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17.08.2010
Vizinhos de principais
hidrelétricas do PAC reclamam de indenizações e temem futuro

Hidrelétrica de Sobradinho (BA) - Foto: João Zinclar
Guilherme Balza
Do
UOL Notícias
Em
São Paulo 13/08/2010
Usina de Santo Antônio
Localização: Porto Velho (RO
Rio: Madeira
Quando fica pronta: 2012
Capacidade: 3.150 MW
Custo: R$ 13,5 bilhões
Consórcio responsável: CSAC -
Furnas (39%), Cemig (10%), Odebrecht (1%),
Andrade Gutierrez (12,4%) e Fundo de
Investimentos e Participações Amazônia Energia
(integrado pelo FI-FGTS e pelo banco Banif)
(20%) |
O
desenvolvimento da matriz energética brasileira concentra
grande parte dos investimentos federais em infraestrutura e
é um dos carros chefes da administração do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva.
Na tarde
desta sexta-feira (13), o presidente visitará as obras de
montagem das turbinas da usina de Santo Antônio, em Porto
Velho (RO), que deverá gerar energia para abastecer 11
milhões de unidades.
O governo
federal planeja construir e inaugurar, nos próximos anos, 58
usinas hidrelétricas por meio de recursos do Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC). Em abril deste ano, foi
realizado o leilão da maior hidrelétrica do PAC, a usina de
Belo Monte, no rio Xingu (Pará), com custo estimado de R$ 19
bilhões e previsão de funcionamento para 2015.
Polêmica,
a obra é criticada por movimentos sociais, ambientalistas,
parlamentares, intelectuais e setores da Igreja Católica,
além de moradores da região afetada, que argumentam que os
benefícios trazidos não compensam os danos ambientais e os
impactos causados às milhares de famílias da região.
Assim como
Belo Monte, a construção da usina de Santo Antônio também
vem sendo questionada pelas comunidades vizinhas e pelo
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
O UOL
Notícias detectou algumas das obras mais "problemáticas" do
governo e os impactos que elas causam ou causarão no
ambiente e na vida dos moradores.
Entre as
grandes obras polêmicas, estão a própria usina de Santo
Antônio, além de Jirau (também em Porto Velho), Foz do
Chapecó (SC) e Estreito (MA) – as duas últimas devem ser
inauguradas nas próximas semanas. Outra obra questionada por
movimentos sociais e moradores é a da usina de Riacho Seco
(BA), no rio São Francisco, cuja construção ainda não foi
iniciada.
Usinas do
Complexo do Rio Madeira
Depois de
Belo Monte, as usinas hidrelétricas de Santo Antônio e
Jirau, que compõem o Complexo do Rio Madeira, em Porto Velho
(RO), são as maiores já construídas com recursos do PAC.
Juntas, custarão R$ 28 bilhões (considerando as eclusas) e
terão uma capacidade de 6.500 MW – a usina de Itaipu, a
maior do país e segunda maior do mundo, tem capacidade de
geração de 14 mil MW. As duas usinas devem começar a operar
em 2012.
De acordo
com Elias Paulo Dobrovolski, 20, integrante do MAB e morador
de Porto Velho, a construção das usinas está provocando uma
explosão demográfica na região e desestruturando as famílias
que vivem próximas das obras. "Muitas famílias que possuíam
uma dinâmica de vida ligada ao rio, à floresta, e ao
extrativismo, foram retiradas das áreas em que viviam e
passaram a morar em assentamentos urbanos, que possuem uma
lógica completamente diferente", afirma.
A área
inundada pelas duas hidrelétricas do complexo é de
aproximadamente 500 km². O MAB estima que 10 mil famílias
tenham sido afetadas diretamente pelas duas obras, incluindo
as que tiveram que ser removidas e as que sofreram impactos
em suas atividades de subsistência. As obras, segundo
Dobrovolski, multiplicaram em 10 vezes a população de
Jaci-Paraná, distrito de Porto Velho onde reside a maioria
dos operários.
Usina de Jirau
Localização: Porto Velho (RO)
Rio: Madeira
Quando fica pronta: 2012/2013
Capacidade: 3.300 MW
Custo: R$ 9,4 bilhões
Consórcio responsável: Energia
Sustentável do Brasil - Suez-Tractebel (50,1%),
Eletrosul (20%), Chesf (20%) e Camargo Corrêa
(9,9%) |
"Em três
anos, a população saltou de 2.000 para 20 mil habitantes",
diz. "O distrito se desenvolveu de maneira desordenada, sem
escola, creche, posto de saúde. O tráfico de drogas, a
prostituição e as doenças sexualmente transmissíveis
aumentaram de forma exorbitante", afirma o morador de Porto
Velho.
A
responsabilidade pela infraestrutura básica para atender os
trabalhadores é dos consórcios responsáveis pela obra -
consórcio Santo Antônio Civil/CSAC (Santo Antônio) e Energia
Sustentável do Brasil (Jirau). Os dois consórcios foram
procurados pelo UOL Notícias, mas não responderam às
perguntas até o fechamento da reportagem.
De acordo
com estimativas feitas pelo MAB, o CSAC lucrará R$ 50
bilhões nos 30 anos de exploração da obra, considerando o
preço médio de venda do MWh em R$ 78,87. Já o consórcio
Energia Sustentável do Brasil terá R$ 43 bilhões de lucro no
mesmo período, com um preço médio de venda de R$ 71,40 por
MWh.
