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19.11.2008
Seminário Internacional critica atual modelo de produção dos
agrocombustíveis
Documento final
aponta princípios e propostas para a soberania energética e
alimentar dos povos
Depois de intensos debates
sobre o modelo energético, produção e distribuição dos
agrocombustíveis e propostas à soberania energética e
alimentar dos povos, organizações e
movimentos sociais que participaram do Seminário
Internacional "Agrocombustíveis como obstáculo à construção
da Soberania Alimentar e Energética" entregaram o documento
final do encontro (leia abaixo) a representantes do governo
federal na conferência oficial, em São Paulo. O seminário
paralelo foi organizado como contraponto à Conferência
Internacional sobre Biocombustíveis do governo federal, que
acontece entre 17 a 21 de novembro.
"Discordamos radicalmente do
modelo e da estratégia de promoção dos agrocombustíveis:
entendemos que estes não são vetores de desenvolvimento, nem
tampouco de sustentabilidade. Esta estratégia representa um
obstáculo à necessária mudança estrutural nos sistema de
produção e consumo, de agricultura e de matriz energética,
que responda efetivamente aos desafios das mudanças
climáticas", afirma o documento final do seminário paralelo.
Gilberto Cervinski, do MAB,
representou a Via Campesina na comissão de entrega do
documento e disse que o atual modelo energético não prioriza
o povo brasileiro e sim as empresas donas de barragens, a
indústria canavieira e os bancos. Além disso, enfatizou a
importância do documento final como instrumento de debate
com a sociedade em geral e a base dos movimentos sociais.
“Há tempos o MAB afirma que a água e a energia não devem ser
tratadas como mercadorias, pois são direito dos povos. Hoje
saímos desse seminário internacional reforçando essa
posição”, afirmou.
São Paulo, 17 a 19 de Novembro de 2008
Seminário Internacional
Agrocombustíveis como obstáculo à construção da Soberania
Alimentar e Energética
Nós organizações e movimentos
sociais do Brasil, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Bolívia,
El Salvador, México, Equador, Paraguai, Tailândia, Holanda,
Suécia, Alemanha e Estados Unidos, reunidos em São Paulo de
17 a 19 de Novembro de 2008.
Discordamos radicalmente do
modelo e da estratégia de promoção dos agrocombustíveis.
entendemos que estes não são vetores de desenvolvimento, nem
tampouco de sustentabilidade. Esta estratégia
representa um obstáculo à necessária mudança estrutural nos
sistema de produção e consumo, de agricultura e de matriz
energética, que responda efetivamente aos desafios das
mudanças climáticas.
Afirmamos que:
O modelo de agricultura
industrial, onde se inserem os agrocombustíveis, é
intrinsecamente insustentável, pois apenas se viabiliza
através da expansão das monoculturas, da concentração de
terras, do uso intensivo de agroquímicos, da superexploração
dos bens naturais comuns como a biodiversidade, a água e o
solo. Os agrocombustíveis representam uma grave ameaça à
produção de alimentos. Independentemente dos cultivos
utilizados para a produção de energia, comestíveis ou não,
trata-se da competição por terra agricultável e por água.
A produção em escala
industrial de agrocombustíveis, ao expandir a fronteira
agrícola, soma-se à expansão do conjunto do agronegócio
– cujos impactos dinâmicos e efeitos cumulativos são o
principal vetor de desmatamento e destruição de ecossistemas
em todo o mundo, e no Brasil é responsável pela destruição
da Amazônia, do Cerrado e outros.
No Brasil, o setor
sucroalcooleiro não se sustenta sem o financiamento público:
a promoção dos programas governamentais de
agrocombustíveis historicamente tem sido caracterizada por
incentivos e subsídios governamentais diretos (como
financiamentos públicos do BNDES, em grande parte oriundos
do FAT) e indiretos (como não penalização das evasões
fiscais e perdão de dívidas).
O setor sucroalcooleiro
conta com a conivência do governo quanto ao descumprimento
das legislações trabalhistas e ambientais: entre os
impactos da produção de etanol no Brasil destacamos a
superexploração e as condições degradantes de trabalho e a
utilização de mão de obra escrava; a contaminação dos solos,
do ar e da água e redução da biodiversidade; o encarecimento
das terras e a concentração fundiária, que fragilizam ainda
mais os programas de reforma agrária e promovem,
concomitantemente, um processo brutal de invasão de
territórios de populações tradicionais e povos indígenas e
de expropriação das terras de pequenos e médios
agricultores; e a ameaça a produção dos alimentos que são
consumidos no país. A extrangeirização da terra, seja
através da compra ou contratos de arrendamento, para a
produção de agroenergia, também é um fator recente e
extremamente preocupante, pois hipoteca as áreas de terras
agriculturáveis disponíveis e as condições estruturais de
produção de alimentos.
Denunciamos que a
estratégia de difusão internacional do modelo agroenergético
do governo brasileiro, através da ação de seus
ministérios, em especial o Itamaraty, e instituições
financeiras e de pesquisa, como BNDES e Embrapa,
reproduzirá os impactos e problemas do setor nos países da
África, América Latina e Caribe.
Questionamos a estratégia
de expansão dos agrocombustíveis através do mercado global:
nos opomos radicalmente ao acordo de difusão tecnológica
Brasil/EUA, que visa a padronização e comoditização do
etanol. Nos opomos às metas de substituições de
combustíveis na União Européia e nos EUA que ampliarão a
demanda por terras para produção de agrocombustíveis nos
países do Sul.
