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20.05.2010
O debate em torno da
crise climática
Por: Maria Luisa Mendonça
A
crise climática passou a ser um dos temas centrais da
atualidade e, como era esperado, há diversas interpretações
e interesses em jogo no contexto deste debate. De um lado,
há uma série de propostas de mercantilização de políticas
ambientais, em contraste com uma análise crítica sobre
razões estruturais das mudanças climáticas. Outra polêmica
pode ser resumida entre uma falsa oposição de
“ambientalistas” e “desenvolvimentistas”.
No âmbito
dos fóruns governamentais, passaram a ocorrer as
Conferências das Partes (COP), sendo que a mais recente foi
realizada em Copenhagen, em dezembro de 2009. Este espaço
tem sido marcado por políticas neoliberais de privatização
de bens naturais, como o mercado de carbono, previsto no
Protocolo de Quioto. Este tipo de projeto tem beneficiado
grandes empresas e latifundiários, que lucram com a expansão
dos chamados “desertos verdes”, por exemplo, o monocultivo
de eucalipto, soja e cana.
A
frustração de movimentos sociais diante das posições deste
fórum gerou a convocação para a Conferência Mundial dos
Povos sobre as Mudanças Climáticas, em abril de 2010, em
Cochabamba. O encontro, que reuniu mais de 30 mil pessoas,
expressou a convicção de organizações sociais dispostas a
colocar o tema de forma aprofundada. “O capitalismo é
sinônimo de inanição, de desigualdade, de destruição. Ou
morre o capitalismo, ou morre a Terra”, resumiu o presidente
boliviano Evo Morales na cerimônia de abertura.
O
contraste entre o conteúdo das conferências de Copenhagen e
Cochabamba reflete o centro do atual debate, ou seja, é
preciso reconhecer que há agentes principais destruidores e
poluidores, que devem ser claramente identificados. A
declaração dos movimentos reunidos na Cúpula dos Povos
responsabiliza as grandes empresas, governos e parte da
comunidade científica, que se apropriam do discurso
ambientalista visando expandir a privatização da natureza e
o poder do capital.
Itelvina
Masioni, dirigente do Movimento Sem Terra, explica que os
camponeses são os mais afetados pelo impacto das mudanças
climáticas na produção de alimentos e, ao mesmo tempo,
sofrem com a expulsão de suas terras pela pressão da
indústria de agrocombustíveis—uma falsa alternativa para
combater o aquecimento global, já que expandem o monocultivo
e a destruição ambiental. Por outro lado, a agricultura
camponesa, baseada na agroecologia e na democratização da
terra, representa uma real solução para a crise climática.
“Temos compromisso com as gerações futuras e, por isso, é
preciso pressionar os governos por ações concretas, a partir
da luta local, em nossos territórios”, defende Itelvina.
O centro
do debate, portanto, é a mudança do modelo econômico e do
chamado “desenvolvimento”. Porém, o discurso difundido por
grandes empresas poluidoras (como petroleiras, mineradoras,
de agricultura extensiva, automotivas, entre outras) coloca
a crise ambiental como um problema individual. Ou seja, se
todos somos culpados, ninguém tem culpa. É claro que nossas
opções individuais cumprem algum papel na preservação de
bens naturais, mas o foco neste ponto esconde a
responsabilidade dos principais agentes da destruição
ambiental.
A
apropriação do discurso ambiental visando o lucro mostra que
é simplista dizer que necessariamente existe uma oposição
“ambientalismo / desenvolvimentismo”. O uso destes dois
termos merece algumas considerações. Por um lado, há a ideia
de “responsabilidade social”, difundida por grandes empresas
que burlam regularmente a legislação ambiental e
trabalhista. Para esconder práticas destrutivas, estas
empresas montam projetos sociais pontuais, como forma de
propaganda e para conseguir benefícios fiscais. Os projetos
de “responsabilidade” social e ambiental premiam empresas
que sistematicamente violam direitos básicos.
“Grandes
empresas passaram a utilizar a questão ambiental como forma
de aumentar suas taxas de lucro. No caso da energia, por
exemplo, o falso discurso da escassez serve para justificar
o controle sobre bens naturais, como terra e água. É preciso
aprofundar este debate na sociedade, fazer o trabalho de
base e combater as falsas alternativas de grupos econômicos
que procuram mercantilizar o tema das mudanças climáticas”,
avalia Gilberto Cervinski, do Movimento dos Atingidos por
Barragens.
O discurso
desenvolvimentista serve para defender grandes projetos de
infraestrutura, que têm como base o monopólio sobre bens
naturais e um modelo econômico centrado na exportação de
produtos primários, a partir de uma demanda externa. Em
alguns casos, este tipo de política é confundida com a
teoria marxista de desenvolvimento das forças produtivas.
Para começar, um dos fundamentos do pensamento marxista é a
crítica à propriedade privada.
Em O
Capital, Marx explica que uma forma de renda diferencial
da terra se dá através da apropriação de recursos naturais
como objetos de monopólio, que geram lucro suplementar.
Segundo esta tese, o título de propriedade sobre uma parcela
do globo terrestre significa que “parte da sociedade exige
da outra um tributo pelo direito de habitar a terra”.
Portanto, “na propriedade fundiária se inclui o direito do
proprietário de explorar o solo, as entranhas da terra, o ar
e, por conseguinte, o que serve para conservar e desenvolver
a vida”.
Os
resultados de projetos “desenvolvimentistas” no Brasil, como
as grandes barragens, a mineração e o monocultivo extensivo
são devastação, violência e destituição dos meios de
subsistência dos trabalhadores, com o objetivo de beneficiar
grandes empresas nacionais e estrangeiras. Portanto, não
podemos dizer que serviram para desenvolver o país, no
sentido de trazer melhorias no padrão de vida da sociedade.
O estágio
atual da análise sobre estas questões é singular, já que
vivenciamos os efeitos das múltiplas crises deste modelo
econômico. O conceito de justiça climática ajuda a difundir
propostas ecológicas a partir da luta concreta dos povos por
seus direitos básicos de sobrevivência.
Maria Luisa Mendonça é jornalista e
coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
Publicado originalmente no jornal
Brasil De Fato, 13 de maio de 2010 |