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18.03.2010
Ato público encerra 3ª
Ação Internacional da Marcha das Mulheres
Da Marcha Mundial das
Mulheres
Após
onze dias de caminhada desde Campinas, de onde saíram no dia
8 de março, as duas mil militantes da Marcha Mundial das
Mulheres chegam nesta quinta-feira (dia 18) a São Paulo,
destino final da 3ª Ação Internacional do movimento. Ao
todo, três mil mulheres dos 27 estados brasileiros
participaram da chamada Ação 2010, que tem quatro eixos de
luta: autonomia econômica das mulheres, paz e
desmilitarização, pelo fim da violência sexista e pela
defesa dos bens comuns e serviços públicos.
As
militantes andaram, no total, 116 quilômetros, incluindo as
entradas nas cidades de Valinhos, Vinhedo, Louveira,
Jundiaí, Várzea Paulista, Cajamar e Osasco, além dos
distritos de Jordanésia e Perus. Elas caminhavam pela manhã
e, à tarde, realizavam atividades de formação. A de ontem,
em Osasco, foi um debate sobre a integração dos povos e o
papel do Estado.
“Lutamos
pelo aumento do salário mínimo, pela construção de creches
públicas de qualidade, pela legalização do aborto. São
demandas que se chocam com os valores da sociedade
patriarcal, racista e capitalista na qual vivemos. Por isso
nossa batalha é árdua, é transformadora, já que o
neoliberalismo na década de 1990 conquistou corações e
mentes”, analisou Vera Soares, militante da Marcha e do
campo da economia solidária.
A luta
contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e contra
a Organização Mundial do Comércio (OMC) uniu diversos
movimentos sociais na resistência ao neoliberalismo. “As
mulheres souberam aproveitar bem esse momento para se
fortalecerem. A partir daí, ganhou visibilidade o projeto de
integração dos povos latino-americanos”, relatou Nalu
Farias, da coordenação da Marcha e da Sempreviva Organização
Feminista (SOF). Ela lembrou também que na América Latina
nasceram conceitos que atualmente reanimam a luta socialista
mundial, como soberania alimentar (gestado pelo movimento
camponês) e bem viver (fruto dos movimentos sociais da
Bolívia e do Equador). “Tivemos a eleição de presidentes de
esquerda em vários países da América Latina. Foi um sinal de
que as pessoas queriam dar um basta ao neoliberalismo.
Representou um avanço, mas também um desafio: obrigou-nos a
criar espaços de diálogo com os governos”, avaliou Nalu.
O risco da
cooptação dos movimentos sociais e do aparelhamento do
Estado foi lembrado respectivamente por Ângela Silva, do
movimento de moradia de São José dos Campos (SP), e por
Terezinha Vicente Ferreira, da Articulação Mulher e Mídia,
ambas militantes da Marcha. “Um exemplo de solidariedade
regional foi o Brasil não ter reconhecido o governo golpista
de Honduras. Mas eu me pergunto, caso o golpe tivesse sido
aqui, se teríamos persistido na resistência a ele, como fez
o povo de Honduras. Receio que não, porque a esquerda do
Brasil está esfacelada e bastante desacreditada”, lamentou
Ângela. “O Estado, tal qual o conhecemos, historicamente foi
construído pela imposição. E a disputa para ocupar seus
espaços e cargos tem dividido os movimentos sociais
brasileiros”, argumentou Terezinha.
Tatiana
Berringer, da Assembléia Popular, destacou a importância de
fazer frente a este esfacelamento da esquerda e acumular
poder popular, a fim de transformar a sociedade. “Acredito
que a Marcha Mundial das Mulheres seja um exemplo deste
acúmulo”, comemorou a militante.
Elaine, do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra na Bahia
(MST-BA), concordou com a avaliação: “Nós do MST sabemos
bem, na pele, como dói a dificuldade de integração com a
sociedade. A Marcha Mundial das Mulheres cumpre um pouco
esse papel de integração dos movimentos”.
Seguiremos em marcha
O lema da
3ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres é
“Seguiremos em marcha, até que todas sejamos livres”. Por
isso, nem no Brasil, nem nos outros 51 países que realizaram
atividades no primeiro período de lutas (de 8 a 18 de
março), esta quinta-feira significa um ponto final. No ato
público em São Paulo, marcado para às 16h na Praça Charles
Miller (ao lado do estádio do Pacaembu), estarão presentes,
por exemplo, as bonecas Caminhantes, construídas pelas
militantes que participam da Ação 2010. Elas representarão o
país no segundo período de lutas, de 7 a 17 de outubro, na
República Democrática do Congo.
(Foto: João Zinclar) |