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19.01.2010
"Trabalho escravo e
fronteira agrícola andam de mãos dadas"
Do
amazônia.org.br
“O
trabalho escravo no Brasil é sustentado por um tripé:
impunidade, pobreza e ganância (...) e está inserido na
economia brasileira, porém ele não é fundamental, e por isso
pode ser erradicado”. A afirmação é de Leonardo Sakamoto,
jornalista e coordenador da organização
Repórter Brasil
em entrevista a Aldrey Riechel e publicado pelo sítio
Amazônia.org.br nesta segunda-feira (18/1).
Leia a
entrevista.
A Amazônia
é a região que concentra a maior parte das empresas que usam
mão-de-obra escrava. Na lista editada pelo Ministério do
trabalho e Emprego, aponta que dos 164 casos enumerados, cem
deles (61%) ocorreram em Estados que pertencem à Amazônia.
Por que nesta região tem tantas ocorrências?
Está
diretamente relacionado ao fato do trabalho escravo ser
muito usado no Brasil como um instrumento de expansão
agropecuária. Trabalho escravo e fronteira agrícola são duas
coisas que caminham de mãos dadas. Durante o processo de
implantação de um empreendimento agropecuário, você tem
muitas vezes, um fazendeiro que não está capitalizado ou, na
maioria das vezes, que não quer botar a mão no bolso. E para
uma atividade periférica da fazenda, ampliação da fazenda,
por exemplo, ele acaba se valendo de formas ilegais e vai
fazer o que já é conhecido: vai grilar terras, vai desmatar
além da conta e vai usar trabalho escravo, ou seja, para
poupar dinheiro. Dinheiro que ele não tem ou que ele não
quer gastar em um momento de expansão agropecuária.
Dessa
forma, ele pode competir no mercado de uma forma mais rápida
sem esses gastos de investimentos. Isso eu estou falando de
uma forma geral. O trabalho escravo é utilizado para ampliar
a fronteira, para expandir a área agrícola, para expandir a
fronteira agrícola.
No caso da
Amazônia, a impunidade também auxilia?
Trabalho
escravo no Brasil é sustentado por um tripé: impunidade,
pobreza e ganância. Ganância que leva as pessoas a quererem
obter lucros fáceis, por meio de uma concorrência desleal e
através do sofrimento humano. A pobreza que empurra esse
pessoal para fora, longe de suas casas e cidades e que
facilita o fato deles serem traficados, do nordeste até a
Amazônia, por exemplo. E a impunidade, que dá aquela certeza
de que pode usar trabalho escravo e depois não vai acontecer
nada. É claro que para combater o trabalho escravo estamos
tentando reverter esse tripé que sustenta o problema.
Você disse
que trabalho e fronteira agrícola trabalham de mãos dadas. É
possível dizer que o trabalho escravo gera economia?
Vou até
refazer essa sua colocação: o trabalho escravo está inserido
na economia brasileira. Ele não é fundamental, e por isso
pode ser erradicado. A Repórter Brasil, desde 2003, realiza
estudo de cadeia produtiva. Já rastreamos mais de 500
fazendas e, em todas elas, eles entram nessas chamadas
"redes comerciais globais". Você tem fazendas vendendo para
grandes frigoríficos que exportam produção ou vendem aqui,
em território nacional. Tem usinas com trabalho escravo
produzindo etanol para o mercado nacional e internacional,
açúcar também, algodão, soja, o milho, o arroz, o tomate, a
madeira, o carvão vegetal para a siderurgia, para minério de
alto valor... Então você tem o trabalho escravo sendo usado
como uma ferramenta para gerar competitividade. Tem gente
que usa isso para crescer, existir e começar um negócio.
Agora,
trabalho escravo não é necessário para a economia, então ele
pode ser cortado. Basta para isso que a gente mude o modelo
de desenvolvimento. O trabalho escravo não é em nenhum
momento uma doença, é uma febre. Febre é sintoma. Sintoma de
que alguma coisa está ruim no corpo e o trabalho escravo é o
sintoma de que alguma coisa está com problema no corpo, no
caso o nosso modelo de desenvolvimento que é extremamente
predatório, excludente e destruidor em todos os sentidos.
Isso
significa que é preciso uma reforma em todo o sistema
produtivo e econômico...
É claro
que as pessoas falam assim: "Poxa! Tem que acabar com o
capitalismo para acabar com o trabalho escravo?". A
discussão é longa, mas na verdade se você mudar o modelo de
desenvolvimento, se combater impunidade, ganância e pobreza,
você reduz drasticamente o trabalho escravo.