Usina Foz do Chapecó
Na usina
hidrelétrica Foz do Chapecó, localizada rio Uruguai, entre
os municípios de Águas de Chapecó (SC) e Alpestre (RS), o
principal problema está na compensação que as famílias
atingidas receberam do consórcio, segundo o agricultor
Rudnei Cenci, 22, integrante do MAB e morador do município
gaúcho. Com investimentos de R$ 2,2 bilhões, a hidrelétrica
deve ser inaugurada nas próximas semanas e terá capacidade
máxima de 855 MW.
Usina de Foz do Chapecó
Localização: Águas de Chapecó
(SC) e Alpestre (RS)
Rio: Uruguai
Quando fica pronta: 2010
Capacidade: 855 MW
Custo: R$ 2,2 bilhões
Consórcio responsável: Foz do
Chapecó - Furnas-40% e Foz do Chapecó Energia
(60% - CPFL-51% e CEEE-9%) |
Cenci
afirma que cerca de 2.500 famílias foram indenizadas pelo
consórcio, mas cerca de 200 tiveram o direito à indenização
negado por não comprovarem ter vínculos de fixação na região
atingida, embora vivam na área há muitos anos. Outras 900
famílias teriam sido compensadas com indenizações menores do
que deveriam ter recebido, segundo Cenci.
"Tivemos
uma audiência no final de julho em Brasília, na qual o Ibama,
Ministério de Minas e Energia (MME) e o consórcio e ficou
acordado que iria se formar uma equipe para fazer a revisão
das indenizações", afirma. "Há ainda 150 famílias de
pescadores que estão proibidas de acessar o lago", diz o
agricultor.
O
consórcio Foz do Chapecó afirma que todas as famílias que
possuíam propriedades nas áreas alagadas receberam
indenizações em dinheiro ou em cartas de crédito e que
outras 300 famílias que não possuíam terra tornaram-se
proprietárias graças à construção da usina. Segundo o
consórcio, os valores pagos aos atingidos "não somente foram
justos, como superiores aos valores pagos no mercado".
Obras da usina de Estreito, localizada perto
da divisa entre Maranhão e Tocantins
Usina de Estreito (MA)
As
famílias afetadas pela construção da usina hidrelétrica de
Estreito, localizada no município maranhense homônimo,
também estão insatisfeitas com a indenização – ou com a
falta dela –, afirma o geógrafo Cirineu da Rocha, 36. De
acordo com ele, 2.000 famílias foram indenizadas, com
valores "insuficientes", em dinheiro ou com outra
propriedade, mas cerca de 1.200 famílias ribeirinhas que
tiveram suas atividades de subsistência impactadas não foram
compensadas pelo consórcio.
Usina de Estreito
Localização: Estreito (MA)
Rio: Tocantins
Quando fica pronta: 2010
Capacidade: 1.087 MW
Custo: R$ 2,5 bilhões
Consórcio responsável: Ceste -
Suez-Tractebel (40%), Vale (30%), Alcoa (25,5%)
e Camargo Corrêa (4,5%) |
Entre
essas famílias, estão quatro aldeias indígenas próximas à
hidrelétrica (Krahô, Apinajé, Gavião e Krikati) e milhares
de ribeirinhos. "O conceito para indenizar os atingidos é
patrimonial, mas muitas famílias prejudicadas são
extrativistas, coletoras, ou seja, sobrevivem da relação com
o ambiente, e não poderão mais subsistir com a construção da
hidrelétrica. Essas famílias não foram compensadas", afirma
Rocha.
O geógrafo
aponta também as consequências ambientais que a obra trará.
"Haverá uma supressão muito grande de mata virgem, e um
parque de árvores fossilizadas será alagado. Na fauna, o
problema maior é com os peixes. Os animais não estão
conseguindo mais subir o rio. Acima da hidrelétrica já não
há mais peixes em uma faixa de mais de 100 km", diz.
A usina de
Estreito deverá alagar uma área de 430 hectares e terá
potência máxima de 1.087 MW. O UOL Notícias entrou em
contato com o Consórcio Estreito Energia (Ceste), mas não
obteve resposta até o fechamento da reportagem.
Usina de Riacho Seco
Localizada
no trecho médio do rio São Francisco, a usina de Riacho Seco
ainda não começou a ser erguida, mas a possibilidade da
construção de mais uma hidrelétrica no rio preocupa os
moradores vizinhos. A estatal Eletrobras Chesf (Companhia
Hidro Elétrica do São Francisco) já viabilizou os estudos
para a construção de Riacho Seco e também da usina Pedra
Branca, que integrariam as obras necessárias para a
transposição do rio São Francisco.
Usina Riacho Seco
Localização: Curaçá (BA)
Rio: São Francisco
Capacidade: 279 MW
Custo estimado: R$ 552 milhões |
De acordo
com o MAB, se a obra for concretizada, terão de ser
removidas aproximadamente 17 mil famílias dos municípios de
Curaçá, Abaré, Juazeiro (na Bahia), Petrolina, Santa Maria
da Boa Vista, Lagoa Grande, Orocó e Cabrobó (em Pernambuco).
Também podem ser afetadas, de alguma maneira, 11 aldeias
indígenas e 18 comunidades quilombolas que residem nos
municípios.
A ativista
Nívea Diógenas, 24, moradora de Juazeiro (BA), afirma que a
potência que terá a hidrelétrica de Riacho Seco (275 MW) não
compensa o impacto que a obra trará. "Aqui na região já
foram construídas as hidrelétricas de Paulo Afonso,
Sobradinho e Itaparica e elas não trouxeram benefícios à
população, só malefícios. Isso só será bom para as grandes
empresas", diz.
Segundo
cálculos do MAB, o consórcio que vencer o leilão conseguirá
recuperar os R$ 552 milhões - previstos para a construção de
Riacho Seco - em dez anos e obterá lucros nos 20 anos que
restarão de contrato.
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