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20.10.2008
Declaração da III Assembléia das mulheres V.C.

Reunidas em Maputo, Moçambique, no marco da V conferencia Internacional de la Via Campesina as mulheres do campo de diferentes continentes, realizamos nossa III Assembléia Mundial. Nos encontramos com a alegria em compartilhar o carinho das companheiras, a riqueza de nossas culturas diversas e a beleza das mulheres da África, Ásia, Europa e das Américas.

Mulheres com histórias e lutas comuns pela vida, pela terra, pelos territórios, pela Soberania Alimentar, pela justiça, pela dignidade. Mulheres que compartilhamos saberes e experiências, convencidas que as idéias, como as sementes, quando são intercambiadas crescem e multiplicam-se.

Somos mulheres que ao longo da história têm lutado contra a violência. Lutadoras que defenderam e continuam defendendo nossos territórios e culturas do saqueio, da devastação e da morte perpetradas por quem nos impuseram seu poderdes desde os tempos coloniais, e hoje continuam tentando colonizar não só nossos territórios, como também nossas mentes e nossas vidas.

Como mulheres, reclamamos o respeitos de todos nossos direitos, rejeitamos o sistema patriarcal, e todas suas expressões descriminatórias; e nos reafirmamos no exercício pleno da participação cidadã. Exigimos nosso direito a uma vida digna; o respeito a nossos direitos sexuais e reprodutivos; e a aplicação imediata de medidas para erradicar toda forma de violência física, sexual, verbal e psicológica; como também exigimos a eliminação de práticas de feminicídio que ainda persistem.

Denunciamos que os processos migratórios, particularmente o das mulheres, estão estreitamente relacionados com o empobrecimento e a violência social e de gênero no campo. Os deslocamentos das mulheres para centros de produção empresarial, o tráfico de mulheres para enriquecer a indústria do entretenimento, assim como as expulsões das mulheres das terras produtivas, conjuram contra a permanência e meios de sustento das comunidades camponesas e contra a Soberania Alimentar.

Reafirmamos que denunciar a descriminação contra as mulheres, implica em reconhecer que, embora o sistema patriarcal capitalista e o machismo tenham existência histórica, o modelo neoliberal acirra as condições de descriminação e aumenta as situações de violência contra mulheres e meninas nas zonas rurais. Por tanto na luta anti-neoliberal, deve-se seguir paralelamente com a luta pela igualdade de gênero, a não descriminação das mulheres e o combate sem um minuto de vacilo contra todas as formas de violência doméstica que sofrem as mulheres.

Reconhecemos que todas as mulheres sofremos a discriminação, contudo, nem todas mulheres são discriminadas igualmente. Não é a mesma coisa ser mulher dentro da parcela dos 20% mais ricos do que ser mulher da parcela mais pobre; não é a mesma coisa ser empresária que ser trabalhadora; ser jovem, adulta ou mais velha; ser branca, negra, mestiça ou indígena; ser urbana ou ser rural.

Sob este modelo de globalização neoliberal, a atual divisão internacional do trabalho se estrutura também pela divisão sexual do trabalho. As mulheres estão concentradas em setores de produção controlados pelas transnacionais, como em determinados ramos do agro-negócio, as maquilas do México, América Central e Ásia, ou o turismo sexual.

Nós mulheres sofremos discriminação de classe, gênero, étnica, sexual, estética, entre outras. É necessário assumir esta complexidade em nossa luta política para conquistar a Soberania Alimentar, e acabar com a discriminação, a opressão, a exploração, em um caminho que nos permita avançar na construção de uma sociedade distinta.

Para conquistar a Soberania Alimentar como mulheres da VC nos comprometemos a lutar conjuntamente por uma Reforma Agrária integral, para eliminar todas as formas de violência que são geram nos modos de produção capitalistas. E que causam as crises dos alimentos no mundo, a mudança climática, o avanço dos monocultivos, os transgênico e os agronegócios.

Estas expressões incluem:

  • aumento da fome e das enfermidades graves e mortais;

  • aumento significativo da pobreza e aumento ............ entre ricos e pobres;

  • violação dos direitos humanos e repressão política;

  • mercantilização e privatização da natureza e das terras agrícolas tradicionais, levando os povos indígenas, camponesas e camponeses a deslocamentos e migrações forçadas;

  • privatização e contaminação da água e do ar;

  • extração incessante de minerais e a destruição, a apropriação e a concentração da terra produtiva;

  • perda dramática da biodiversidade e destruição dos bosques;

  • destruição das tradições, conhecimentos e métodos de produção camponesa;

  • mudanças climáticas imprevisíveis que destroem os cultivos;

  • perda do controle das sementes pelas camponesas e camponeses, e sua a apropriação pelas empresas transnacionais, resultando na perda de alimentos culturalmente apropriados, e

  • incremento dos preços dos alimentos básicos sem que eles beneficiem a camponesas e camponeses, nem a pequenas agricultoras e pequenos agricultores.

Acabar com estas formas de violência que são geradas por este sistema capitalista neoliberal exige nosso esforço e unidade na luta, e nosso compromisso na construção de uma sociedade mais justa.

A luta contra a violência contra as mulheres começa em nossos corações e em nossas consciências. Unamos nossas vontades para construir um mundo rural sem violência, começando por construir uma mulher nova e um homem novo.

Nós mulheres da VC continuaremos construindo um mundo rural vivo, justo, solidário e e igual, em prol de Soberania Alimentar. Nesta 3a. Assembléia Mundial das Mulheres conclamamos a todos os membros, de todas as partes do mundo, mulheres e homens, a assumir esta luta.

Pela vida e pela Soberania Alimentar. Basta e violência contra as Mulheres do campo. Já.

Globalizemos a Luta
Globalizemos a Esperança

Globalize Struggle!

 

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