Olha a
diferença: você vai atuando na questão da pobreza, da
dignidade e da ganância, e, se você conseguir mudar o modelo
de desenvolvimento, que é isso que nós defendemos, e é isso
que as entidades que trabalham com a questão socioambiental
defendem, nós vamos acabar com o trabalho escravo. Por quê?
Porque é uma forma de exploração que está relacionada com
uma maneira de ver o meio ambiente e a sociedade como meros
instrumentos de lucro e não como elementos que devem estar
em harmonia.
A
atualização da Lista Suja do Trabalho Escravo foi feita há
pouco tempo, onde foram incluídas 12 empresas e excluídos 10
nomes. Você acredita que a divulgação das empresas por meio
dessa relação é uma medida que ajuda a punir aquelas que
usaram mão-de-obra escrava? Essa é uma medida que traz
resultados?
Traz
muitos resultados sim. A Lista Suja do Trabalho Escravo, que
foi criada em 2003 pelo governo federal é, em nossa opinião,
um dos mais importantes instrumentos de combate ao trabalho
escravo do Brasil. O pacto nacional pela erradicação do
trabalho escravo, que foi criado pela repórter Brasil, pela
Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo Instituto
Ethos e depois também foi abraçado pelo Instituto de
Observatório Social, é um instrumento que se baseia na lista
suja, ou seja, mais de 200 empresas e associações, que fazem
parte do pacto, são obrigadas a checar a Lista Suja antes de
fechar negócio. Empresas públicas, privadas, bancos públicos
e bancos privados são obrigados a checar a lista suja antes
de fechar negócio. E também o próprio governo federal já
deixou claro que Banco Público Federal não emprestará para
quem estiver na Lista Suja.
Se você
consegue evitar que essas empresas consigam escoar sua
produção, tenham compradores, clientes e que também evitem
créditos para esse pessoal, você vai atuar naquela ganância.
O pessoal usa trabalho escravo porque gera lucro. Não é
porque alguém é malvado.
Então se o
trabalho escravo começar a gerar prejuízo, elas vão repensar
antes de usá-lo. A lista suja, além de ser um instrumento de
publicização, de transparência do combate ao trabalho
escravo, é uma forma de atuar diretamente no combate a esse
problema, por meio das empresas que são signatárias do
pacto. É uma medida que é usada para bloqueio comercial. O
objetivo da criação dela foi a transparência e é um
instrumento corajoso do governo e das instituições que fazem
parte da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho
Escravo, elas apóiam, sem sombras de dúvida, a lista suja.
Você
acredita que o Programa Nacional de Direitos Humanos, recém-
lançado pelo governo, pode contribuir na luta contra o
trabalho escravo?
O
programa, ao buscar a redução da pobreza, a validação dos
direitos humanos, combater a negação dos direitos humanos,
garantiu uma série de ações que bate de frente com
impunidade, bate de frente com a pobreza e age contra essa
ganância desmensurada. Então é claro que o Plano Nacional
vai ser um instrumento importante.
Ele tem um
capítulo sobre trabalho escravo, que a gente [Repórter
Brasil] ajudou a confeccionar. O programa prevê reforçar a
adoção do Plano Nacional pela Erradicação do Trabalho
Escravo, que existe e está à disposição de qualquer um.
Agora é
importante que se diga o seguinte: num Brasil onde os
direitos humanos não valem nada, o trabalhador é tratado
como bicho, indígenas são tratados como descartáveis,
quilombolas, ribeirinhos e outras pessoas pobres do campo
são tratados como ninguém, é de admirar que a área de
direitos humanos tenha conseguido avançar gerando um
terceiro programa.
O trabalho
escravo é uma das piores formas de exploração humana. Porque
não mexe apenas com direitos trabalhistas, mexe com vários
direitos fundamentais: ele também é a ausência do tratamento
digno, do direito humano, do aceso a terra, de acesso a
alimentação e ao trabalho descente. Um plano que eleva o
patamar da dignidade dos trabalhadores do campo é um plano
que ajuda a combater o trabalho escravo. E se fosse adotado,
é claro que o modelo de desenvolvimento no Brasil seria
outro.
Tanto é
que veja as forças retrógradas que não defenderam o plano:
militares, ruralistas e setores conservadores da igreja
nacional, mantendo um padrão semelhante ao padrão do Brasil:
é o padre, o delegado é o coronel. São os três conjecturando
sobre como manter a alma e o corpo dos trabalhadores e dos
seres humanos em constante privação. Até pelo antagonismo de
quem atacou o plano, você sabe que o plano é um instrumento
que deve ser defendido. |