Alertamos que nem o
zoneamento, nem critérios ambientais e sociais irão tornar
sustentável o modelo do agronegócio exportador: as
propostas de certificação socioambientais dos
agrocombustíveis, a tomar por experiências diversas (como
FSC, RTSPO, RTSB), não minimizam, mas escamoteiam os
impactos, servindo majoritariamente como um instrumento de
legitimação do comercio internacional. O zoneamento
agroecológico da cana proposto pelo governo brasileiro,
assim como a difusão de conceitos como o de terras ociosas,
degradadas ou marginais, legitima a expropriação dos
territórios para a expansão das monoculturas e oculta os
conflitos sociais.
Reafirmamos nossa luta de
mais de uma década contra os transgênicos: o avanço dos
agrocombustíveis, do etanol de segunda geração e da produção
de bioplásticos inclui um componente estrutural de
biotecnologia, transgenia e biologia sintética, fatores que
representam uma nova frente de ameaça à biodiversidade.
O atual modelo de produção
e consumo, promovido pelos países do Norte é insustentável e
coloca em risco a vida do planeta. Diante da crise
estrutural do sistema capitalista, que engloba a questão
energética, ambiental, alimentar, financeira e de valores é
preciso repensar o modelo de sociedade e de civilização.
Defendemos como proposta alternativa a soberania energética,
que não poderá ser alcançada em detrimento da soberania
alimentar:
A soberania energética e
alimentar é o direito dos povos de planejar, produzir e
controlar a energia e os alimentos nos seus territórios para
atender as suas necessidades:
-
Requer uma nova
organização do modo de vida em sociedade e das relações
entre campo e cidade.
-
Pressupõe um sistema alimentar calcado na reforma
agrária em bases ecológicas adaptada as particularidades
de cada bioma, como real alternativa aos problemas da
escravidão no campo, da superexploração dos
trabalhadores rurais e de concentração e acesso a terra;
o fortalecimento do campesinato e das economias locais;
a valorização dos hábitos alimentares e culturais; a
diminuição das distâncias entre produção e consumo e
relações solidárias de comercio.
Este sistema é também menos
dependente, mais eficiente pode ser autosuficiente em
energia. É mais apropriado e resistente e é a real solução
para a crise climática, provocada pelo modelo agroindustrial
petrodependente que é reproduzido na estratégia dos
agrocombustíveis, a qual nos opomos.
A soberania energética
pressupõe um modelo de produção e consumo de energia e de
transporte baseado na racionalidade e economia, através da
mudança nos atuais padrões de consumo, na diminuição dos
fluxos planetários de bens e energia do sistema econômico
globalizado, e em modelos de mobilidade que priorizem o
transporte coletivo, públicos e de qualidade em detrimento
dos automóveis individuais. Pressupõe a substituição de
combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia
produzida de forma descentralizada e para atendimento das
demandas locais, bem como o apoio de assistência técnica e
desenvolvimento de pesquisas voltadas aos interesses dos
povos.
O preço da energia deve ser
baseado no custo da produção real e não na especulação
financeira. Tampouco pode estar sob controle de grandes
grupos econômicos.
A soberania alimentar e
energética está calcada nos princípios da democracia e da
descentralização, com participação popular no planejamento e
tomadas de decisões e gestão da produção de alimentos e
energia, incluindo o cesso e controle sobre os fundos
públicos, e da solidariedade entre os povos, considerando as
diferentes potencialidades, necessidades e soluções
apropriadas em cada país ou região.
A energia e os alimentos
são direitos dos povos, nos são dados pela terra, pela água
e pela diversidade da natureza, não podem ser tratados como
mercadorias.
Movimentos e entidades
brasileiros organizadores:
Via Campesina Brasil – MMC,
CPT, MPA, MAB, FEAB, CIMI, PJR, MST
ABRA – Associação Brasileira
de Reforma Agrária
Amigos da Terra Brasil
ANA – Articulação Nacional de
Agroecologia
Assembléia Popular
CESE - Coordenadoria Ecumênica
de Serviços
CONTAG - Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Agricultura
CTB – Central dos
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil
CUT – Central Única dos
Trabalhadores
FASE
FBOMS – Fórum Brasileiro de
ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento
FERAESP – Federação dos
Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo
Fórum Carajás
FETRAF - Federação dos
Trabalhadores na Agricultura Familiar
Instituto EQUIT
Intersindical
Jubileu Sul Brasil
Marcha Mundial das Mulheres
Plataforma BNDES
REAPI – Rede Ambiental do
Piauí
RBJA - Rede Brasileira de
Justiça Ambiental
REBRIP – Rede Brasileira pela
Integração dos Povos
Rede Alerta contra o Deserto
Verde
Rede Economia e Feminismo
Rede Social de Justiça e
Direitos Humanos
Rede Educação Cidadã
Repórter Brasil
SPM - Serviço Pastoral Dos
Migrantes
Terra de Direitos
Internacionais:
ActionAid
African Center for Biosafety,
South África
Aliança Social Continental
ATALC – Amigos da Terra
América Latina e Caribe
CEO – Observatório Europeu de
Corporações
CIECA - República Dominicana
Cone Sul Sustentável
FIAN - FoodFirst Information &
Action Network
FOCO - Foro Ciudadano de
Participación por la Justicia y los Derechos
Humanos - Argentina
Food and Water Watch
Fundação Heinrich Boell
Global Forest Coalition
Global Justice Ecology
Project, USA
Grito Dos Excluidos/As
Continental
IFG – International Forum on
Globalization
Misereor
Oilwatch
OWINFS – Rede Nosso Mundo Não
Está à Venda
Oxfam
RALLT – Red por una América
Latina Libre de Transgénicos
Rede Internacional de Gênero e
Comércio
The Oakland Institute, USA
WRM – Movimento Mundial pelos
Bosques Tropicais |