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21.05.2010
Bom dia, Belo Monte! Boa
noite, Rio Xingu!
Dom Erwin Krautler*
O que
sempre defendi foi que o Brasil poderia dar ao mundo um
exemplo de cuidado mais esmerado com o meio ambiente e, ao
mesmo tempo, de avanço na busca de fontes alternativas de
energia, como a energia solar e a eólica. No Brasil não nos
faltam universidades, centros de pesquisa e cientistas de
ponta na busca de tais alternativas. Falta, no entanto, mais
incentivo para tal. Em nossa Amazônia tropical, teríamos
energia solar de sobra. Em outros países não tão abençoados
com os raios solares como o Brasil (Estados Unidos e
Alemanha, por exemplo), a percentagem de energia solar
utilizada está aumentando significativamente a cada ano que
passa. Não me cabe analisar o aspecto técnico, mas estou
convicto de que na Amazônia se poderia investir mais em
estudos desse tipo, certamente com bons resultados a médio e
longo prazos.
Em artigo
publicado pelo Correio Braziliense, em 7 de maio (Bom dia,
Belo Monte, pág. 19), o engenheiro Nagib Charone me acusa de
deixar os belíssimos ensinamentos de Cristo. Aí ele me acusa
de maneira leviana. Entrou no rol daqueles que atacam o
bispo do Xingu de forma gratuita e rasteira. Lamento que um
professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), filho de
Altamira, chega a excessos de crítica tão maliciosa. Nunca
tive a intenção de lançar-me em debate técnico. O que me
preocupa em relação a Belo Monte é exatamente a situação da
população que será impactada se o projeto for executado.
Ao longo
de cerca de 100 km, a volta grande do Xingu sofrerá redução
da vazão e rebaixamento do lençol freático, com vários
impactos biológicos e sociais associados. Essa perda de
recursos naturais e hídricos prejudicará diretamente os
povos indígenas. Afirma-se em bom e alto som que áreas
indígenas não serão inundadas. O contrário é que vai
acontecer. Será cortada a água aos indígenas e ribeirinhos.
Como viver no seco? De que se alimentarão, já que as
espécies que vivem nesse trecho do rio não sobreviverão sob
um regime de vazão? Em outras palavras, o que os indígenas e
ribeirinhos vão comer, se não há mais peixe? Apenas farinha
puba?
Um terço
de Altamira vai para o fundo. Entre 20 e 30 mil pessoas
serão diretamente atingidas. A maioria desse povo não vive
em palafitas (como costuma-se afirmar em Brasília), mas em
casas de alvenaria ou madeira construídas ao longo de anos
com muito suor e sacrifício. A maioria dessa gente não tem
escritura. O que será dessas famílias? Qual é o futuro
delas? Para onde irão? Os representantes do governo até hoje
não me responderam a essa pergunta. Isso me causa até
pesadelos, pois para mim essas pessoas não são apenas um
dado estatístico, mas mulheres, homens, crianças, idosos que
conheço.
O que
resta da cidade de Altamira, se o projeto for realizado,
vira uma península, cercada parcialmente por um lago
estagnado, podre, morto. O Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) não
conseguiu ultimar os estudos necessários a respeito da
qualidade da água e certamente não conseguirá fazê-lo. A
qualidade da água do lago artificial é uma incógnita, é
imprevisível. Fato é que, segundo a experiência feita em
outros lugares (Tucuruí, por exemplo), esse lago será um
viveiro de carapanã e de todo tipo de outros mosquitos e
gerador de doenças endêmicas. Altamira já está cheia de
dengue. O que será de nossa cidade?
São essas
as minhas preocupações, minha aflição, minha angústia em
relação ao futuro do povo de Altamira, dos povos indígenas e
ribeirinhos do Xingu. Como bispo e pastor, defendo o meu
povo, impulsionado exatamente pelos belíssimos ensinamentos
de Cristo, contidos no Evangelho.
* Bispo do Xingu e Presidente
do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) |