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19.01.2010
Movimentos promovem
Encontro de Atingidos pela Vale no RJ
Nós,
organizações e movimentos sociais e sindicais do Brasil,
convocamos e convidamos organizações sociais e sindicais do
Canadá, Chile, Argentina, Guatemala, Peru e Moçambique para
o I Encontro Internacional de Populações, Comunidades,
Trabalhadores e Trabalhadoras atingidos pela política
agressiva e predatória da companhia Vale do Rio Doce, entre
os dias 12 e 15 de abril de 2010, no Rio de Janeiro (RJ).
A Vale,
dona que quase todo o minério de ferro do solo brasileiro, é
hoje uma empresa transnacional, que opera nos cinco
continentes, 14ª companhia do mundo em valor de mercado,
explorando os bens naturais, as águas e solo, precarizando a
força de trabalho dos povos em todo o mundo. Ela foi uma
empresa estatal até 1997, quando foi privatizada de maneira
fraudulenta pelo governo Fernando Henrique Cardoso a um
valor sub-avaliado de R$ 3,4 bilhões de dólares. Desde então
gerou lucro de 49 bilhões de dólares, e distribuiu a seus
acionistas 13 bilhões de dólares, êxitos que obtém às custas
da exploração dos bens naturais, das águas e solo e pela
precarização da força de trabalho dos povos nos países que
explora.
A
propaganda da Vale nos lembra todos os dias que ela é
brasileira e que trabalha com “paixão” para promover o
“desenvolvimento sustentável” do Brasil e para garantir um
futuro para nossas crianças. Utiliza em suas propagandas a
imagem de brasileiros ilustres e artistas famosos. Em 2008,
a Vale gastou R$ 178,8 milhões em propaganda (Ibope
Monitor). As bonitas imagens omitem a face oculta da
empresa, construindo no imaginário do brasileiro comum a
imagem de uma Vale patriota e paternal. Não é isso, contudo,
o que pensam as pessoas que vivem nos territórios explorados
pela Vale, seja no Brasil ou nos outros países em que a
companhia está presente. Os trabalhadores e as comunidades
afetadas, no entanto, não têm o poder e o dinheiro da Vale
para ocupar a mídia brasileira e mundial com as suas
opiniões e relatos sobre a influência da empresa sobre suas
vidas
A
exploração de minério e outras atividades da cadeia de
siderurgia têm causado sérios impactos sobre o meio ambiente
e a vida das pessoas. A poluição das águas com produtos
químicos, a intervenção direta na destruição de aqüíferos, a
produção de enormes volumes de resíduos em suas atividades
de mineração (657 milhões de toneladas por ano), a emissão
de dióxido de carbono na atmosfera, o desvio de rios que
antes atendiam comunidades inteiras para uso da companhia, o
desmatamento de florestas e matas, a destruição de
monumentos naturais tombados, a mineração em áreas de
mananciais de abastecimento público, o impacto sobre as
populações indígenas e tradicionais, a poeira de minério
levantada em suas atividades, a desapropriação forçada de
comunidades, rebaixamento do lençol freático, a associação
da empresa com projetos industriais e energéticos que têm
interferido na destruição da Amazônia e do Cerrado
brasileiros, a eliminação de trechos ferroviários seculares
em Minas Gerais, os acidentes nas minas e envolvendo trens
da empresa, cuja vítima ou família não tem nenhuma
assistência por parte da companhia – tudo isso, ainda que
não sejam mencionadas nas propagandas, são as marcas mais
fortes da Vale nos territórios em que ela atua. A extração
nociva de bens naturais, destruição dos patrimônios
culturais, e os danos causados ao meio ambiente são, em
alguns casos, irreparáveis, e produzem danos permanentes à
vida.
A despeito
dos visíveis danos, suas atividades continuam respaldadas
com investimentos e parcerias lucrativos. No Rio de Janeiro,
por exemplo, com a associação da Vale com a Thyssen Krupp,
através da TKCSA, está previsto um aumento de 12 vezes na
emissão do poluente CO2 na cidade do Rio (O Globo, 5/11/09).
Além disso, a Vale é uma das principais empresas
consumidoras de energia, mas quase não paga por ela: a
empresa paga menos de R$ 5,00 por 100kwh, enquanto a
população em geral, assim como pequenos e médios
comerciantes e indústrias, pagam mais de R$ 45,00kwh no
Brasil.
Seus
trabalhadores sofrem com demissões sem justificativa, com
ausência de medidas de segurança do trabalho e com pressões
de diversas naturezas que, muitas vezes, levam-nos ao
suicídio. Dois em 100 trabalhadores foram afastados por
acidentes em 2008, 9 morreram. A cidade de Itabira (MG),
onde nasceu a Vale, tem o maior índice de suicídios do
Brasil. É também muito alta a terceirização do trabalho, que
desresponsabiliza a companhia e precariza as relações de
emprego (146 mil empregos, 83 mil são indiretos).
A Vale tem
usado a crise econômica mundial para pressionar os/as
trabalhadores em todo o mundo, reduzir salários, aumentar a
jornada de trabalho, demitir, e rebaixar direitos
conquistados com anos de luta. A greve iniciada pelos
trabalhadores e trabalhadoras canadenses desde junho de 2009
é um exemplo importante de luta e resistência contra a
arrogância e a intransigência da empresa, e, ao mesmo tempo,
de construção da nossa unidade internacional. A greve dos
trabalhadores e trabalhadoras no Canadá conta com todo o
nosso apoio e solidariedade ativa para garantir sua vitória!
