|
19.10.2009
Obras da Transposição
ameaçam comunidades e correm risco
de não serem finalizadas
Fonte: CPT
O governo
anuncia que 15% das obras da Transposição já foram
realizadas. Mas problemas de outra ordem já começam a
aparecer. A frente paraibana de prefeitos desistiu da
transposição. A Agência Nacional de Águas (ANA) suspendeu
provisoriamente a transposição para a Paraíba. Como a
transposição prevê apenas a transferência de águas do São
Francisco para outras bacias e não a sua distribuição pelas
adutoras quando depois de transpostas, vários prefeitos
prevendo o custo que não conseguem arcar, desistiram. A ANA
suspendeu o estado da Paraíba das obras da transposição até
que providencie o que falta para a realização da obra no
estado.
Nas
comunidades onde as obras estão acontecendo, os impactos
negativos já começam a ser sentidos. Na cidade de
Petrolândia (PE), denúncias de aumento significativo do
número de adolescentes grávidas, por conta da circulação de
trabalhadores das obras na cidade, já começam a ser
divulgados pela Rede de Controle Social. “Esse não é o único
problema, já começam a aparecer rachaduras nas casas
também”, denuncia o bispo da Diocese de Floresta (PE), D.
Adriano Caccioca Vasino.
Nas
comunidades indígenas, o impacto promete ser maior. A
construção das barragens de Pedra Branca e Riacho Seco, nos
municípios de Sta. Maria da Boa Vista e Orocó, em
Pernambuco, e Curaçá na Bahia, inundarão terras dos povos
Tumbalalá. Algo que não é nova. Desde a construção das
barragens nas décadas de 70, os povos vêm sofrendo com o
regime de águas irregular, controlado pelas companhias
energéticas.
Com o
objetivo de impedir a continuidade dessas agressões e barrar
a Transposição, a APOINME (Articulação dos Povos e
Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito
Santo), juntamente com outras entidades, como a Articulação
Popular pela Revitalização do São Francisco, está realizando
a Campanha Opará - Povos Indígenas em defesa do Rio São
Francisco.
A
mobilização, através de petições populares,
relatório-denúncia e manifestações públicas, quer pressionar
o Supremo Tribunal Federal (STF) a julgar ações pendentes
contra o projeto de transposição, em especial as que tratam
das terras indígenas afetadas. Uma das pendências a serem
julgadas é a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4113,
ajuizada em julho de 2008, e que aponta as graves
irregularidades cometidas no período anterior ao início das
obras de Transposição. Segundo a Constituição Brasileira, no
seu artigo 49, a implantação de empreendimento que envolve
terras indígenas, deve ser precedido de uma consulta ao
Congresso Nacional. As obras de transposição do rio São
Francisco implementadas pelo Exército, ignoraram essa
condição e desde o seu começo em 2007, 33 tribos indígenas
estão sendo afetadas pelo empreendimento, diretamente são
quatro, os Truká, os Tumbalalá, os Pipipã, os Kambiwá.
Revitalização do São Francisco é alvo de críticas
Cerca de
50 manifestantes, na cidade de Buritizeiros (MG), tiveram
panfletos e faixas apreendidos, no momento em que se
dirigiam para o palanque onde o presidente Lula e a comitiva
que o acompanha discursavam a respeito das obras de
esgotamento sanitário que tem sido feito na região. As obras
fazem parte do programa de revitalização do São Francisco,
projeto que tem sido executado pelo governo federal e que é
alvo de várias críticas do Comitê da Bacia do São Francisco
e da sociedade civil organizada.
Além das
faixas, alguns manifestantes também foram impedidos de
entrar no local pela policia militar e pela guarda
municipal. A razão, alegada pelos guardas, é de que era uma
questão de segurança pública. “Eles ficaram sem resposta
quando alertamos que o bóton da presidência, que estava
sendo distribuído para todos na entrada do evento, tinha
alfinete com ponta que oferecia perigo também”, conta
Letícia Rocha, uma das integrantes da Articulação Popular
pela Revitalização do São Francisco. Ela critica também a
atitude antidemocrática do governo. “Isso apenas confirma
que o governo Lula quer a todo custo banir toda reação
contrária a sua pseudo-revitalização”.
Segundo
Letícia, em Buritizeiros, há apenas o início do encanamento
em algumas ruas sem ter sido construída a estação de
esgotamento. Já em Pirapora, mesmo com a obra já concluída
no tratamento, a única coisa que funciona é a separação de
resíduos sólidos. A água é acumulada em uma grande bacia
(cheia de cianobactérias) com uma canalização que a joga,
esverdeada, direto no rio. "Talvez, seja essa uma das razões
pela qual o presidente desistiu de visitar o município de
Pirapora. Seus emissários certamente verificaram o mau uso
do recurso público de R$ 4,5 milhões", analisa.
Letícia
não é a única a criticar o programa de revitalização do São
Francisco realizado pelo governo. O presidente do Comitê da
Bacia Hidrográfica do São Francisco (CBHSF), Thomaz Matta
Machado, também demonstra desacordo com o que tem sido
feito. Na sua opinião, não existe um programa, mas apenas
ações isoladas de esgotamento sanitário. “Existe muito
dinheiro orçado para a Revitalização, mas sem a
implementação real desses gastos”. Machado aponta também
outra debilidade no projeto proposto pelo governo. “A
revitalização tem que trabalhar a questão da diminuição da
vazão e não apenas a questão da qualidade da água. Na
prática, as ações em execução priorizam o saneamento
ambiental. A quantidade de água na bacia e no Rio São
Francisco não está sendo considerada”.
A
preocupação de Thomaz Machado é pertinente. Em estudo
publicado pela Journal of Climate, da Sociedade
Metereológica Americana, o fluxo de água do rio São
Francisco caiu 35% no último meio século. “O programa de
revitalização tem que vir da sociedade”, defende. Membros da
Articulação Popular pela Revitalização do São Francisco
apontam outros problemas no projeto que tem sido realizado.
Ele critica também “a falta de visão integrada da bacia como
um todo”, e diz que o projeto “deveria ser traçado com a
participação das comunidades ribeirinhas para, de fato,
representar os anseios da população”.
O ritmo
lento das obras é outro motivo de preocupação. Dos R$ 442,7
milhões previstos no orçamento federal deste ano para
projetos de recuperação ambiental das bacias hidrográficas
do São Francisco e do Parnaíba (ambos estão na mesma
rubrica), apenas R$ 71 milhões foram empenhados de janeiro a
maio. Ou seja, o compromisso efetivo de liberação dos
recursos alcança menos de 17% do investimento divulgado,
segundo o Siafi, o sistema eletrônico de acompanhamento
orçamentário. O valor pago às empresas contratadas, nos
cinco primeiros meses, foi inferior a R$ 1 milhão.
Além das dúvidas a respeito da eficácia do
programa de revitalização realizado pelo governo, o Tribunal
de Contas da União (TCU) também encontrou problemas no
edital do projeto. O TCU suspendeu a contratação de empresas
para realizar e acompanhar os projetos ambientais referentes
à transposição do rio São Francisco. Segundo o tribunal, o
edital para contratar a empresa tinha uma norma que permitia
a variação de preços fora do limite legal e os preços que
constavam no orçamento não eram compatíveis com os
praticados no mercado. |