|
21.01.2011
"Venenos agrícolas matam"
Do Instituto Humanitas
Unisinos
Em
entrevista à IHU On-Line, o pesquisador e engenheiro
agrônomo Julio Cesar Rech Anhaia, destaca a importância de
se abrir o debate sobre o uso dos transgênicos e
agrotóxicos. "Não temos controle sobre o uso dos
transgênicos. Quem tem o controle são as multinacionais que
hoje estão posando de 'donas' das sementes", afirma.
Julio
Cesar Rech Anhaia é engenheiro agrônomo. Trabalha na
Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Alegrete, no Rio
Grande do Sul, e é tutor do curso de Agricultura no
Instituto Federal Farroupilha.
Confira a
entrevista.
IHU On-Line - Quais são os principais venenos
agrícolas utilizados no Rio Grande do Sul, atualmente?
Julio
Cesar Rech Anhaia - O que é mais usado é o herbicida. Depois
vêm os inseticidas e os fungicidas, nesta ordem de
utilização.
IHU On-Line - Quais são os mais
problemáticos?
Julio
Cesar Rech Anhaia - Lamentavelmente, o que está faltando é
responsabilidade dos próprios colegas. Não podemos
generalizar, mas uma boa parte do pessoal que trabalha nessa
atividade, de técnicos de nível médio a profissionais de
nível superior, não tem dado a devida atenção ao fato de que
muito veneno está sendo utilizado. Eles não observam as
normas técnicas, a umidade, a temperatura, o vento. Nos
campos sulinos ou no bioma pampa nós temos quase que
semanalmente denúncias sobre o uso abusivo de agrotóxicos
que causam inúmeros acidentes. E esses acidentes ocorrem
principalmente com os herbicidas e acabam dizimando as
plantações de frutíferas.
O nosso
pequeno produtor acaba sendo desestimulado em função dessas
perdas, o que acaba causando um problema que influencia até
no aumento do êxodo rural. Desde as crianças e os jovens até
os educadores e os formadores de opinião, todos devem fazer
uma reflexão sobre a maneira como nós estamos tratando a
nossa qualidade de vida e a biodiversidade. A situação é
muito preocupante. Se você procurar informação sobre os
atendimentos do pronto-socorro aqui na região, não
conseguirá obter dado algum, porque não há um interesse em
notificar acidentes em decorrência do uso de agrotóxicos e,
por consequência, que se tome uma atitude em relação a isso.
E não é só a cidade de Alegrete, onde vivo, que está
passando por esse tipo de problema. Cidades como Uruguaiana,
São Borja, Barra do Guaraí, Itaqui e Maçambará também estão
sofrendo com problemas causados pelo uso de agrotóxicos de
forma intensa.
IHU On-Line - Quase 100% do milho colhido no
RS neste ano é transgênico. O que isso significa para a
agricultura do estado?
Julio
Cesar Rech Anhaia - É um risco terrível. Canguçu, por
exemplo, é o berço da agricultura familiar, inclusive lá
existem trabalhos fortes no sentido de se produzir produtos
que venham da pequena atividade agrícola. Mas já está
passando por problemas em decorrência do uso de sementes
geneticamente modificadas. Não temos controle sobre o uso
dos transgênicos. Quem tem o controle são as multinacionais
que hoje estão posando de "donas" das sementes. Com isso,
nosso pequeno produtor vai ficar a mercê disso aí, porque as
nossas sementes nativas propriamente ditas acabam sendo
contaminadas e, por conseguinte, deixam de ser nativas.
IHU On-Line - Num artigo, o senhor diz que a
difusão do uso de venenos agrícolas, para o controle de
pragas e plantas invasoras na agricultura brasileira, foi
favorecida pelo sistema de crédito rural. O sistema de
crédito precisa mudar para que possamos mudar a cultura do
uso dos venenos nas plantações?
Julio
Cesar Rech Anhaia - Com certeza. As instituições financeiras
estão cobrando questões e documentações extras do
responsável técnico para que o crédito rural possa ser dado,
embora nós tenhamos construído um manual de crédito rural.
Há bem pouco tempo, no pacote do crédito rural era exigido,
embora o nosso produtor não precisasse utilizar venenos, que
obrigatoriamente os venenos precisavam ser comprados para
que fosse usar ou não na sua atividade. Isso tem que ser
mudado, tem ser discutido, realmente com os produtores, as
entidades, as cooperativas porque, muitas vezes, essas
normas regulamentadoras acabam vindo de cima para baixo e o
pequeno produtor fica sendo o mais prejudicado. O crédito,
inclusive, muitas vezes é negado porque o produtor não quer
se submeter a esse tipo de condição que é exigido.
IHU On-Line - Quais as consequências para
ambientes como o aquífero Guarani em função do uso de
venenos agrícolas hoje no RS?
Julio
Cesar Rech Anhaia - Alegrete fica localizada em cima do
aquífero Guarani e do aquífero Botucatu. Essa é denominada
uma zona de recarga. E nessa área nós temos monocultura do
arroz que usa muito veneno. Além disso, nós temos a
monocultura do eucalipto que já está causando um
desequilíbrio ambiental muito grande. É necessário que
voltem a ocorrer pesquisas que meçam a influência do uso dos
agrotóxicos nesses aquíferos.
Já
percebemos, através de pesquisa, que a Bacia Hidrográfica do
rio Santa Maria assim como a do rio Uruguai, em função do
uso intenso de veneno nas lavouras e a destinação inadequada
das embalagens de agrotóxicos que são jogadas na beirada de
recursos hídricos, acabam gerando intoxicações e degradação
de toda a nossa biodiversidade. Sabemos que a luta contra as
transnacionais é terrível e, muitas vezes, desigual, mas não
podemos cruzar os braços. Nós seguimos lutando através da
educação, da conscientização, da percepção das pessoas e
alertando que estamos acabando com a vida quando utilizamos
venenos nas plantações. A questão do agrotóxico ela deve
continuar sendo debatida, para que nós tenhamos uma
reversão. As consequências estão aí. |