 empresas (como a Vale, Gerdau,
Votorantim, entre outros). Devido aos subsídios que recebem,
pagam menos de 5 centavos pelo kw, enquanto o povo
brasileiro nas suas residências paga mais de 50 centavos
pelo mesmo kw de energia. O povo brasileiro paga 10 vezes
mais que as grandes empresas;
8.
Chamamos atenção especial que o apagão de 1999 e de 2001
serviram para que através do ‘seguro apagão’ o povo
brasileiro pagasse 45,2 bilhões de reais (dados do TCU) nas
contas de luz todo mês. Além disto, o pânico de escassez
ajudou as empresas e a Aneel justificarem aumentos nas
contas de luz (mais de 400% nos últimos anos) e acelerou a
construção de novas barragens;
9. Esta
lógica instalada no setor elétrico, de extrair as maiores
taxas de lucro com o menor tempo possível, faz apressar e
passar por cima de normas e procedimentos necessários para o
bom funcionamento do setor. Redução de equipes e de quadro
técnico, trabalhos terceirizados, trabalhadores mal
remunerados, precarização e intensificação do trabalho,
redução de exigências ambientais estão entre algumas das
várias ações práticas que se pode verificar no dia a dia;
10.
Alertamos que os freqüentes erros que estão vindo a público,
como o reconhecimento através da CPI da ANEEL dos altíssimos
preços cobrados e o escândalo da cobrança irregular dos 7
bilhões a mais nas contas de luz, o reconhecimento de que o
estado tem uma enorme dívida social com o povo que foi
expulso pela construção de barragens e o atual blecaute são
fatos reveladores das enormes dificuldades enfrentadas pelo
atual modelo.
Nesta
situação, propomos:
1. Deve-se
paralisar imediatamente o processo de privatização do
conjunto do setor elétrico;
2. O
governo e o estado devem reassumir imediatamente o seu papel
no controle da energia elétrica para que possamos caminhar
rumo a um projeto com soberania energética e popular;
3. Deve-se
investir prioritariamente para que todos os processos de
produção, distribuição e uso de energia sejam pautados por
uma política de racionalidade, conservação e economia de
energia;
4. Devemos
caminhar para que a energia atenda, em primeiro lugar, aos
interesses vitais do povo brasileiro e, portanto, devemos
combater o modelo eletrointensivo exportador de energia, que
nada trás de benefícios ao nosso país;
5.
Exigimos imediatamente a redução dos preços da energia
elétrica e a devolução dos 7 bilhões de reais ao povo
brasileiro;
6.
Exigimos o cancelamento de projetos, como a Hidrelétrica de
Belo Monte, que vai penalizar o povo brasileiro e a Amazônia
para beneficiar meia dúzia de empresas transnacionais;
7.
Exigimos o imediato pagamento da dívida social que o estado
brasileiro tem com as populações atingidas por barragens.
Por fim,
reafirmamos que “água e energia,
não são mercadorias”!
São
Paulo, novembro de 2009.
Coordenação Nacional do MAB |