A Vale usa
as mesmas táticas com as populações em todo o mundo. Ela
pressiona, ameaça, coopta agentes públicos e locais,
chegando até a fazer uso de milícias e forças militares para
garantir seus “investimentos”. Em muitos lugares, a empresa
financia campanhas eleitorais, zoneamentos ecológicos e
planos diretores de municípios, numa completa inversão do
princípio da gestão política e governamental soberana dos
interesses públicos pela sociedade.
Os
cidadãos e cidadãs comuns também são atingidos, uma vez os
recursos públicos gerados pelos seus impostos são repassados
para a Vale pelo BNDES e outras agências estatais. Enquanto
os impostos são altíssimos para a população comum, e também
pequenas e medias empresas, grande corporações como a Vale
recebem anos de isenção fiscal. Os serviços públicos para
onde deveriam ser direcionados os impostos, como hospitais e
escolas, continuam em péssimas condições. Assim, sua atuação
aprofunda a dívida financeira, ecológica e social com as
populações atingidas. Cada centavo de dinheiro público que é
destinado à Vale poderia ser investido na criação de fontes
de trabalho que não prejudicassem a vida no planeta.
É com o
objetivo de mudar este quadro que estamos organizando o
encontro internacional dos atingidos pela Vale. Nós iremos
demonstrar com fatos concretos e estudos de caso o que
realmente vem acontecendo à população que vive no entorno
dos empreendimentos, e aos trabalhadores da Vale. Nosso
objetivo é dar voz àquelas pessoas que sofrem diariamente
com a atuação da mineradora, sejam comunidades próximas,
desapropriadas ou áreas em que a empresa busca se instalar,
sejam os trabalhadores e trabalhadoras da empresa.
Além de
expor o comportamento agressivo da Vale, nós também iremos
trabalhar instrumentos e estratégias comuns para contestar
seu poder absoluto e fortalecer os trabalhadores e
comunidades atingidas. Estes instrumentos podem incluir
acordos coletivos dos trabalhadores da Vale com demandas em
comum, monitoramento independente do impacto ambiental,
monitoramento independente dos contratos governamentais
sobre impostos, royalties, entre outros.
A
articulação dos povos e movimentos nos diferentes países em
que há exploração da mineradora é fundamental para
fortalecer nossas lutas locais, nacionais e internacionais.
Precisamos nos unir para construirmos juntos nossas
estratégias, e pressionarmos nossos governos para que nossos
direitos de vida, trabalho, terra, moradia, saúde, e de um
ambiente justo e saudável sejam garantidos. E para que a
Vale cumpra mundialmente com padrões ambientais,
tecnológicos e trabalhistas elevados, e que respeite e não
tente retroceder as legislações vigentes. Não vamos deixar
que a Vale rebaixe nossos direitos conquistados e destrua
nossas vidas!
Os bens
naturais e dos solos de cada país são patrimônio soberano
dos povos, não dos acionistas nacionais e internacionais da
Vale!
O leilão
de privatização da Vale foi ilegal. Nós exigimos a anulação
deste leilão, como disseram cerca de 4 milhões de
brasileiros no Plebiscito Popular sobre a privatização da
Vale e a dívida pública realizado em 2007. Nós defendemos a
devolução ao povo brasileiro dos “direitos minerários” não
contabilizados na operação de venda, sua re-estatização e o
seu controle pelos trabalhadores!
Assim,
convocamos as comunidades que atualmente sofrem com os
grandes empreendimentos mineradores, a sociedade civil, os
trabalhadores e trabalhadoras da Vale, movimentos e
organizações sociais, pastorais sociais, estudantes e
professores para participar da construção desse encontro, na
expectativa de uma sociedade mais justa e ambientalmente
equilibrada.
Assinam:
Campanha Justiça nos Trilhos
Movimento pelas Serras e Águas de Minas
Comitê Mineiro dos Atingidos pela Vale
Conlutas
Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS)
Rede Justiça Social e Direitos Humanos
Rede Brasileira de Justiça Ambiental
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
ILAESE (Instituto Latino Americano de Estudos
Sócio-Econômicos)
CEPASP Marabá (Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria
Sindical e Popular)
Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos
Sociedade Paraense dos Direitos Humanos
Instituto Madeira Vivo
CPT nacional
Associação Paraense de Apóio às Comunidades Carentes
Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense/AMB
Movimento Artístico, Cultural e Ambiental de Caeté - MACACA
Sindicato Metabase Inconfidentes - Congonhas
Sindicato Metabase – Itabira
Brigadas Populares (MG)
Justiça Global
Assembléia Popular Nacional
Jubileu Sul Brasil
Grito dos Excluídos – Brasil
Grito dos Excluídos Continental
Associação de Favelas de São José dos Campos/SP
IBASE
Consulta Popular
Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD)
Associação de Pescadores de Pedra de Guaratiba (AAPP)
APESCARI
Fé e Política – Sepetiba
Núcleo Socialista de Campo Grande (RJ)
Coletivo “A Baía de Sepetiba pede Socorro”
FASE/ Amazônia
Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias dos
estados do Maranhão, Pará e Tocantins (STEFEM)
SINDIMINA – RJ
CUT Maranhão |